The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Linha do Bronzeado

mau_emprego.jpg

Desde que me lembro, nas salas de reuniões do edifício principal das Belas Artes do Porto estão pendurados os mesmos quadros, pinturas a óleo de modelos nus, tons de pele pálidos sobre fundos escuros, exercícios de aulas de figura humana de há muitas décadas atrás. Nos momentos mais difíceis das reuniões mais aborrecidas, encontrei sempre algum consolo irónico neles, em particular numa pequena pintura quase impressionista de Prometeu com o seu fígado a ser devorado por uma águia.

Mas o meu favorito é um nu de dimensões médias. Representa um homem de cabelo escuro, com uma daquelas bigodaças a que os americanos chamam “de manivela”. Nota-se que é um trabalhador manual, robusto e muscular de uma maneira densa que ninguém que vai ao ginásio três vezes por semana consegue alcançar. As linhas de bronzeado no pescoço e nos braços – um verdadeiro bronzeado de camionista, muito antes de ter sido inventado o camião – demonstram bem que trabalhava ao ar livre, talvez no campo. Tirando a cara e os braços, é pálido como uma folha de papel, mas os alunos que o pintaram nessa aula distante deviam ser bem mais pálidos. Filhos de famílias com posses, futuros artistas e intelectuais, podiam dar-se ao luxo de demonstrar na pele que não faziam trabalhos pesados ao ar livre.

Actualmente as coisas inverteram-se, e a palidez escanzelada é sinal de que não se tem dinheiro suficiente para ir de férias ou para pagar um ginásio. Enquanto os operários do século XIX trabalhavam com o corpo, os operários de agora trabalham num escritório das nove às sete e, se tiverem algum dinheiro de sobra, podem ir ao ginásio trabalhar na maquinaria pesada, tentando ficar parecidos com as classes mais altas. Agora, até o trabalho mais comum é intelectual, mas não se trata do mesmo género de intelectualidade de que se falava no século XIX, criativa, solitária e amargurada. Esta nova intelectualidade é industrializada, chata, corriqueira e triste e os designers gráficos fazem parte dela.

Se os tipógrafos são realmente os antepassados dos designers – tenho as minhas dúvidas –, então a profissão mudou tão radicalmente durante o século XX como o valor que se dá aos bronzeados. Uma actividade que era essencialmente uma indústria de média dimensão, exercida no meio do metal e da tinta, transformou-se numa actividade secretarial exercida em pequenos aparelhos com um teclado e um ecrã brilhante, que toda a gente diria serem descendentes distantes das velhas máquinas de escrever.

O que ficou pelo caminho foi a consciência de que o design, apesar da criatividade e da inovação, apesar de ser um trabalho intelectual, ainda assim é um trabalho sólido, e com essa consciência também ficou pelo caminho todo um conjunto de direitos. Neste momento, o design é uma actividade estruturalmente precária, o exemplo perfeito de uma intelectualidade industrializada, suficientemente criativa para toda a gente pensar que se faz por gosto e não por necessidade.

Anúncios

Filed under: Burocracia, Computador, Crítica, Cultura, Design, Ensino, História, Política

One Response

  1. jane austen diz:

    Fígados comidos por águias é o pão-nosso de cada dia. Uma espécie de foie gras invertido (e nada divertido).
    Pelo menos os maus momentos dão bons textos. Hang on!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Comentários Recentes

Lia Ferreira em Por um lado
Jose Mateus em Censura em Serralves
L. em Lisboa Cidade Triste e Al…
Mário Moura em Livro
João Sobral em Livro

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: