The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Livro de Código

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Há uns tempos, na secção de design da Fnac, apareceu um livro sobre sinais de trânsito. Tratava-se de Signs: Lettering in the Environment, de Phil Baines e Catherine Dixon, uma edição da Lawrence King com fotografias a cores de sinais de toda a Europa.

Pelo meio apareciam alguns exemplos portugueses e confesso que senti um certo orgulho pátrio ao folheá-lo: havia uma daquelas paragens em cimento pintado de branco com um autocarro preto em baixo-relevo, uma velha placa metálica dos STCP e um magote de setas algarvias indicando ambiguamente ruas, hotéis, monumentos e restaurantes. O preço proibitivo do livro (44 € e trocos) talvez surpreenda um não-designer mas ajudou-me a resistir-lhe — mais tarde, uma das minhas alunas de design sugeriu que seria mais barato comprar um livro de código.

O interesse por sinalética urbana não é raro entre os designers gráficos, levando-os por vezes a acções menos conformes com a legalidade. Lembro-me de alguns colegas de curso “coleccionarem” regularmente sinais de trânsito (parecem muito maiores quando os vemos na sala de estar de alguém), números de porta e mesmo letras de matrículas de automóvel em plástico branco pré-CEE. Por vezes, acrescentavam os seus próprios sinais à cidade sob a forma de cartazes, autocolantes, stencils e graffittis.

Mas será que este fascínio semiótico chega para justificar um livro sobre sinais de trânsito de todo o mundo? Não deveriam ser iguais em todo lado, obedecendo a uma linguagem universal estandardizada baseada em imagens que toda a gente entenda? Uma consulta ao livro da Fnac demonstra o contrário: o vulgar “homem das obras” inclinado sobre o seu monte de terra assume aspectos radicalmente diferentes de país para país. Às vezes podemos distinguir o contorno da sua roupa, outras vezes assemelha-se a um stick-man genérico. Mesmo o monte de terra oscila entre o triângulo isósceles e uma mancha de contornos irregulares.

No livro de Phil Baines e Catherine Dixon assistimos uma discreta babelização: aquilo que foi feito para comunicar universalmente também pode realçar diferenças e territórios. No caso dos sinais de trânsito, as diferenças são contingentes: designers locais aplicam relaxadamente as directivas internacionais, mas este tipo de desvio em relação à regra também tem sido aproveitado em outros contextos. Num anúncio português, o “homem das obras” escava uma sepultura numa campanha contra a mortalidade nas estradas; em Inglaterra sai do triângulo para ver passar um automóvel de marca. A mensagem é óbvia: nem estes homúnculos genéricos, diplomáticos e isentos podem ficar indiferentes a estas mensagens.

Isto acontece porque estes símbolos apelam para uma certa ideia de universalidade que pode servir para realçar manifestações de identidade. Certas sinaléticas afirmam a sua sofisticação por uma distância irónica em relação à norma: numa pizzaria lisboeta perfis renascentistas da autoria de Piero della Francesca distinguem a casa de banho dos homens da das mulheres; num outro bar, as casas de banho são assinaladas por um Ken e uma Barbie dentro de vitrinas. O tipo e grau de distância em relação à norma ajudam a criar o ambiente e mesmo identidade de cada um destes lugares.

A oposição a uma norma também pode ser — literalmente — um acto de contestação ou de subversão. A comunicação em espaços públicos é uma actividade cuja regulamentação dificulta o seu uso por pessoas comuns. Apesar de aparecer constantemente nas nossas vidas dificilmente admite uma resposta. Há alguns anos, Umberto Eco já tinha proposto uma “guerrilha semiológica” em que o público podia subverter e reinterpretar localmente a comunicação de massas. Os pintores de graffittis e adBusters são bons exemplos desta guerrilha, que se assume como uma forma de direito de resposta.

No caso do graffitti “clássico” trata-se sobretudo de reclamar um território “marcando-o” com uma sinalética própria. Por exemplo, nos últimos anos, uma (ou várias) pessoas têm espalhado as letras GMB por toda a zona do Porto (cheguei a ver esta marca na estação de comboios de Marco de Canaveses). A sua maior obra é a estação de autocarros abandonada de Francos, um edifício enorme inteiramente forrado a GMBs em toda a sua extensão e altura (dois andares e cerca de trezentos metros de comprimento).

Em contrapartida, a modificação pelos adBusters de mensagens públicas, publicitárias, políticas ou simplesmente utilitárias constitui um processo poderoso de contestação ou de resposta à publicidade massificada. Os famosos narizes vermelhos acrescentados aos outdoors na última campanha política foram um bom exemplo deste tipo de actividade. Aqui não se trata de espaços que são marcados como territórios, como no caso dos graffitti, mas do próprio código da cidade que é modificado e desviado das suas funções normais. No Porto, por exemplo, tem aparecido uma versão pirata do letreiro que identifica um imóvel do estado em que aparece “Estado do Património” em vez de “Património do Estado”. Segundo a autora, que encontrei depois alguns inquéritos, a ideia era alertar para o estado de abandono do património de estado. Há quem desvalorize este tipo de actividade, dizendo que se trata de mero vandalismo, coisas de adolescente, etc, mas seria de estranhar que, numa altura em que o espaço público está tão saturado de mensagens, não houvesse a tentação de nele participar mais activamente.

A maneira como vivemos, como nos relacionamos com os outros, como escolhemos o nosso governo, como compramos e como vendemos está inscrita graficamente nos nossos espaços públicos. A maioria das pessoas recebe esta informação passivamente, mas talvez fosse importante sabermos quem a faz, como funciona, quanto custou, etc. Este conhecimento não pode senão contribuir para uma maior participação e responsabilidade no uso dos espaços públicos e na sua preservação.

Este texto foi publicado numa outra versão na revista Margens & Confluências.

Filed under: Apropriação, Crítica, Cultura, Design, , , ,

3 Responses

  1. “…num outro bar, as casas de banho são assinaladas por um Ken e uma Barbie dentro de vitrinas…”

    Gostei da ideia 🙂
    Concordo com o Umberto Eco (pelo que aqui é transcrito) – “…Umberto Eco já tinha proposto uma “guerrilha semiológica” em que o público podia subverter e reinterpretar localmente a comunicação de massas…”. Penso que é benéfico para o seu espaço envolvente a integração também da sinalética no seu espaço, mas feita de uma forma comunicativa. E não como se encontra por vezes com as letras “S” e “H” ou algo semelhante em que tentamos decifrar os seus correctos significados e entramos com algum receio no espaço. Se estivermos “alegremente afectados” com que imediatismo respondemos a esta “comunicação”?

    Penso que daria uma boa (mini)-tese…

    SP

  2. por falar em códigos e icones. Está de momento a decorrer numa associação o concurso (dga-se voluntário) para o pictograma de “PUSH and PULL” das portas. Tais traduções custumam ser feitas por palavras, da língua materna (para os internos) ou estrangeira (para os turista – externos).

    A base do concurso encontra-se no site http://www.designfortheworld.org

  3. Não sei se o Mário já conhece o Book Depository, lá garanto-lhe que não custa nem metade desse valor e os portes são gratuitos, pode é não estar disponível…

    http://www.bookdepository.co.uk/

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