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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Cena Independente do Porto ou a Comunidade enquanto Mercadoria

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Thus, and thus only, the whole place had properly to be regarded; it had to be considered not so much as a workshop for artists, but as a frail but finished work of art.

G.K. Chesterton, The Man Who Was Thursday – A Nightmare

No começo do livro “O Homem que Era Quinta-Feira”, G.K. Chesterton descreve uma colónia de artistas londrina do começo do século XX como uma obra de arte acabada e frágil, que nunca produz realmente arte. Mas as aparências enganam, e a comunidade pacata mascara assuntos sérios, neste caso a guerra secreta entre uma conspiração governamental e uma conspiração de anarquistas, que acaba por se revelar finalmente como apenas um jogo de espelhos, sem verdadeiros antagonismos. Da mesma forma, aquilo a que se chama a cena independente do Porto é também uma frágil e acabada obra de arte que esconde alterações profundas no modo de ser dos artistas, quer a nível económico como social.

Chamaremos cena independente a uma constelação de pequenos grupos de artistas que mantêm espaços de exposição mais ou menos informais em casas quase devolutas, em centros comerciais, em cafés, etc. Expõem aí o seu próprio trabalho e o de outros artistas, músicos ou designers, pertencentes também à cena, ou vindos de outras cidades, frequentemente de outros países. Estes espaços integram-se dentro de um contexto mais vasto que inclui também lojas de produtos mais ou menos alternativos, discos, comidas, roupas, mobiliário, um género de comércio que se tem fixado em algumas partes do Porto, como a rua do Almada ou a rua Miguel Bombarda. No entanto, a localização da cena acaba por não ser determinante – alguns dos sítios mais interessantes estão afastados destes circuitos, sem com isso perderem qualquer protagonismo.

A cena ganhou reputação graças a alguma cobertura jornalística e televisiva, em particular os textos do crítico de arte Óscar Faria no jornal Público, que levaria também ao interesse de galerias e instituições. Mas embora muitos dos artistas da cena já sejam representados por galerias, expondo também, de forma mais ou menos regular, em instituições culturais e eventos oficiais, nacionais ou internacionais, o seu trabalho continua a aparecer nos mesmos locais alternativos. Portanto, para muitos dos seus protagonistas, a cena não é nem a única saída, nem uma fase da carreira entretanto abandonada.

Durante os anos preparatórios do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, a cidade seria o palco de inúmeras iniciativas onde já se destacavam alguns dos protagonistas do que viria a ser a cena, muitos deles nos anos finais dos seus cursos. Este ambiente de optimismo cultural terminaria com a eleição de Rui Rio, nos primeiros meses de 2002, que começaria um ciclo de desinvestimento municipal, obrigando os artistas a procurarem formas alternativas de financiamento. No entanto, é um erro atribuir apenas a Rui Rio a crise que seria determinante na criação da cena, quando este se limitou a representar a fase final de um processo mais vasto e mais antigo de desinvestimento público e, mesmo privado, na cultura, que ocorre desde os anos oitenta e que corresponde às políticas económicas neo-liberais, à erosão do Estado Providência, etc.

Por um lado, cortaram-se os apoios do estado, incentivando à iniciativa privada, através de deduções de impostos, o que implicou a privatização efectiva das decisões de financiamento ao nível da cultura – pagando a privados para tomarem decisões pelo estado, à custa de dinheiros de impostos. Por outro lado, cria-se o estigma da subsídio-dependência, levando os apoios à cultura a ganharem um carácter duplo de legitimação e de vergonha, incentivando os artistas a procurarem os seus próprios financiamentos, geralmente do seu próprio bolso.

Mas se o corte de apoios à cultura parece implicar um mercado sem capacidade para suportar uma quantidade crescente de artistas, o efeito desta política no ensino das artes seria, à primeira vista, paradoxal, levando ao aumento de alunos como forma de manutenção orçamental, e lançando cada vez mais artistas licenciados num mercado cada vez mais inexistente. Muitos destes jovens artistas acabam por trabalhar noutras funções, para o estado ou para instituições culturais privadas – museus, escolas, universidades –, como forma de financiarem as suas próprias actividades artísticas, locais de exposição e meios de divulgação.

Estas condições económicas levariam à criação da cena, um modo de vida, que embora se pretenda alternativo em relação a um centralismo do estado, não só não o contradiz, como até o sustenta, não lhe sendo sequer verdadeiramente alternativo, mas apenas suplementar. Se não depende directamente do estado para se financiar, por outro lado continua a depender dele e de instâncias privadas para obter a sua legitimação. Assim, a cena nunca pretendeu ser uma substituição completa do esquema de legitimação “oficial”, mas apenas de uma forma de entrada, um pé na porta. Não se trata portanto de uma independência total, que poderia jogar como uma crítica ou mesmo rejeição do sistema, mas de uma forma assumida de entrar nesse sistema. No final, o poder de legitimação mais eficaz continua reservado às instituições de maior dimensão.

Ao nível social, o modelo do artista auto-sustentado, auto-subsidiado, que tem um emprego para ganhar dinheiro, mas cuja verdadeira carreira consiste em investir fora de horas esses ganhos na sua própria arte, esbate as distinções entre tempo livre e trabalho, amadorismo e profissionalismo, produção e consumo, sendo o exemplo acabado de subjectividade neo-liberal. Engendrando o simulacro de uma comunidade desinteressada, até de cosmopolitismo, acaba por produzir e reforçar uma forma de sociabilidade profissionalizada. Na verdade, trata-se da própria amizade, e da própria sociedade que se tornam capitalizáveis enquanto mercadorias. Como seria de esperar, o resultado disto tudo é “coolness” – no sentido de “fixe”, mas também no sentido de “frieza”.

Uma versão deste texto foi publicada no catálogo do evento A Casa Sincera de Isabel Carvalho (editado pela Braço de Ferro, com design de Pedro Nora). Ostensivamente, a Casa Sincera foi uma aplicação do conceito de TAZ de Hakim Bey, mas acabou por ser, como de resto, muitos dos trabalhos de Isabel carvalho, uma reflexão muito eficaz sobre o que significa ser um jovem artista no Porto. A Casa Sincera reproduziu, durante alguns dias, a ideia de uma comunidade de artistas, baseada numa casa mais ou menos ocupada, numa versão sincera, inocente, até infantilizada, opondo-se assim criticamente à sociabilização profissionalizada da cena. Este texto foi escrito antes de Dois Empregos (ou mais) e faz parte de um conjunto textos dedicados às condições de produção da cultura independente.

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Filed under: Crítica, Cultura, Exposições, Política, ,

9 Responses

  1. anónimo diz:

    Começo a pensar que não há “a cena”, mas simplesmente mais “cenas”. E isso é que está a ser interessante. Damos conta que existe trabalho fora dos argumentos e das dicotomias que descreves. Essa “cena” que falas pertence a um grupo muito restrito, e concordo com quase tudo o que dizes sobre isso principalmente aqui “Estas condições económicas levariam à criação da cena, um modo de vida, que embora se pretenda alternativo em relação a um centralismo do estado, não só não o contradiz, como até o sustenta, não lhe sendo sequer verdadeiramente alternativo, mas apenas suplementar. Se não depende directamente do estado para se financiar, por outro lado continua a depender dele e de instâncias privadas para obter a sua legitimação. Assim, a cena nunca pretendeu ser uma substituição completa do esquema de legitimação “oficial”, mas apenas de uma forma de entrada, um pé na porta. Não se trata portanto de uma independência total, que poderia jogar como uma crítica ou mesmo rejeição do sistema, mas de uma forma assumida de entrar nesse sistema. No final, o poder de legitimação mais eficaz continua reservado às instituições de maior dimensão.”, mas chega de centralizar aí a reflexão. O outro trabalho que falo parece conter as problemáticas que avanças mas também as ultrapassa criando outras “cenas” (estas estão-se a marimbar para o agenciamento da legitimação). Se focarmos noutros domínios, não exclusivo das chamadas “artes plásticas”, verificar-se-á isso. O Porto está a ser muito rico em proliferação de “outras cenas”, tem que se estar atento para encontrar, e de certo estarás. É que reflectindo estas últimas a discussão que levantas parece preliminar.

  2. […] – a cena alternativa do Porto foi vingando (as razões para isso são tratadas com mais pormenor aqui e aqui), mas, como seria de esperar, os seus protagonistas não sentem demasiada gratidão em […]

  3. Esclarece-me… de que cenas falas tu anónimo? É que eu sei que há tipos que tiram cinema, música, engenharia e outras disciplinas criativas… mas as cenas, se são mesmo cenas, deveriam ser divulgadas e não apenas sugeridas em comentários anónimos. Elas já aconteceram? estão a acontecer? e porquê em segredo?

    “We want more than meets the comments box. Something to meet the eye!”

  4. Caro anónimo:

    Parece-me que o facto de haver várias cenas é aquilo que é possível ver na situação do Porto à partida, antes de qualquer análise. O que tentei fazer neste texto foi encontrar algo que essas cenas distintas pudessem ter em comum, neste caso uma condição económica comum, que se insere num quadro maior e que contribui para afectar a própria sociabilidade dos seus protagonistas. Naturalmente, existem diferenças entre a cena dos artistas, dos designers, dos músicos, mas acredito que são negligenciáveis em relação ao tipo de análise que tentei fazer. Numa segunda fase, talvez me dedique a isso; para já não.

  5. anónimo diz:

    Não vou eleger nada. Cada um saberá o que procura e encontra. A meu ver as “outras cenas” estão desde o indivíduo particular a grupos distribuídos pelos vários domínios. Penso não ser necessário um determinado “aparato” para encontrar, só estar atento e aproximar. Existem opções subtis que são de máximo interesse. Agora, detecto desde já uma dificuldade: o problema das pessoas, das reflexões, dos trabalhos, etc. não se cruzarem. O fechamento começa a ser uma característica dos modos culturais, mas daqui rapidamente se abre um problema maior: o pudor intrincado que talvez só possa ser entendido num quadro psico-sociológico.

  6. […] Um que tratava das características formais destas duas gerações de designers; este, este e este, que tratavam das condições económicas da cena independente do Porto e de como afectavam a […]

  7. […] altura em que escrevo para aqui. Podem encontrar alguns exemplos do que penso sobre o assunto aqui, aqui e aqui, quase tudo pré-crise. Agora, esta reflexão só se tornou mais urgente. E não basta […]

  8. […] viagem, não muito longe de casa, em Guimarães, onde não vinha desde as aventuras da Cena Independente do Porto há meia dúzia de anos. Também nessa altura se tinha dado um valente safanão ao país que tinha […]

  9. […] sete anos participei numas discussões ao vivo e na net sobre a cena alternativa do Porto, que na altura estava prestes a desfazer-se em artistas individuais. Essencialmente e para […]

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