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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Design e os seus Críticos

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Segundo um artigo recente no site da AIGA, há boas razões para serem sempre os mesmos designers a aparecer nas revistas, livros ou sites: não se trata apenas da qualidade do seu trabalho ou da contratação de um relações públicas, mas de ter sempre o trabalho preparado para a publicação e de não ter demasiado pudor a promovê-lo.

O artigo dá em seguida uma lista de conselhos pragmáticos, desde como elaborar e manter material de arquivo, memórias descritivas, biografias ou imagens, até como manter boas relações com a imprensa – essencialmente, um manual de boas maneiras, com títulos como “seja um bom contribuidor”, “você não é o art director”, “você também não é o escritor”, “de resto, também não é a sua revista”.

O efeito é irónico: dantes, havia aqueles conselhos que se davam sobre como mandar um trabalho para a gráfica – imagens com boa definição, atenção às cores, etc. Depois, havia aquelas anedotas sobre como lidar com os clientes mais metediços ou ignorantes. Agora, pelos vistos, os designers também precisam de aprender a lidar com a crítica.

Os conselhos vêm a calhar, porque a crítica parece estar aí em força, e até já há quem diga que se pode aprender a ser crítico profissional de design na escola. Só no mês de Janeiro apareceram pelo menos dois artigos, um na Icon e outro na Step, sobre esses novos cursos, falando das suas possíveis saídas profissionais, desde escrever para revistas, blogues ou podcasts, até comissariar exposições e eventos, e enumerando os talentos que cada um desses cursos se propõe ensinar aos futuros críticos, desde história do design até história e metodologia da crítica, passando pela habilidade para escrever de maneira cativante.

Mas de onde vem este interesse todo pela crítica do design?

De certa maneira, a crítica é a forma como uma disciplina lida com a emergência de uma opinião pública. Não se trata apenas de uma forma de promoção, mas do exercício de uma responsabilidade pública através da produção de um corpo consistente e regular de opiniões. Dito de outro modo, a crítica surge como uma forma de invocar e de representar uma opinião pública.

O facto do design se ter tornado mais acessível a todos fez com que a disciplina do design pudesse ter uma palavra a dizer sobre toda a gente, mas também que toda a gente tivesse uma palavra a dizer sobre o design – por outras palavras, deu origem a uma opinião pública. Portanto, se com os meios de produção do design acessíveis a toda a gente, se espera que um designer saiba mais do que simplesmente fazer uns logótipos no seu computador, com os meios de edição e distribuição alargada igualmente acessíveis – através dos blogues, por exemplo –, espera-se que esse designer também tenha uma opinião, ou que o seu trabalho consiga sustentar uma opinião.

Porém, o aparecimento destes cursos de crítica, e a forma como são promovidos, ilustra também um recuo, uma ambição de pôr ordem nesta abundância crítica. Manifesta a pretensão de limitar o que pode ser dito, como é dito, e quem o pode dizer. Por outras palavras, numa altura em que há poucas restrições económicas e técnicas à crítica, essas restrições são transferidas para um plano disciplinar, procurando reafirmar velhas formas de autoridade.

A ideia de que a crítica do design é uma actividade legítima porque é uma disciplina ensinada na escola tem intenções evidentemente disciplinares. Essas intenções são particularmente visíveis logo na primeira frase do artigo da Icon – “Não há críticos de design porque não há estudantes de crítica de design.” –, que nega levianamente a quantidade de crítica de design produzida actualmente numa base regular em todo o mundo. Essencialmente, trata-se de um mal disfarçado argumento de autoridade, dando a entender que quem dá a opinião, ou a forma como é dada, é tão importante como a qualidade dessa opinião. Neste aspecto, a ilustração deste post, tirada do artigo da Step, mostra, talvez com alguma ironia, esse apelo à autoridade. Mostra os alunos “ideais” do curso de mestrado em crítica de design da School of Visual Arts, como “a descendência ficcional de artistas, críticos e comentadores como Susan Sontag, Rick Poynor, Jessica Helfand e Reyner Banham”, ilustrando a crítica como uma forma de aristocracia.

Mas, felizmente, até a crítica é criticável, e neste caso interessa estabelecer uma diferença entre a possibilidade de aprender a crítica na escola e a obrigatoriedade de o fazer.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino, Publicações

5 Responses

  1. “…possibilidade de aprender a crítica na escola e a obrigatoriedade de o fazer.”

    Questiono segundo o contexto inserido, a obrigatoriedade a que se refere.

    Tiro um curso de design e sou obrigado a fazê-lo?
    Será a “escola” tão impositória e fechada, ao ponto de fechar mentes individuais e criticas(?)!

    Concordo consigo que o designer deve ser crítico. Ou melhor ter opinião sobre…
    Se devem escrever sobre assuntos? Sejam eles o que for?

    Na verdade, tento produzir design da sua melhor forma, mas não me considero bom escritor. Nem lá perto.

    Não obstante, concordo genéricamente com o seu post.
    Continuação de críticas à Crítica… 😉

    SP

  2. Quando digo que é preciso “estabelecer uma diferença entre a possibilidade de aprender a crítica na escola e a obrigatoriedade de o fazer” quero dizer que qualquer pessoa que queira escrever sobre design o pode fazer, sem ser obrigado a tirar um curso universitário de crítica de design para isso.

  3. Ahh sim. a base do ser Designer (segundo a minha opinião).

    Depois de ler textos gigantes e seguido de uma “carrada deles”, já ando com os olhos trocados e passa-me ao lado o verdadeiro sentido das palavras…

    Relatos à parte devia era concentrar-me nas referências para mostrar amanha na aula… 😉

    Enfim…É possível uma base baseada na internet??
    Uma bibliografia “websista”?

    Bom, continuarei a escrever…

  4. É claro que é possível uma bibliografia baseada na net, sobretudo graças a blogues como o Design Observer, sites da Aiga, ou revistas como a Eye ou a Creative Review, que colocam muitos dos seus textos online.

    O único cuidado a ter é indicar o autor e o nome do artigo, a morada do site e a data em que foi consultado.

  5. […] em história de arte, por exemplo, esta não era feita por artistas. Em alguns casos, criaram-se cursos especificamente dedicados à crítica do design – por vezes anunciados como trazendo finalmente […]

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