The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Stuart Bailey: Reutilização e Autoria

Era um dia de chuva leve, e não estava muita gente à espera que as portas abrissem; mesmo assim, o pequeno auditório da Esad de Matosinhos foi-se enchendo para a primeira conferência do quinto e último ciclo das Personal Views. No palco, o convidado, Stuart Bailey, esperava pacientemente que a sala sossegasse, enquanto o seu currículo era projectado em loop no ecrã atrás dele: co-editor da revista Dot Dot Dot, fundador da editora e “livraria ocasional” Dexter Sinister, designer de revistas, autor de artigos, artista, etc.

Logo no começo, Bailey avisou que aquela não seria uma conferência-portfolio. A ideia não era mostrar apenas os seus trabalhos, mas demonstrar, através deles, como o seu design se apoiava fortemente no conceito de reutilização. Por vezes, isso não se distinguia do processo normal de trabalho de qualquer designer, como nas publicações que foi mostrando, onde usava variações do mesmo esquema básico de paginação, uma versão da Regra de Ouro, que ele considera a maneira ideal de apresentar um texto. Porém, nos exemplos mais extremos, Bailey pegava em todo o trabalho desenvolvido para um projecto e reutilizava-o em outro, sem mudar o que quer que fosse, excepto o conteúdo. Numa ocasião, chegou a usar o mesmo logótipo – o brasão que ilustra este artigo – e o mesmo site em várias situações.

A apresentação deixou-me interessado, mas perplexo. Enquanto é comum os designers usarem esquemas de composição estandardizados, Bailey parecia levar a ideia mais longe. O próprio título da conferência, “Templates”, cujo significado original é “escantilhão”, mas que no contexto do design gráfico significa esquema de paginação pré-fabricado, “pronto-a-vestir”, conota falta de originalidade, talvez até preguiça e é curioso que um designer o aplique ao seu próprio trabalho. No caso de Bailey, isto não parecia ser modéstia, ironia, ou provocação, mas algo mais subtil.

Dentro da área disciplinar do design, a originalidade é um conceito problemático. Por exemplo, o ponto de partida de um determinado trabalho, a sua origem, nunca parte só do designer, mas também de um cliente. Comparada com outras áreas como a literatura ou a pintura, a autoria no design é tradicionalmente partilhada; daí que se afirme por vezes que o designer é um mediador e não um autor.

No entanto, quando se apresenta um conjunto de trabalhos numa conferência ou num livro de história, assume-se que existe unidade suficiente entre eles para que um designer possa reclamar a sua autoria. Essa autoria é aqui uma forma de apropriação: os trabalhos são retirados do seu contexto e função originais, isolados da figura do cliente, e recuperados dentro da área disciplinar do design como material pedagógico, como autopromoção, biografia, etc. Digamos que, no design, a autoria é permitida, não no momento em que o trabalho é concebido, mas numa fase posterior como uma forma de reapropriação, reavaliação ou legitimação. (É claro que, ainda assim, muitos trabalhos de design começam por ser concebidos ou avaliados com esta apropriação posterior em vista, dirigidos não apenas às necessidades do cliente, mas tentando enquadrar-se historicamente, fazendo citações a outros designers, respondendo ao seu trabalho, etc.)

Mas embora seja problemático acreditar no design como uma forma de autoria, não é assim tão problemático acreditar que cada trabalho de design é, de alguma forma, auto-contido, podendo ser isolado dentro da obra de um determinado designer. Ou seja, mesmo que o método empregue seja mais ou menos standard, como no caso do Estilo Suíço, a relação entre cada designer e cada trabalho – e, portanto, cada cliente – deve ser única e característica, original. Não é por acidente que se chame por vezes ao trabalho do designer “identidade”: de certa forma, é esta continuidade entre os trabalhos realizados para um só cliente que se espera o designer consiga criar.

Nos últimos anos, muitas das estruturas produtivas, éticas e políticas do design foram sendo postas em causa, mas a crença na originalidade da relação entre designer e cliente continua a ser uma das últimas fronteiras sagradas do design gráfico. Foi sendo atacada pelo trabalho de designers que se assumiam como autores, reclamando um maior protagonismo, um controle maior sobre os conteúdos, etc. Mas o trabalho de Stuart Bailey, talvez por ser tão sistematicamente construído a partir de apropriações e de reutilizações do mesmo material corriqueiro, não se encaixa bem na mesma categoria que designers como Bruce Mau, Stefan Sagmeister ou David Carson. É difícil afirmar que Bailey é um “autor”, mas este termo, quando usado por designers, é muito vago – uma designação genérica para todos os designers que conseguiram pôr em causa as estruturas tradicionais do design e ficaram mais ou menos famosos por isso. Se assim for, Stuart Bailey pode perfeitamente ser um autor.

Filed under: Apropriação, Autoria, Cliente, Conferências, Crítica, Cultura, Design, Publicações, ,

2 Responses

  1. Tiago Cruz diz:

    Torna-se bastante enigmático pensar a questão da autoria quando esta é vista à luz de um conceito apresentado por Julia Kristeva intitulado “intertextualidade”. De uma forma bastante simples, Julia Kristeva diz-nos que nada nasce do nada porque tudo aquilo que fazemos esté carregado de influências de outros. Ou seja, construir é quase como um puzzle (consciente ou inconsciente) em que as peças são coisas ou fragmentos de coisas captadas no nosso quotidiano.

    Não saberia-mos representar “X” se nunca tivessemos visto um “X”. E depois de vermos vários “X”s representados de diversas maneiras começamos num processo de filtragem em que só deixamos passar o que nos interessa. Quando representar um “X”, este estará carregado não só da cultura colectiva sobre como representar “X”, mas também da minha cultura individual sobre a representação do “X”.

    Onde quero chegar é que um autor no sentido de criador, no sentido de alguém que inova, não existe. No entanto, autor no sentido de alguém compõe, no sentido de alguém que recria fazendo uma abordagem pessoal e única, existe sempre e deveria ser sempre reconhecido pela sua expressão.

    Em termos de Design, o Designer é sem dúvida um mediador, no sentido em que o processo de Design é um processo de negociação entre cliente, Designer e público-alvo. Ao mesmo tempo, o resultado final deste processo de negociação é um produto, serviço, ou ambiente, criado (materializado?) por uma pessoa específica. Esta pessoa é o autor deste produto, serviço ou ambiente.

    “A text is… a multidimensional space in which a variety of writings, none of them original, blend and clash. The text is a tissue of quotations… The writer can only imitate a gesture that is always anterior, never original. His only power is to mix writings, to counter the ones with the others, in such a way as never to rest on any one of them.” Roland Barthes

  2. […] texto foi publicado como comentários ao post Stuart Bailey: Reutilização e Autoria no Ressabiator comment feed | 0 comments 0 comments Tiago Cruz @ 6:17 pm Filed […]

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