The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Como se diz “Sumol” em Inglês?

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Na tradução dos filmes, há uma ética intrincada mas imperfeita: ver um filme na língua original com legendas, por exemplo, é sempre melhor do que ver um filme dobrado – talvez as legendas sejam consideradas mais autênticas porque são acrescentadas ao filme original, enquanto a dobragem é mais invasiva: apaga algo e ocupa o seu lugar. Porém, há filmes que são por natureza dobrados: será que se deve ver um Western Spaghetti em Inglês, com alguns actores italianos dobrados, ou em Italiano, com o Clint Eastwood e o Lee Van Cleef dobrados? Por questões de imperialismo linguístico (e porque se trata de um Western), talvez seja melhor ver a versão inglesa, mas a versão italiana é com certeza mais exótica, e talvez mais autêntica (trata-se, afinal, de um Western Spaghetti).

Por hábito, ponho sempre legendas inglesas nos DVDs falados em inglês. Isso permite-me perceber expressões que não conheço bem ou que se ouvem mal por causa do ruído de fundo, mas será que era essa a intenção original do realizador? Será que é suposto percebermos tudo? Mais do que simplesmente traduzir, as legendas também explicam; são subtis notas de rodapé. Graças a elas, percebemos coisas ditas por personagens que falam dialectos, calão ou com pronúncias incompreensíveis. Mesmo as legendas mais neutras modificam subtilmente a forma como reagimos ao filme, tornando-a mais “literária” e menos “imediata” (talvez seja por isso que as legendas são consideradas mais “intelectuais”, enquanto a dobragem é “popular”).

Para evitar as distorções das legendas, pode-se sempre dobrar, mas a dobragem também tem os seus problemas. Por exemplo, quando os filmes de animação de Haiao Miazaki são dobrados em inglês, a banda sonora muda totalmente. Na versão americana, há mais diálogos e mais música, provavelmente para evitar os longos silêncios da versão original, que poderiam entediar as audiências ocidentais.

Em alguns casos mais extremos, a dobragem também pode ser usada para censurar. No filme Kiki’s Delivery Service, também de Miazaki, há uma cena em que duas meninas de doze, treze anos tentam apanhar boleia, mostrando a perna aos condutores que passam. Na versão japonesa, um velho agricultor dá-lhes finalmente boleia, e a coisa fica por aí. Na dobragem americana, são acrescentados diálogos para dar a entender que uma das raparigas conhece o velhote e que, portanto, as crianças não apanharam boleia de um estranho.

A antologia Subtitles: On The Foreigness of Film, editada por Atom Egoyan e Ian Balfour na MIT Press, contém um conjunto de bons textos sobre a tradução de filmes. Alguns dos ensaios falam dos processos e problemas técnicos que condicionam a tradução (por exemplo, a legendagem tem de obedecer à montagem do filme; uma legenda não pode passar de um plano para o seguinte); outros falam das estratégias comerciais envolvidas (na América, os trailers de filmes estrangeiros legendados são narrados em Inglês sobre uma montagem de cenas sem diálogos, para sugerir, enganosamente, que o filme é dobrado).

No posfácio do livro, Ian Balfour chama a atenção para o filme Le Mépris, de Jean-Luc Goddard. Segundo Balfour, é um filme impossível de ver sem legendas. Um bom exemplo é a cena em que um argumentista francês fala com um produtor americano com a ajuda de uma intérprete italiana. Se estivermos a ver o filme com legendas, percebemos que a intérprete modifica aquilo que é suposto traduzir: explica mais do que aquilo que é dito; completa aquilo que não chega a ser dito; a certa altura, chega a traduzir algo antes de ser dito – nesta cena, a palavra “intérprete” parece ser levada à letra. Contudo, apesar do que diz Balfour, as legendas não tornam o filme mais compreensível; limitam-se a disfarçar contradições de que só me apercebi depois de ler o seu texto.

Ao rever o filme em DVD, reparei que também há uma versão dobrada em Inglês da mesma cena. Aqui todos os personagens falam Inglês: o americano e o francês compreendem-se perfeitamente; a intérprete limita-se a sublinhar, completar ou comentar aquilo que é dito. Deixa de ser uma intérprete pouco fiável, para se tornar numa secretária irritante e muito graxista. (Para aumentar a sensação de estranheza, as legendas portuguesas do DVD correspondem à versão francesa.)

A importância da tradução neste filme é reforçada pelo genérico, que mostra a intérprete a ser filmada enquanto lê um livro. Ao mesmo tempo, uma voz off lê, em Francês, a ficha técnica do filme. Por um lado, a cena parece dar a entender que é a intérprete que lê a ficha técnica. No entanto, a voz off é masculina. Talvez corresponda àquilo que é lido, e não a quem lê, como naquelas cenas em que alguém lê uma carta em silêncio e se ouve a voz do escritor. Na versão dobrada em inglês, a dúvida não se põe: a voz off foi apagada – uma dobragem muda? – e a intérprete lê em silêncio.

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Filed under: Apropriação, Crítica, Cultura, Linguagem, , , , ,

5 Responses

  1. Hugo diz:

    Parece-me importante acrescentar, que a presença das legendas, independentemente da sua função, acaba por condicionar a forma como observamos um filme, uma vez que boa parte do tempo estamos concentrados na parte inferior do ecrã. A contemplação da imagem que supostamente deveria existir, perde-se numa simples leitura de caracteres.

  2. Jerlane diz:

    ryan:It’s hard to belive
    that I couldn’t see

  3. […] um DVD básico pode conter várias versões do mesmo filme, sendo possível mudar-lhe o final, as legendas ou a língua em que é falado. São mudanças pequenas que podem transformar o próprio género do filme: uma faixa de […]

  4. […] talvez os vestígios de uma justificação oficial para a acção da censura política através da dobragem. Share this:FacebookTwitterGostar disto:GostoBe the first to like this […]

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