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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Solução de Mercado

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Num cartoon publicado este mês na revista New Yorker, uma mulher com uma criança ao colo é atendida na recepção de um serviço de urgências e o recepcionista pede-lhe para aguardar calmamente enquanto se encontra uma solução de mercado para o seu problema. A situação ilustra bem a fé quase total da nossa sociedade na capacidade do mercado para resolver todo o tipo de problemas – a saúde, a educação, o desemprego, o exército, a cultura, tudo há-de acabar por ter a sua solução de mercado.

Neste momento, mais do que esquerda e direita tradicionais, há aqueles que acreditam que o Mercado pode resolver, por si só, todos os problemas e crises da sociedade, e há aqueles que acreditam que essa fé cega no Mercado é a origem de boa parte desses problemas (confissão: pertenço ao segundo grupo).

A discussão entre os dois grupos é espinhosa, em parte porque é difícil – senão impossível –, apresentar uma alternativa à economia de mercado. Toda a gente compra e vende coisas, toda a gente tem o seu emprego ou a sua empresa, toda a gente gosta de ir passear ao Centro Comercial – não acreditar no mercado e continuar a fazer todas estas coisas parece incoerente e estúpido. No entanto, este género de raciocínio é um bom exemplo da falácia do falso dilema, que consiste em apresentar apenas duas opções extremas como sendo as únicas possíveis, quando há, evidentemente, mais hipóteses. Comprar coisas – e até ser um bocadinho consumista – não implica acreditar no modelo radical de mercado que hoje em dia se defende e que corresponde ao modelo neo-liberal da economia. Esta é uma forma relativamente recente e extrema de capitalismo, que só começou a ser aplicada em força a partir dos anos oitenta.

A doutrina neo-liberal acredita que o mercado se pode regular por si só, sem intervenções do governo, por exemplo. O próprio Estado passa a assumir um papel secundário em relação ao mercado – apenas mais uma empresa no meio das outras. No modelo do Estado Providência, ao qual o modelo neo-liberal se opõe, o estado assegurava uma série de serviços, relacionados com aquilo que se consideravam ser os direitos dos cidadãos: saúde, educação, exército, polícia, cultura, transportes, etc. Este sistema garantia, através da cobrança de impostos, que parte da riqueza produzida por cada um era redistribuída por todos. Pelo modelo neo-liberal, este género de serviços passam a ser administrados por privados e o estado reduz-se à mediação e fiscalização do processo.

Acreditar no modelo neo-liberal implica acreditar numa meritocracia, que é vista aqui como uma forma de concorrência: mérito é o mesmo que sucesso económico. Porém, todas as formas de meritocracia dão a entender que quem não consegue ser bem sucedido falha apenas pela sua própria culpa e que a sociedade não lhe deve qualquer tipo de assistência. Ainda assim, no modelo meritocrático, há espaço para cuidar dos mais fracos ou dos excluídos, mas deixa de ser uma função do Estado fazê-lo, para passar a ser uma forma de filantropia privada e, também aqui, a concorrência se torna importante: as causas que demonstrarem mais engenho empresarial, mais fotogenia, serão as mais favorecidas pelo mercado.

De maneira geral, na ideologia neo-liberal, os indivíduos mais bem sucedidos são aqueles que se conseguem comportar o mais possível como empresas. Um bom exemplo são aqueles debates televisivos onde um empresário ou um ministro aconselha um desempregado a fundar o seu próprio negócio, a ser empreendedor – o “empreendedorismo” é uma das palavras chaves da sociedade neo-liberal.

Neste aspecto, o design é o modelo perfeito da subjectividade neo-liberal: cada designer é treinado para se comportar como uma empresa de uma pessoa só, pensando o mundo em termos de briefings, clientes, orçamentos e afins. Mas o problema de fazer de cada cidadão uma pequena empresa, concorrendo alegremente com as outras, é que deixa de haver propósitos comuns: a crença na ideia de Estado, numa esfera pública, na cidadania, etc.

Hoje em dia, diz-se que existe um “deficit de cidadania” – até aqui o vocabulário é económico –, e já se fala em soluções de mercado para isso: mais segurança (privada), mais escolas (privadas), etc. Porém, a própria ideia de cidadania implica coisas que o mercado não pode resolver por si só. Até certo ponto, o mercado é, e sempre foi, o oposto de comunidade.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, , , ,

One Response

  1. Manuel Albino diz:

    Parece-me que este artigo não acaba. Será que é intenção ficar por estas reticências no discurso.
    Não sei se assim é.
    O mercado em Portugal não é dinâmico e, para além disso, as estruturas sociais assentam em comportamentos antigos.
    Os valores novos, de competição no mercado, dão vantagem a quem, a priori, tem capital.
    Este capital pode não ser só representado directamente por dinheiro. Pode ser capital de influências sociais, capital de suporte familiar inserido no contexto socioprofissional, capital de segurança, que faz do “empreendorismo” uma forma de acção muito menos arriscada para quem possui uma “almofada social” maior.
    Acontecia assim já no princípio de século em Portugal, em que, por exemplo, um dos factores de empregabilidade num banco, como bancário, era a riqueza pessoal do funcionário.
    Assim, responsabilidade = capacidade monetária, segurança social e /ou inserção social do indivíduo.
    Todos estes factores, sem uma estrutura de estado que assegure a sua existência per si, tornam a sociedade mais estável nas suas hierarquias, ou seja, os ricos mantém-se ricos e os pobres de igual modo pobres – relação simples –
    Concluindo, uma sociedade sem estado é uma sociedade onde as desigualdades são estritamente desenhadas e fecham o indivíduo numa situação de obrigatoriedade, para sua sobrevivência, de se enquadrar numa colectividade, robusta porque tem que resistir, e fechada, porque tem que se manter e competir.
    Concluindo, o estado é primordial para a existência do indivíduo social autónomo, não confinado a uma “casta” nem a um estrato social.
    Espero que estas linhas sejam esclarecedoras do meu ponto de vista.

    Manel

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