The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Grande Poder, Grande Responsabilidade?

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Há algum tempo, no Design Observer, Steven Heller defendia que os textos publicados na net, sobretudo os comentários, deveriam ser assinados com os “nomes reais” dos seus autores. Fazendo uma analogia com as secções de cartas da imprensa tradicional, argumentava que a identificação levaria a um debate mais responsável e produtivo.

Na discussão que se seguiu, as objecções choveram: por um lado, um argumento deveria valer por si mesmo, independentemente de quem o diz ou de como é assinado; por outro lado, os nomes verdadeiros poderiam ser usados para censurar ou punir opiniões, e por aí adiante. A discussão foi apaixonada, por vezes violenta. Num par de dias, gerou mais de cento e cinquenta comentários e acabou por chamar a atenção da imprensa tradicional, sendo alvo de um artigo num dos blogs do New York Times.

Parecia que o assunto tinha ultrapassado a esfera restrita do design para alcançar um público mais vasto, mas o título do artigo, “Transparency: The New Black?”, era ambíguo. Apesar do autor concordar com a posição de Heller, o título parecia querer dizer outra coisa: um assunto sério, como a identidade na net, ao ser discutido por designers, reduzia-se a uma “moda.” Ironicamente, neste caso, a identidade de um autor acabava por afectar a credibilidade da sua opinião – pelo menos, se esse autor era um designer. É este o singular poder do design: qualquer assunto sério, difícil e polémico em que um designer toque fica irremediavelmente trivializado aos olhos do público.

É claro que isto também tem as suas vantagens. Se um país estiver a sair de uma guerra civil, for governado por uma ditadura, mas, ainda assim, tiver a sua revista ou bienal de design, a coisa não deve estar assim tão mal como isso. O design pode funcionar aqui como um índice de que já se ultrapassou as preocupações básicas e já se começou a pensar em futilidades – basta haver design para a situação parecer logo melhor. Mesmo as conotações mais comerciais do design ajudam a passar a imagem de segurança económica e empresarial.

Contudo, a ideia do design enquanto intervenção humanitária em situações de crise pode ter implicações graves. Dentro do modelo neo-liberal, a própria ideia de intervenção humanitária deixa de ser vista como uma responsabilidade politica ou social pública para se tornar alvo da iniciativa privada. A aplicação do design, uma actividade com evidentes conotações empresariais, em situações humanitárias pode dar a entender que a solução para estas crises é mais económica do que democrática, o que se encaixa perfeitamente no esquema neo-liberal.

No último livro de Naomi Klein, The Shock Doctrine, descreve-se de maneira detalhada este processo. Épocas de crise política ou catástrofe natural são usadas para impor políticas económicas neo-liberais, sem passarem pelo debate público. Em muitos casos, a ajuda financeira internacional fica dependente da adopção deste género de medidas, mesmo contra a vontade expressa das populações. Segundo Klein, durante uma crise, medidas impopulares como a privatização maciça de serviços de primeira necessidade ou a desregulação dos mercados, são impostas a título provisório, para mais tarde se tornarem uma condição permanente.

Um dos exemplos mais fortes do livro é a reconstrução de Nova Orleães, que foi aproveitada como uma oportunidade de investimento pelo governo americano e pelas suas clientelas: o sistema de ensino local foi privatizado; os habitantes dos bairros mais pobres foram relocalizados; os terrenos onde viviam foram usados para habitações de luxo; todo o processo de reconstrução foi subcontratado pelo estado a privados, muitas vezes empresas sem experiência prévia no ramo e com custos mais elevados para o bolso do contribuinte do que se fossem assegurados por serviços estatais de emergência adequadamente financiados.

Klein refere também as críticas dos habitantes locais às casas pré-fabricadas que eram obrigados a adquirir. Como não eram produzidas localmente, eram mais caras de produzir do que uma solução local e, apesar de resolverem o problema imediato da habitação, não estimulavam nem a reconstrução da indústria, nem a criação de emprego na zona. Não sei se estas vivendas são as mesmas que foram premiadas com o People’s Choice Design Award em 2006 – se foram, o exemplo demonstra bem como o design pode participar com a melhor das intenções em processos que fazem tudo menos ajudar os mais carenciados.

Ultimamente tem-se apelado à politização do design, pedindo aos designers que se dediquem cada vez mais a temas, clientes ou eventos políticos, mas isto acaba por reforçar a ideia da política como exterior ao design, dependendo do cliente ou do contexto, e não do processo de design em si, que pode ser aplicado indiferenciadamente a uma empresa ou a um país, a uma ditadura ou a uma democracia. Isto deriva da crença modernista da universalidade e neutralidade de certas soluções formais. Porém, o design, tal como é praticado e ensinado hoje, não é ideologicamente neutro. Embora reclame uma herança política, o seu discurso está firmemente ligado à esfera empresarial. Para politizar o design, não bastam temas ou clientes políticos; é preciso modificar a própria maneira como se pratica o design: deve ser possível usar o design em situações humanitárias, sem que isso de alguma forma as trivialize ou as transforme em oportunidades de investimento.

Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, , , , ,

3 Responses

  1. Poxa, belo post. Parabéns!
    O que se parece muitas vezes é que adotando clientes ou temas políticos recorre-se a um subterfúgio capaz de aliviar a consciência dos designers e outros envolvidos no processo de desenvolvimento do projeto de design. Assim, cria-se uma espécie de solução superficial e imediata ao desconforto que o pensamento frio sobre o design atual pode suscitar. Cliente, designer e usuário final se sentem satisfeitos e contentes nesse mundo pintado de rosa.

  2. O Steven Heller às vezes tem destas coisas.

    Creio que a discussão que ele levanta sobre os nomes na Web se prende com um “Velho do Restelismo” aplicado à criação de conteúdos para a Web.

    Na realidade, é uma discussão que faz parte de um esfera bem mais alargada e que se encontra ao rubro nos EUA: Net neutrality

    A verdade é que não vamos nunca conseguir impedir os abusos inflamados e pouco credíveis de “trolls”, ou o spam abusivo de “viagras”. Mas tudo isto faz parte da experiência (que se deve manter aberta e neutra) do uso da Internet. Aliás, arrisco-me a afirmar que “A” característica principal da Internet é a possibilidade de nos mantermos anónimos. Não queremos que a Internet de repente se transforme numa China-versus-Tibete-se-não-te-calas-vais-preso-!, pois não?

    Tentem agora acompanhar este raciocínio (um pouco esticado eu sei): Quantas vezes fazemos uso de serviços como a Amazon, o eBay, a Fnac Online, a Wikipedia, o Google (Mail, Calendário, Books, Reader,…), Blogs, e-Banking…. agora tentem comparar com que frequência usamos serviços semelhantes no “mundo real”… Quero com isto dizer que nunca fui a um leilão, mas já comprei meia dúzia de items no eBay. Sempre que vou à FNAC ou à Bertrand procuro em média 2-3 livros, mas quando procuro na Amazon a média sobe para os 20-30. Leio Blogs sobre os mais variados assuntos (até de futebol imaginem lá…). A lista pode prolongar-se indefinidamente. É simples questão de números. O anonimato* aumenta o índice de comunicação. Não sou eu que o digo. Já Sherry Turkle o afirmou… Muita gente (como eu) usa a Internet, porque não quer lidar com pessoas, porque é cómodo, porque é rápido…

    Caro Heller, Mário… já me tenho e “re-tenho” pronunciado sobre esta questão (embora nem sempre aplicado ao design). Eu quero uma Internet onde a liberdade de expressão é absoluta, onde cada entidade (site e não ISP) define os seus padrões de qualidade. Onde a qualidade dos conteúdos é reflexo da qualidade da pesquisa. Onde a responsabilidade da informação é tanto de quem publica como de quem a lê (e confirma).

    A partir do momento em que banirmos os (trolls) anónimos da net, vamos banir** toda uma (sub) comunidade de utilizadores válidos… Trata-se de uma simples questão de números. Se em 10 artigos anónimos, 1 é de qualidade, então é mais uma artigo a acrescentar aos que estão assinados…

    Na Internet, como no Design “More is more”
    Pedro

    *Só por curiosidade (e partindo do princípio que toda a gente usa o Google como motor de busca) quantas pessoas sabem o nome dos criadores do mais famosos motor de busca? E do algoritmo que está por trás da busca? Não será o Google de certa forma anónimo?

    **Por uma questão de coerência, vamos banir também o Álvaro de Campos, o Ricardo Reis e o Alberto Caeiro, porque o anonimato é uma coisa má…

  3. A posição de Heller nem era contra o anonimato, mas contra os pseudónimos, o que torna o seu argumento ainda mais estranho. Os “maus exemplos” que ele refere no artigo, “Pesky Illustrator” ou “Design Maven”, eram comentadores regulares do Design Observer, que de resto já tinham revelado a sua verdadeira identidade em mais do que uma ocasião.

    A minha sensação é que Heller defende que um nome respeitável origina, por si só, uma discussão respeitável. Pelo contrário, e contra a posição de Heller, acredito que um argumento deve valer por si só – porque “se em 10 artigos anónimos, 1 é de qualidade, então é mais uma artigo a acrescentar aos que estão assinados…”

    À partida, o tom de uma opinião, ou quem a diz, ou o sítio onde estudou, ou se assina “BozoTheClown987”, não a legitima, nem invalida. A posição de Heller acaba por aproximar o Design Observer de um clube relativamente restrito, onde toda a gente se conhece, e as opiniões valem por quem as diz. Nesse aspecto, se a net e os blogs parecem menos respeitáveis do que a imprensa tradicional, são, por isso mesmo, mais acessíveis, e não acredito que limitar o tipo de identidade à partida, contribua para melhores discussões.

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