The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Alinhamento Óptico

Nos últimos tempos, a politica parece ter-se apoderado do discurso público do design gráfico. A pouco e pouco, foi ocupando um lugar de destaque no meio dos artigos, conferências e exposições; substituiu quase totalmente os conselhos sobre como resolver questões técnicas ou formais; apareceu em força nos portfolios, sob a forma de novas categorias – se dantes havia “cartazes”, “livros”, “brochuras”, agora há “activismo”, “ecologia”, “ética”, etc.

Quanto aos temas, são aqueles que se costuma associar à esquerda liberal – causas sociais; intervenções humanitárias em países carenciados, em situações de catástrofe natural ou crise política; denúncia da sociedade de consumo, do capitalismo neo-liberal, da administração Bush, etc. Resumindo, “política”, em design, parece ser sinónimo de “esquerda”.

A tendência já foi comentada por Michael Bierut e por Steven Heller, em artigos no Design Observer e na revista Eye, sustentando que sempre houve designers de direita, mas que agora, intimidados pela hegemonia da esquerda, esses designers evitavam expressar as suas opiniões em público, alegando a existência de uma espécie de lobby liberal nas instituições ligadas ao design, que acabava por dar uma visão distorcida da ideologia dos designers.

É preciso ter também em conta que muitos designers, não necessariamente de direita, acreditam que o design deve evitar a política de todo – essencialmente, a velha ideia modernista da neutralidade do design. Curiosamente, Heller e Bierut dedicam mais tempo a rebater este ponto de vista, defendendo que o design é, como tudo na vida, político, e que há espaço para pontos de vista dissonantes na ribalta, do que a fornecer uma explicação convincente para a inclinação à esquerda do discurso público do design.

A discussão revela, no entanto, duas maneiras radicalmente diferentes de pensar os designers enquanto grupo: se os partidários do design neutro vêem o conjunto dos designers como uma profissão, os partidários do design politico, pelo contrário, vêem-no como um público.

A divisão corresponde, em muitos aspectos à oposição entre a direita neo-liberal e a esquerda liberal. No primeiro caso, deixou de se acreditar na capacidade da esfera pública resolver os problemas da sociedade, preferindo acreditar em soluções privadas de natureza económica ou tecnológica, enquanto no segundo, ainda se acredita num debate público – ou seja, politico – como solução para esses problemas. Isto pode ser uma boa explicação para o domínio da esquerda no discurso público do design: actualmente, a própria ideia do design ter um discurso público é de esquerda.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, , ,

4 Responses

  1. Reactor diz:

    Há hoje uma clara indefinição ideológica. Os temas que associamos ao design “empenhado” e “responsável” vão sendo, cada vez menos, temas ideológicos ( de esquerda ou de direita) e mais chavões pós-ideológicos, embora compreenda (e concorde) com o essencial do texto.

    Deixo o link para um texto do Alain Badiou que pode ser útil para nos ajudar a definir (ou a declarar o seu estado de indefinição) “esquerda” e “direita”

    http://hydrarchy.blogspot.com/2008/03/what-is-left.html

  2. Caros Ressabiator e Reactor.

    Penso que a questão está desviada de um caminho que leve a alguma conclusão. Não me parece pertinente fazer distinções baseadas em definições politicas ultrapassadas. Esquerda e direita?? Aqui fica uma de centro avançado. 😉

    Duma perspectiva cultural, desde o final do século passado que a Internet funciona como assembleia catalizadora de cada vez mais acções humanas. Assim mundo vive o início duma potencial hiperdemocracia (julgo que é um conceito do economista francês Jacques Attali). Qualquer coisa como isto: deste género. E cujos os polos não serão já o de Esquerda & Direita mas antes os de Mercado & Estado. A questão é que a maior parte dos designer inseridos no mercado não é paga para pensar demais.
    Sem mais,

    JAM

  3. […] foi sugerida a mesma coisa sobre a inclinação natural dos designers para a esquerda, um assunto sobre o qual falei há uns anos. Esta tendência liberal era – e ainda é  – particularmente forte entre os designers que […]

  4. […] Há uns anos discutia-se o estranho fenómeno da grande maioria dos designers conhecidos serem de esquerda. Às vezes, aparecia um ou outro designer de direita que se queixava: nas revistas, conferências, livros, exposições, só se falava de assuntos de esquerda e ninguém falava do design empresarial, que punha o Pão sobre a Mesa, o Sal na Terra, etc. Ao que os designers de esquerda respondiam (coçando a cabeça) que não estavam a discriminar ninguém, que realmente não apareciam muitos designers de direita dispostos a falar em público do que lhes interessava – se calhar por timidez, por estarem a falar no meio de todos aqueles designers de esquerda. Ao certo, ninguém sabia exactamente porquê. […]

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