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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mao II, ou Uma no Cravo…

Quatro anos atrás, comemorou-se o trigésimo aniversário do 25 de Abril com um slogan chico-esperto, “Abril é Evolução”, acompanhado por quatro cravos arranjados numa composição à Warhol. Na altura, escrevi sobre o assunto, argumentando que a campanha era um rebranding “brando” da revolução; quatro anos depois, no Google, é difícil encontrar uma imagem da campanha que não tenha sido “corrigida”, repondo aquilo que os criativos tinham retirado.

Mais recentemente, numa campanha do jornal Correio da Manhã e da revista Sábado, foi dado um tratamento gráfico semelhante a Salazar, usando-se a sua fotografia para mais uma composição à Warhol, para ilustrar a ideia que “a verdade histórica não é negra nem branca e não conhece cores politicas”. Muito justamente, comentadores como José Bártolo do Reactor, caíram em cima da campanha, acusando-a de trivializar a história politica recente como forma de entretenimento barato – a história e a política reduzida a reality show em nome de uma noção distorcida e limitada de democracia e de discussão pública.

Em todo o caso, parece haver – nem que seja só na cabeça dos criativos portugueses – uma relação entre o 25 de Abril e Andy Warhol. Parece-me que a primeira razão para isso é a preguiça: na era do Photoshop, é mais fácil parodiar Warhol do que Leonardo. Mas a preguiça já era uma parte importante do método de Warhol: através de um processo mecânico, quase uma fotocópia, qualquer tema, qualquer pessoa, qualquer drama podia ser reduzido num passe de sofisticação ociosa ao mesmo denominador comum: Arte – não é preciso muito esforço para trivializar o que quer que seja e é esse o escândalo de Warhol.

Curiosamente, por volta de 1974, Warhol produziu uma série de retratos de Mao Tse Tung, que inspirariam indirectamente estas campanhas publicitárias. Na altura em que foram feitos é bem provável que as versões pop de Mao parecessem uma provocação aos jovens Maoistas portugueses como o futuro Primeiro-Ministro e actual Presidente da Comissão Europeia Durão Barroso.

Um desses retratos, Mao II, daria o nome a um livro do escritor americano Don DeLillo. Datado de 1991, fala de um escritor recluso, Bill Gray, que deixou de acreditar na possibilidade da arte influenciar a sociedade tanto como a política, a guerra ou o terrorismo, acabando por envolver-se na mediação da libertação de um jornalista raptado em Beirut. Gray acaba por morrer acidentalmente e anonimamente pelo caminho sem conseguir resolver o que quer que fosse.

A relação entre Arte e Terror é também posta em causa de maneira particularmente pungente por Paul Virilio no livro Art & Fear. Virilio cita Jacqueline Lichtenstein que ao visitar o Museu de Auschwitz teve a sensação que não foram as malas, as próteses e os brinquedos arranjados nos expositores que a aterrorizaram, mas o facto de aquilo tudo parecer um Museu de Arte Contemporânea. No comboio de regresso, ela pensou “que eles tinham ganho e que tinham produzido formas de percepção adequadas ao seu processo particular de destruição.”

Desde novo habituei-me a associar Salazar e o 25 de Abril às paragens de autocarro. Era, e ainda é, bastante comum aparecer um velhote ou dois a dizer as coisas do costume, que “esta juventude deu cabo de tudo”, “que no tempo da velha senhora é que era”. Lembro-me de um dizer que o país precisava de três coisas: António, Oliveira, Salazar. Vi pela primeira vez as campanhas publicitárias de que falei mais acima em mupis junto a paragens de autocarro e recordo-me de ter pensado que podiam ser versões sofisticadas e oficializadas do discurso dos velhotes e que, de alguma forma, “eles tinham ganho.”

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política, , , , ,

One Response

  1. […] senhora, photoshopada para parecer um projecção vídeo de uma composição de Warhol? Porque é fácil? Ainda bem que se pôs uma legenda a avisar que é só uma brincadeira, não vá alguém pensar que […]

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