The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Curva Perigosa

Perto de minha casa, há um anúncio que à primeira vista parece um sinal de trânsito. A fonte é diferente e a cor não é bem a mesma, mas parece um daqueles sinais de indicação de direcção, do género “faltam 400 metros para a próxima saída”. Este diz-nos que estamos a ir na direcção errada; se dermos a volta ainda podemos encontrar a loja da “Rádio Popular”.

Sempre que o vejo, e apesar de nunca ter tirado a carta de condução, sinto-me ligeiramente enganado. A sensação é de invasão, de perda de privacidade, mas neste caso não é algo privado que se perdeu, mas o próprio espaço público que por um momento se desfez.

Esse sinal também me parece um símbolo da diluição cada vez maior e aparentemente inevitável do espaço público em direcção a um formato privado. Aqui no Porto, isso é particularmente visível na entrega da gestão do Mercado do Bolhão a um grupo privado por um período de cinquenta anos, para o transformar num conjunto de habitações de luxo, reconstruindo uma parte do mercado apenas como curiosidade.

Comentou-se que uma coisa destas só poderia acontecer em Portugal mas infelizmente é uma tendência global: em Liverpool, uma vizinhança inteira, com cerca de 17 hectares, incluindo 34 ruas e um jardim público vai ser cedida durante 250 anos à gestão privada – o que faz o caso do Bolhão parecer quase insignificante. Mais uma vez, a sensação é de roubo, mas também de inevitabilidade, como se não houvesse outro caminho possível senão pôr o mercado a resolver problemas que estão fora do alcance da esfera pública ou até da democracia. No entanto, nada disto é uma inevitabilidade; só demonstra que a esfera pública é frágil e que precisa de ser reclamada a cada momento.

Ao ler o livro de Rui Estrela, A Publicidade no Estado Novo (vol. 1: 1932-1959), reparei que, nos anos vinte em Portugal, a publicidade não só fazia de conta que era um sinal de trânsito, mas era de facto um sinal de trânsito! Cada placa era patrocinada por uma empresa ou produto. Do ponto de vista do anunciante, a ideia não era má: quem tivesse um carro – que na época seria bem mais caro do que hoje – seria sem dúvida um bom cliente.

Mas ao transformar os sinais de trânsito em anúncios, devia ser bastante difícil estandardizá-los – afinal, cada produto gosta de afirmar a sua originalidade em relação aos outros –, e calculo que, a certa altura, se tenha tornado difícil distinguir a publicidade de beira de estrada da informação de circulação. Hoje em dia, já nos habituamos a ver os sinais de trânsito como uma coisa pública, mas o processo como isso aconteceu não foi imediato, nem evidente. Estes sinais de trânsito dos anos 20 parecem desmentir a ideia de que a diluição da esfera pública é uma coisa de agora. Pode acontecer a qualquer momento, mas também pode ser revertida em qualquer ocasião desde que haja vontade política e pública para isso.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, , , ,

2 Responses

  1. Não sou contra esses avanços pontuais do mercado sobre o que está esquecido pela democracia. São estas instâncias, estes momentos que nos ajudam a levar as coisas a bom porto. Devem no entanto, como dizes e muito bem, ser apenas situações provisórias. Os designers têm a sua esfera de acção sempre e apenas tendencialmente democrática.

  2. […] para quem se interesse, um texto antigo sobre a privatização da sinalética, sobre quando os sinais de trânsito eram patrocinados em […]

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