The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Lázaro ou Elvis?

Quando uma espécie que se julgava extinta há muito, por vezes só conhecida através de fósseis, aparece viva e de boa saúde, há duas explicações possíveis. A primeira – e mais simples – é que a espécie nunca esteve realmente morta; evitou sensatamente os seres humanos, talvez durante milénios, acabando no final por ser “apanhada” – a estas espécies, porque voltaram de entre os mortos, chamam-se espécies Lázaro. A segunda explicação é mais complicada, mas também mais interessante: pode não se tratar de uma única espécie, mas de duas espécies diferentes: uma realmente extinta e outra que se tornou, por coincidência evolutiva, semelhante à primeira – estas são as espécies Elvis, porque tal como o Rei, estão sempre a ser vistas em todo o lado, embora estejam – realmente, definitivamente – mortas.

Por um lado, isto lembra-me vagamente o enredo do filme de Christopher Nolan, The Prestige (não vou estragar o fim, mas envolve duplos e ilusionistas); por outro, lembra-me também a relação entre design gráfico e tipografia: o design assume-se como um descendente actual da tipografia, dando a entender uma linhagem ininterrupta desde Gutenberg até ao design mais recente. Mas será que a coisa é assim tão simples? Será o design um Lázaro da tipografia? Ou simplesmente um Elvis?

Por exemplo, a proliferação actual de “designers/criadores de tipos” pode não ser a recuperação de uma tradição mais antiga que se perdeu, mas uma consequência do computador pessoal, que permitiu aos designers apropriarem-se de uma tarefa tradicionalmente feita por um profissional distinto.

Da mesma forma, até ao aparecimento do computador pessoal, o designer era – idealmente – o gestor de um processo industrial de produção; era relativamente raro um designer compor texto corrido, retocar uma imagem ou rever um texto – todos estes processos eram da responsabilidade da gráfica. Ironicamente, através do computador, o design apropriou-se de tarefas das quais se tinha tentado desligar no passado recente – o “design gráfico” passou a “design de comunicação”, em parte para evitar a confusão dos designers com os fulanos das gráficas, mais subalternos.

Este género de contradição não é recente. No final do século XIX, a industrialização crescente da tipografia levou ao fecho de muitas gráficas de pequena escala, cujo equipamento foi adquirido a baixo custo por membros do movimento Private Press. Assim, muito do revivalismo tipográfico dessa época só foi possível por causa da extinção em massa de um modo de produção anterior. Retomando a metáfora biológica: uma espécie surgia, aproveitando-se da extinção de outra.

A história do Design trata da mesma actividade que foi mudando de nome ao longo dos anos ou de actividades distintas, que se foram apropriando do passado e da identidade de actividades anteriores? A evolução do design é um conjunto de rupturas e substituições, ou uma progressão continua? No fundo, aquilo que está aqui em causa é a forma como o design, uma actividade “moderna”, que gosta periodicamente de se renovar, rompendo com o passado, tenta produzir a sua História.

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Filed under: Apropriação, Computador, Crítica, Cultura, Design, Fontes, História, Tipografia

11 Responses

  1. Não sei muito bem o que queres dizer com “a proliferação actual de ‘designers/criadores de tipos’…”

    Efectivamente existem muitas foundries, muitos type designers, mas, na prática, o que está a acontecer não é muito diferente do que se tem vindo a passar desde sempre. Os Type Designers que se mantêm em exercício são os mesmos, os perseverantes… muitos desistem ou desaparecem de cena. Outros são lenta e compulsivamente retirados de cena, A.K.A. comprados por gigantes da industria como a Fontshop. Quem cá fica são os Spierkermans, os Letterrors, Underwares, Hoeflers…

    Sim é verdade que o Fontlab “refrescou” a produção tipográfica. Hoje, todo e qualquer designer produz um tipo no seu laptop. É a revolução digital. Ou será mesmo? Lembro que o mesmo se passou com a película. Os Designers espanhóis e os Britânicos ficaram doidos e atacaram este meio, mas, mais uma vez, só um punhado de “casmurros” sobreviveu. Não acho que o computador pessoal seja diferente.

    Um outro assunto que não compreendo muito bem é a questão de “uma tarefa tradicionalmente feita por um profissional distinto”… Considero que a verdadeira profissão do Design de Comunicação nasce com o Tipógrafo/Compositor/Artista Comercial.

    Claro que, tradicionalmente, a profissão foi sempre sendo desempenhada por profissionais distintos – Gutenberg serviu-se dos ourives (ou pelo menos das técnicas aprendidas) para gravar punções, da prensa de vinho (adaptada) para imprimir,… bom, já me estou a perder… o que quero dizer com isto é que o Designer é uma peça no jogo da comunicação. À excepção de edições caseiras, servimos-nos sempre de outros (e estes de nós) para criar um objecto de comunicação – de fotógrafos, de autores, de impressores, de tipógrafos. Depende da nossa área de interesse/acção.

    Considero que desenhar tipos, este sim, ém o verdadeiro trabalho de um Designer (especializado, claro) . Quem mais senão um verdadeiro profissional para compreender as vicissitudes do trabalho tipográfico? O que se passou é que os designers tornaram-se preguiçosos ao algures pelo caminho. Daí o afastamento da tipografia. A proliferação do computador pessoal, Fontlab, Fonstruct, Horus,… “em-dois-cliques-tenho-o-melhor-tipo-do-mundo” parece devolver um novo fôlego à profissão, mas não se enganem. Só vamos continuar a ver as ligaturas que a Adobe incluir por omissão nos programas, os alinhamentos que estiverem na moda e as fontes que mais se vendem no My Fonts…

    “A evolução do design é um conjunto de rupturas e substituições” seria a minha resposta. Concordo com as posições afirmadas previamente que o Design de Comunicação tenta reconciliar-se com as anteriores disciplinas que se afastou. No entanto, as mudança e evolução é lenta, muito lenta. O actual paradigma de produção (computadores e Internet à parte) ainda é o do artista comercial dos anos 60 nos EUA. Cliente > Agência > Criativos > Especialistas… Alguns estúdios contrariam esta tendência. Teimosos, ou visionários?

  2. Caro Pedro Amado,

    Tenho lido os seus comentários e parece-me que tem que polir o seu português. Especialmente se compararmos a sua escrita com a do Mário Moura ou do Reactor.
    Chega mesmo a dizer que “tornaram-se preguiçosos ao algures pelo caminho”.

    Acho bem que os designers escrevam, mas só nos casos em que acrescentem alguma coisa à discussão. Ora nos seis parágrafos por si escritos, não acrescenta nada ao que o Mário disse, apenas repete de uma forma hiperbólica o que ele disse. Isto (opinião, qualidade do português e forma de construir as ideias) faz com que o seu contributo tenha sido não só uma perda do seu tempo, mas também do meu e de toda a gente que lerá o seu comentário.

    Designers, vamos lá elevar a fasquia!

    Jorge Alvim

  3. pedamado diz:

    Ora bem,… sempre gostei de ler bandas desenhadas, especialmente as da Marvel. Citando uma das minhas personagens favoritas, FLAME ON:

    – Não concordo com a opinião de Mário M. acerca dos Type Designers;
    – Não acredito que o computador seja uma tecnologia diferente das últimas implementadas nos… sei lá… 600 anos de tipografia?
    – Evolução por “degraus”. Um a um parecem uma série de rupturas, mas fazem uma bela escadaria! Por isso, nem 8 nem 80.
    – Não, não me considero um autor, muito menos ao nível de Mário M. ou José B. Quem sabe um dia…
    – OK, o português não é o melhor, e então? Para isso é que conto com um par de neurónios desse lado…

  4. Excelente este post. E, para mim, os cometários do Pedro também são pertinentes. Só não concordo quando considera “que desenhar tipos, este sim, ém o verdadeiro trabalho de um Designer (especializado, claro)” e quando não acredita “que o computador seja uma tecnologia diferente das últimas implementadas nos… sei lá… 600 anos de tipografia”.

    É muito diferente mesmo! É tão ou mais relevante a mudança que este traz ao universo da comunicação do que as trazidas pela imprensa. Estamos a assistir em 30 anos a convulsões no plano do Direito de Autor, radicais alterações à paisagem urbana epá (desculpe lá o português caro leitor) mas são demais as alterações para sequer o comparar com as limitadas funções da prensa de Gutenberg.
    Se acharmos que a única especialização para o design é a tipografia, ou melhor que é necessário forçar especializações para a disciplina seguir bom rumo, não estaremos a perder margem de acção?
    O design de comunicação é só Letras? Então e o tempo de lançamento do produto não pode ser coordenado com a sua forma? E o número de páginas e a orientação das imagens dum desdobrável não deve ser pensado segundo os interesses do leitor? E a Pictografia? Acho que há milhares de factores que um bom designer deve tentar entender e modelar para poder fazer um bom trabalho. As letras são muito importantes, concordo mas não é certamente só a pensar em valores tipográficos que vamos encontrar qualqer espécie de abrigo profissional. O designer não pode “repousar” em nenhuma actividade mecanizada no sistema de comuncação vigente. Deve ser ter em atenção as mutações tecnológicas, sociais e tudo aquilo que afecta a vida dos não-designers para continuar a desenvolver um bom trabalho.

    Sem mais
    João Alves Marrucho

  5. Penso que, o que o Pedro queria referir-se será às problemáticas da Tipografia (corrige-me se estou errado). Pelo menos, considero o comentário dele para esses campos. Será que as questões de proximidade / simplicidade em relação à Tipografia serão assim tão diferentes de à 600 anos atrás?

    Claro que agora temos novas fontes – tento escolher uma, mas hoje em dia estão em voga tantos que prefiro não escolher. Mas será que a problemática que os designers devem ter em atenção nos seus trabalhos é assim tão diferente?
    Claro que ouve evolução a vários niveis. Mas será que evoluiu tudo? Tas as regras / problemáticas / canones?

    Sim Tipografia não é a única matéria no campo do Design, mas não será Ela a mais importante?
    Se não o é, porque se vê tantos desleixes de “orfãos e viúvas” em textos, ou conjunturas a voar nos limites das linhas de um texto alinhado à esquerda? E isto feito por Designers?
    Sim, este tem de (ou deveria pelo menos), dominar estas e muitas outras questões. Tal vez por isso, o seu preço seja um tanto mais elevado que o Sr. Engenheiro ali da “FEUP”.

    Mas deixo-me por estas palavras e volte-se ao cerne do tópico.

  6. […] Muita gente assume que a tipografia é um dos domínios naturais do design. No entanto, as coisas não são assim tão simples. Embora os designers gostem de acreditar que são os herdeiros de uma tradição tipográfica, […]

  7. […] uns textos atrás, lembrei (mais uma vez) que o designer não é um descendente directo do tipógrafo mas, usando uma analogia biológica, […]

  8. […] responsabilidades  a outras áreas profissionais. São particularmente interessantes as relações do design com a tipografia, ligações que se crêem directas e suaves, mas que um exame mais […]

  9. […] concordo com esta linhagem descontínua entre tipógrafos e designers, conforme já defendi em mais do que uma ocasião. Só acrescentaria que o design actual tem também os seus antepassados no […]

  10. […] tinha dito por aqui os designers gráficos não são os descendentes distantes dos tipógrafos mas uma outra espécie que veio ocupar o mesmo n…. Libânio da Silva por exemplo era considerado um industrial, e uma gráfica seria portanto uma […]

  11. […] conceito de Design Thinking e a abordagem da IDEO. A propósito da discussão há muito iniciada (continuada, e continuada…) no blog Ressabiator, esta é talvez a posição mais interessante na […]

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