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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“Arte ou Design? Ou.”

Estavam exactamente noventa e seis pessoas na conferência de Daniel Eatock na Esad de Matosinhos. Este não é um número atirado ao acaso, nem o fiquei a saber por ter contado pela minha própria iniciativa os presentes. Sei-o porque Eatock, no começo da conferência, pôs a plateia a participar num trabalho chamado “cada número dito pelo mesmo número de pessoas que esse número representa” – a primeira pessoa, o próprio Daniel, dizia “um”; Daniel e a segunda pessoa diziam “dois”; e por aí adiante, até às noventa e seis pessoas presentes, em conjunto, dizerem “noventa e seis”. Provavelmente, a ideia foi pôr a plateia à vontade, “incluindo-a” no evento, mas, pessoalmente, a estratégia não me descontraiu – no fim de contas, não havia ali nenhuma escolha: recusar seria uma pirraça embaraçosa; aceitar, foi mero comodismo. No final, toda a descontracção que senti foi por aquilo ter acabado rapidamente.

O resto da conferência/performance consistiu na enunciação de setenta e cinco ideias para projectos não realizados, apresentadas sem imagens, apenas uma frase por cada projecto, em Helvetica Neue branca sobre fundo negro. Se a frase não fosse suficientemente explícita, Eatock explicava melhor o conceito, contando uma pequena história com ar matreiro: um Alka Seltzer numa caneca de cerveja, para representar uma bebida alcoólica que anulava os seus próprios efeitos; uma tonelada de penas; uma gravata com botões simulando a parte da frente de uma camisa; um quadro branco pintado pela pessoa que pintou a galeria de arte onde esse quadro vai estar pendurado, etc. Cada ideia parecia ter a ver com uma forma qualquer de equilíbrio físico, visual, social que se ganhava ou se perdia de forma mais divertida do que irónica.

No seu site, Eatock responde à pergunta “Arte ou Design?” com um astuto “ou” e, como foi dito mais do que uma vez durante a tarde, o seu trabalho pretende situar-se entre a arte e o design. A ideia é pôr em causa as classificações, mas o adjectivo “inclassificável” obtém-se muitas vezes, não por falta de classificação, mas por uma recusa em admitir qualquer tipo de classificação – se é design ou não, isso só interessa a quem discute esse género de coisas; em geral, o designer/artista está-se nas tintas. Mas esta recusa de definição pode ser também uma recusa de responsabilidades, uma maneira de simplesmente fugir. Lembro-me, por exemplo, de um trabalho feito por um aluno de design envolvendo vídeo, instalação, performance, mas cujos cartazes, catálogo e opções tipográficas eram muito fracos. Quando lhe apontei esses problemas, a resposta foi que o trabalho “não tinha a ver com isso.” “Inclassificável” é um sinónimo habitual para “acima da crítica”.

O meu critério mínimo para avaliar a seriedade das coisas que se apresentam como estando entre o design e a arte acaba por ser picuinhas: se o trabalho não for desleixado em termos de tipografia, reprodução de imagens, etc., tenho a tendência para o levar a sério – ou seja, pode ser qualquer coisa, desde que tenha bom design. Na secção das perguntas, o próprio Eatock parece ter concordado com isso: quando lhe perguntaram o que aconteceria se alguém agarrasse numa daquelas ideia e a executasse, respondeu que a habilidade (craft) com que a ideia era executada era importante: um conceito poderia ser feito de várias maneiras diferentes, e algumas seriam mais interessantes ou mais bem feitas do que outras. No caso de Eatock, os slides em Helvetica Neue alinhada em cima e à esquerda eram correctos, não chateavam, mas também não entusiasmavam. Contudo, esta neutralidade por defeito acabava por ser um bom contraponto ao tom satisfeito com que Eatock descrevia cada ideia.

Esse tom satisfeito é uma pista importante para compreender o posicionamento do trabalho de Eatock. Um artista profissional pode ter como projecto de vida atirar tartes à cara de políticos, ou dançar quadrilhas vestido de cow-boy durante vinte e quatro horas seguidas, mas fala desses trabalhos com uma seriedade desproporcionada, como se a sua vida dependesse disso. E, na realidade, depende: os artistas profissionais vivem e trabalham num mundo ritualizado e denso, extremamente competitivo e humilhante. Quem conhece o mercado da arte, seja em Portugal, seja em Londres ou Tóquio, sabe que não existem artistas descontraídos. Eatock, pelo contrário, manteve sempre um tom bastante satisfeito, quase traquinas, enquanto descrevia os seus trabalhos, demonstrando bem que o seu trabalho não é arte pura e dura, mas uma forma de “Art Lite.”

Os designers têm a tendência para ver a arte como mais desregrada e indeterminada do que o design, mas a verdade é que os mecanismos institucionais da arte são muito mais ritualizados e fixos que os do design. No começo da conferência, a namorada de Eatock, a artista brasileira Flávia Müller Medeiros, fez uma introdução ao trabalho de Eatock, mostrando um vídeo do seu próprio trabalho, uma série de entrevistas onde comissários de arte mais ou menos conhecidos tentavam definir os termos “jovem artista”, “artista emergente” e “artista falhado”. À primeira vista, esses termos são chavões do discurso da arte mas, como se viu na entrevista à comissária Lisa Le Feuvre que Medeiros mostrou, não são termos inconsequentes; ajudam a estabelecer uma hierarquia extremamente rígida e impiedosa dentro do mercado da arte.

Por causa desse carácter duro e competitivo do mercado da arte, a “Art Lite” produzida por designers, arquitectos, músicos, VJs, DJs, acaba por ser uma maneira segura de arranjar eventos parecidos com arte, mas que não se enquadram nos complicados mecanismos de legitimação e de gestão de carreira envolvidos no mercado da arte. É aqui que as coisas produzidas a meio caminho entre o design e a arte encontram, finalmente, a sua razão de ser, o seu nicho de mercado.

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Filed under: Arte, Autoria, Conferências, Crítica, Cultura, Design, Uncategorized, , , ,

2 Responses

  1. Como eu gosto é de coisas bonitas, respeito os que se sujeitam a essas humilhações e hierarquias para tentarem mostrar algo em que acreditam. Mas mo meu caso, prefiro agir em ambientes menos hipócritas e conservadores. E sim: Arty is the new Art! Free-fields 4 ever.

  2. No meu artigo mais recente tento explorar um pouco a derradeira pergunta, mas é necessário ter em atenção que, existe uma grande diferença, por mais não seja segundo as leis da matemática e da lógica, entre o “ou” e o “e”. Fica o convite à crítica.

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