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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Chavões

“Design & Inovação” é uma das expressões mais irritantes do vocabulário político dos últimos anos. Em geral, aparece em plena campanha eleitoral, quando um político no governo, um ministro ou secretário de estado, inaugura um complexo agro-industrial numa terra com três nomes no interior do país. Nessas ocasiões, o “Design & Inovação” costuma ser a chave para o “Progresso & Desenvolvimento”, desde que se consiga as “necessárias sinergias” com a “Ciência & Tecnologia”, e por aí adiante.

É claro que ouvir a palavra “Design” a meio do telejornal, dita por alguém importante, que as pessoas reconhecem, faz sempre bem ao ego colectivo dos designers, mas os resultados (até agora) parecem ser tão vagos e tão consequentes como tudo aquilo que costuma sair em público da boca de um político.

Mas mesmo os chavões têm o seu poder – sobretudo se saem da boca de políticos. Se há algum tempo o “Design & Inovação” era uma abstracção pura, algo que pairava inocuamente a meio caminho do futuro, com o passar do tempo foram-se-lhe criando versões reais. Uma delas, bastante em voga, ajuda a “vender” os vários rebrandings da burocracia portuguesa como progresso genuíno – a campanha do “Simplex” é um bom exemplo disto. Outra aparece no meio académico e descreve aqueles projectos que as universidades são obrigadas a desenvolverem para conseguir dinheiro, depois do novo modelo de financiamento do ensino superior lhes ter cortado os fundos.

Porém, com o tempo o equilíbrio entre os elementos do par “Design & Inovação” foi-se desfazendo. Segundo Michael Bierut, nos meios empresariais começou-se a preferir a simples “Inovação”, mais “tecnológica” e “fiável”, deixando o “Design”, mais “artístico” e “temperamental”, de lado. Para Rick Poynor, esta preferência significa que, no mundo dos negócios, o design se tornou demasiado importante para ser deixado ao cuidado de designers.

O problema, segundo parece, é o ego dos designers e a sua preocupação excessiva com o lado visual das coisas, entendido como sendo mais superficial; para evitar estes tiques, surgiu um novo profissional, o design thinker ou innovation expert, que se coloca como intermediário entre designers e clientes, e “vende” o design como um processo essencialmente empresarial, do qual é o gestor. Muitos designers acabam por enfiar este barrete, evitando também eles as associações ao lado mais “estético” do design, recorrendo ao jargão do marketing ou da gestão quando falam de design. Segundo Poynor, isto resulta numa visão empobrecida do design que, inevitavelmente, dá origem a design mais pobre, que deixa de ser visto como um processo cultural, mas apenas como um processo empresarial, um subproduto da economia.

Pelo contrário, Michael Bierut, citado por Poynor, acredita que “o valor estético – pelo menos no design mais duradouro – é o único valor sólido, porque as necessidades funcionais e empresariais podem mudar com o tempo.” Esta é uma ideia curiosa que, à primeira vista, paira muito próximo da defesa de um design feito para designers, mas também abre caminho à ideia de um design com responsabilidades mais alargadas: para com o próprio Design enquanto disciplina com um corpo teórico, histórico e metodológico próprio, mas também para com a cultura em geral, com todas as implicações sociais, políticas, éticas que isso traz. Ironicamente, parece sugerir também que o design é demasiado importante para ser deixado ao cuidado da economia, dos gestores e das empresas – que é como quem diz, da inovação.

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Filed under: Burocracia, Cliente, Crítica, Cultura, Design, Economia, Ensino, Política, , ,

6 Responses

  1. Jorge P. diz:

    É, de facto, o “heat of the moment”… no entanto, penso que faltará a esta tese o chavão “Design & Sustentabilidade”.

  2. Assim de repente, acho que o “processo empresarial” é parte integrante da cultura, tem visuais que lhe foram associados. O design age e sempre agiu nesse meio. Porquê mudar agora? Acho que não percebi bem o problema. Qual é o problema?

  3. É parte integrante da cultura, mas não é “a” cultura. Neste momento, há a tendência para encarar o design apenas como um processo empresarial, fechando outras possibilidades.

  4. Não acho que o processo empresarial deva ser encarado como “a” cultura, (alguém acha?) mas que é uma grande parte é. A ele juntam-se o processo insitucional, o processo educacional, o relacional, enfim os processos… o Design trata disso mesmo, trata principalmente de sanear os processos. Não é?

  5. É uma espécie de parasita processual ele mesmo, benigno, dos mecanismos sociais.

  6. […] de gestão. Algo que encontra o seu lugar nas prateleiras das estantes dos livros de gestão, que o “design thinking” partilha de modo mais ou menos confortável com os livros de estratégia de Sun Tzu e Clausewitz, […]

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