The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Acentos

A relação das fontes com a linguagem é curiosa. Apercebi-me disso – uma vez mais – por causa de um cartaz. Vi-o há uns anos; fazia parte de um projecto de poesia no metro, e mostrava um poema em galês, acompanhado da sua tradução portuguesa, impressa no mesmo tamanho e numa fonte que, à primeira vista, parecia diferente. Era quase igual, mas havia qualquer coisa que não batia certo: enquanto na versão portuguesa, era arredondada e um pouco monótona, na galesa, parecia mais interessante, mais bicuda. Olhando com mais atenção, vi que era de facto a mesma fonte, mas o galês usava muito mais letras diagonais – Y, W – do que o português, ao ponto de mudar completamente o aspecto da fonte, cujas letras diagonais eram mais características que as redondas.

Há designers que levam em conta a língua quando criam as suas fontes, como František Štorm, que enfatiza as letras diagonais, comuns no checo, opondo-as por vezes à inclinação geral da fonte. Um exemplo curioso e extremo é o itálico da sua família Jannon, que não tem uma inclinação uniforme, ondulando ao longo das linhas de texto. Estas oscilações, bem como as diferenças excêntricas de contraste no desenho dos caracteres, combinam de maneira eficaz com o seu trabalho de ilustrador, feito em gravura sobre madeira – em conjunto, texto e desenho parecem crepitar sobre a página.

Pergunto-me se haverá alguma característica semelhante na língua portuguesa e se isso fará alguma diferença no desenho das letras. Talvez o ar arredondado – pelo menos em comparação com o galês e o checo – seja uma dessas características. Outra, poderá ser a profusão de acentos, mesmo, assim tímida, comparada com o francês, onde os acentos, bem como a cedilha tiveram a sua origem. Segundo Philip B. Meggs, foram desenvolvidos pelo tipógrafo e académico Geoffroy de Tory no século XVI, sendo uma adição relativamente tardia ao alfabeto romano; ainda hoje, dão algumas dores de cabeça aos designers como, por exemplo, quando aparecem em títulos compostos em maiúsculas.

No inglês, que é cada vez mais a língua internacional por defeito, não há esses problemas, porque também não há acentos, que são cada vez mais vistos como um pormenor de última hora pelas foundries internacionais. Pelo contrário, Štorm acredita que todos os designers deveriam aprender a lidar com os diacríticos de cada língua, sabendo qual a forma que devem ter e a maneira como devem ser usados.

Talvez pela sua ligação à linguagem, as fontes e os seus elementos de construção são frequentemente associados ao nacionalismo. As serifas, por exemplo, são frequentemente associadas a um país, cultura ou região – latinas, etruscas, etc. Por oposição, as letras não serifadas foram consideradas, durante muito tempo, neutras e internacionais. Mas, ao contrário das serifas, os acentos nunca foram elementos particularmente nacionalistas – embora Štorm refira e critique a existência de fontes nacionalistas, como a Antykua Półtawskiego (polaca) e a Antiqua de Vojtech Preissig (checa).

Os acentos são, de certa maneira, as partes mais tímidas do alfabeto e pergunto-me o que seria criar uma fonte, em tudo normal, mas cujos acentos fossem excessivos, conceptuais ou minimalistas. Imaginem-na com acentos que se prolongam como flâmulas bem acima dos ascendentes, ou que, em vez de cada acento, tivesse escrito o nome do acento correspondente, ou que, mais ironicamente, em vez de acentos tivesse assentos.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Fontes, Linguagem, , , ,

13 Responses

  1. “…dão algumas dores de cabeça aos designers como, por exemplo, quando aparecem em títulos compostos em maiúsculas.”

    Em Espanha resolveram o problema facilmente: não existe uma obrigação ortotipográfica de usar acentos em maiúsculas. Ou pelo menos existe a ideia generalizada de que não faz falta usá-los. Simples não?

  2. Ricardo Castro diz:

    É bem verdade… isto numa altura em que a eminência do (des)Acordo Ortográfico e a ditadura da Aldeia Global se propagam sobre nós, não há acento que resista no seu assento.

    Daqui acho interessante ressalvar que os próprios idiomas fazem as suas fontes, o que pode levar à conotação destas com nacionalismos indesejados. Confesso que nisto nada vejo de subversivo, bem pelo contrário. Os acentos serão a parte tímida justamente quando o seu desenho fôr (não resisti ao circumflexo…) “um pormenor de última hora”, mas quanto a mim são eles que dão identidade à forma escrita do idioma, muito como os Y e W dão essa “diagonalidade” ao galês.

    De repente, e por falar em Štorm, lembrei-me da curiosa coincidência (?) entre o circumflexo e háček checos e a bandeira da sua República.

    Só por curiosidade, por que razão considera Štorm como nacionalista a Antykwa Półtawskiego (do meu inocente conhecimento da belíssima língua polaca julgo que é assim que se escreve na sua forma correcta!)?

    Abraço!,
    Ricardo Castro

  3. De facto, foi um erro de transcrição da minha parte. Escreve-se ‘Antykwa Półtawskiego’ e não ‘Antykwa Półtawskievo’, como eu tinha escrito.

    Quanto às razões pela qual Štorm considera essas fontes nacionalistas, e porque as critica, deixo aqui um excerto do artigo de Petra Černe Oven, na revista Eye nº 50:

    “Storm also believes that so-called ‘national typefaces’ such as Antykwa Póltawskiego (in Poland) and Preissig’s Antiqua were merely experiments that did not solve the problem of diacritics. ‘Preissig was wrong, maybe due to his self-importance at that time. His intention, to simplify designing Czech accents, had exactly the opposite result: the accents he added to Monotype Garamond caused a big mess in printing offices in the 1920s. But this is my personal view, I love Preissig for other reasons.’”

    Traduzi “national typefaces” por “fontes nacionalistas”, o que lhes dá talvez uma aura demasiado extrema. Ainda assim, tomei essa opção por estar a ler, na altura em que escrevi o texto, uma biografia de Kafka em que se referia a afirmação nacionalista da língua checa em relação ao alemão. Este género de movimentos nacionalistas foram bastante comuns durante o século XIX, e em alguns casos incluiram a criação de fontes.

    Um abraço (e obrigado pelas correcções),

    Mário Moura

  4. Também em França, geralmente, não se acentuam as maiúsculas. Prática que depois transita para as siglas. Por exemplo, Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, vulgo EHESS. Tudo bem, em França sabem que école e études levam acento, mas não se coloca. Parece, de facto, simples.

    Mas a minha questão é esta. E fora de França, como fazer? Eu por vezes faço revisões de provas e tenho a postura de acentuar este e outros exemplos similares, pois acho que uma vez que não estamos em França devemos respeitar a língua original e manter os acentos. Porque acredito que se não o fizermos estamos a induzir em erro os leitores. Porque se não o fizermos podemos estar a fazer crer aos leitores portugueses que école é final ecole. Não acham? Que acham?

  5. O Português tem um aspecto arredondado porque usa muitas vogais e nem tantas diagonais. Neste aspecto melhor que Português só mesmo o Latim ou o Italiano. Curiosidades aparte acho que a afirmação: ‘(…) acentos, que são cada vez mais vistos como um pormenor de última hora pelas foundries internacionais.’ um bocadinho leviana. Por ventura tipos de letra de amadores e autodidactas descuram os diacríticos, acentos e afins mas, hoje em dia, não há profissional sério e conceituado que não tenha conhecimento, ou que não investigue as particularidades das Línguas. Dito isto há ainda a ter em conta que nem todas as particularidades de uma determinada Língua podem ser atendidas quando se desenvolve um tipo de letra para uso ‘universal’; por exemplo, o Alemão usa muitas maiúsculas (todos os substantivos) e não podemos reduzir a altura das maísculas de um tipo de letra por causa disso — o que faríamos se estivéssemos a fazer um tipo de letra que será usado na Língua Alemã.

  6. De facto, a situação está bem melhor agora do que há uns anos, quando era frequente ter de acrescentar ou corrigir os acentos necessários às fontes. Como referes, já há bem mais foundries a tratarem bem os diacríticos, mas, ainda assim, a tendência e o standard por defeito acaba por ser a língua inglesa. Evidentemente, os melhores designers de tipos evitam esse erro. Nesse aspecto, concordo com Štorm quando diz que:

    “‘Diacritics are an integral part of a design – not merely an afterthought, as many foreign foundries believe.’ Designing diacritics is about responsibility towards one’s craft rather than language proficiency; intuition and familiarity with the language are not key elements in the design process. Storm is convinced that ‘any foreign designer can learn how diacritical marks should be designed, what kind of shape they should have and where they should be positioned – it is just a few simple rules, no sorcery there!’”

    PS: Parabéns pelo design do ‘Fabrico Próprio’

    Respondendo ao Carlos Vieira Reis, na questão dos acentos em palavras maiúsculas: este é mais um daqueles casos em que a ortografia legisla sobre questões gráficas sem chegar a grandes resultados. De acordo com a ortografia mais ‘ortodoxa’, um título em português não só deve levar os acentos necessários, como deve ser escrito em maiúsculas – o que dificulta bastante a tarefa dos designers. Nos últimos tempos, já não é raro ver títulos em minúsculas, o que, até certo ponto, resolve a questão dos acentos. No entanto, nos títulos ‘em bloco’, o problema mantém-se.

  7. Ricardo Castro diz:

    Em relação aos títulos com/sem acentos em Português/outros idiomas, não será isso menos problema e mais vantagem, sob um ponto de vista puramente estético/visual?

  8. Mário Moura,

    Eu não consigo ser sensível ao argumento “o que dificulta bastante a tarefa dos designers”… Percebes onde quero chegar? Se os designers acham que a particularidade de uma língua está a ser um entrave à sua criatividade, ou à execução de uma tarefa, bem, nem sei o que dizer… Há mil e uma maneiras de contornar um acento despropositado (graficamente falando). Eu nem sei bem a que te referes quando falas em “ortografia ortodoxa”… e que legislar é esse?… Para mim ortografia é «a forma correcta de escrever as palavras; parte da gramática que ensina a escrever correctamente as palavras de uma língua». Simples e nada ortodoxo. Esta definição aceita perfeitamente que um título possa aparecer como se queira: em versal, em versalete, em versal versalete, em minúsculas, itálico, bold, whatever. Mas os acentos têm de lá estar, não? Mesmo que dêem dores de cabeça… A mim não parece é que a melhor solução seja eliminá-los pura e simplesmente. Nunca isso poderá ser uma vantagem (respondendo ao Ricardo Castro).

    Resumindo, generalizações à parte, e sem querer parecer muito ortodoxo ;)), a mim parece-me que se a ortografia e a posição/visão gráfica não se entendem só pode ser porque os designers não entendem a língua que têm à sua disposição…

  9. Na questão dos designers – e os tipógrafos antes deles – acharem a língua um entrave, há bastantes precedentes. Alguns ficaram pela especulação, como a ideia de Jan Tschichold de reformar a ortografia alemã de maneira a que os substantivos não começassem sempre em maiúsculas. No limite, isso levaria à eliminação pura e simples das maiúsculas em alemão. Este exemplo ficou-se pela discussão, mas houve alguns que vingaram, como o já referido tipógrafo renascentista Geoffroy de Tory que participou na reforma da língua francesa, contribuindo com os acentos e cedilhas. Sempre houve, dentro do design e da tipografia, tendências reformistas em relação à língua.

    No caso da ortografia, foi possível ver, ao longo das últimas décadas, uma série de discussões na ortografia do português, em particular quanto à sua representação gráfica. Por exemplo, lembro-me da questão dos títulos em minúsculas ter sido discutida numa rubrica dedicada ao “bom português” do programa “Acontece” e o apresentador ter dito que o uso correcto seria capitalizar sempre todo o título, “embora os designers às vezes preferissem de outra maneira”. Também me lembro da própria palavra “Design” ter sido, várias vezes, considerada incorrecta nesse programa; um convidado chegou a ser corrigido a meio de uma frase por a ter dito. Ou seja, a própria existência de uma profissão que insiste em chamar-se “Design” desafia as regras do bom português.

  10. Pedro Gonçalves diz:

    Bom, estive ausente durante uns dias e vejo que a discussão se tornou acesa.

    Ao ter referido a simplicidade da soluçao, quiz também referir-me ao simplismo que com que os factores linguísticos podem ser encarados em Espanha.
    É claro que em numerosas situações a possibilidade ou opção de poder prescindir de um acento sem que pareça um erro grosseiro aumenta o leque de opções de uma determinada composição, principalmente se se trata de um desenho de bloco como refere o Mário.

    Por outro lado também estou de acordo que nao deve ser a necessidade formal das letras a ditar a alteração dos cânones linguisticos. No caso de Espanha, parece-me (sem ter a certeza) simplesmente que foi um habito que se tornou regra.

    Enquanto designer já compus textos utilizando português, ingles, espanhol, polaco e francês. O inglês dá bastante gozo, já que normalmente as tipografias estão pensadas para funcionar nessa lingua, principalmente quando falamos de ligaturas. Ultimamente, ao trabalhar com tipografias de origem portuguesa essa sensação tem vindo alterar-se, principalmente com as fontes da dstype que levam ao extremo o numero de opções disponíveis.

  11. ana carolina diz:

    Perguntas que não se calam.Como você acentua uma palavra sem saber o seu significado,como se deve ser pronunciada quem sabe ajuda?…não sei se é certo lhes perguntar mas como se acentua CALCUTAR;vamos achar respostas!

  12. […] ao design gráfico. Numa das poucas vezes em que o tentei conscientemente, imaginei o que seria uma fonte onde os acentos teriam mais destaque que as letras, arrastando-se atrás delas como insígnias ao […]

  13. […] uns anos, andei a brincar com a ideia de uma fonte de aspecto banal mas com acentos flamejantes. Em inglês seria insossa, em […]

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