The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Alice e as Assinaturas Invertidas

“…E para que serve um livro, pensou Alice, sem figuras ou diálogos.” Esta é uma frase que muitos ilustradores gostam de citar. Como quase todas as frases amplamente citadas, pertence ao primeiro parágrafo de um livro; neste caso, Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll.

Se perguntarem a um ilustrador se já leu a Alice, é provável que ele responda: “Qual delas?”, referindo-se a cada uma das versões ilustradas que surgiram ao longo dos anos. Há Alices Arte Nova, Alices Manga, Alices adultas, Alices para adultos, Alices infantis, Alices Politicas (uma em que o Humpty Dumpty tinha a cara de Richard Nixon), etc. O próprio Carroll ilustrou um primeiro manuscrito parcial, chamado The Adventures of Alice Underground, como oferta a Alice Lidell, a criança que inspirou a personagem. Contudo, para os puristas, os verdadeiros fanáticos, só existe a versão de John Tenniel, autor dos desenhos da primeira edição, em 1865.

Tenniel era um dos mais conhecidos ilustradores políticos ingleses, conhecido pelas ácidas caricaturas de Abraham Lincoln durante a Guerra Civil Americana, publicadas na revista satírica Punch. Era uma personagem incansável, fleumática e reservada (conta-se que, depois de perder um olho num acidente, conseguiu ocultar o sucedido ao seu próprio pai). Seria ele que conceberia a fisionomia da maioria das personagens que Alice encontra no País das Maravilhas e Do Outro Lado do Espelho – Humpty Dumpty, o Chapeleiro Louco e a Lebre de Março pertencem-lhe, tanto como a Carroll.

Foi um dos últimos autores do período dourado da ilustração, quando as máquinas fotográficas eram apenas engenhocas excêntricas e pouco práticas. Antes da reprodução fotográfica na imprensa ser possível, o ilustrador tinha de trabalhar em colaboração com gravadores que se encarregavam de transformar os seus desenhos em baixos-relevos de madeira. As ilustrações de Alice aparecem assinadas pelo monograma invertido de John Tenniel (JT) e pela assinatura “direita” dos gravadores (Dalziel) – na ilustração onde Alice passa através do espelho, a situação inverte-se, apropriadamente.

O trabalho do gravador era delicado e melindroso, agravado pelos complicados tracejados usados nas ilustrações da época. Passá-los para a madeira era uma tarefa de minúcia e precisão que muitas vezes não admitia segunda oportunidade. Nas situações de maior urgência, como no caso das ilustrações para jornais, o desenho original era dividido em módulos, gravados por oficinas distintas, em vários pontos de Londres, sendo reunidos apenas no acto da impressão.

Um ilustrador experiente como Tenniel sabia que o traço das suas ilustrações tinha de combinar com o próprio traçado da fonte escolhida para o texto do livro. Uma fonte de espessuras pouco contrastantes pedia um traço regular; uma fonte com muitas variações de espessura pedia um traço mais caligráfico. De certa maneira, os caracteres tipográficos são também desenhos que ilustram um texto. A forma das letras, ou do próprio texto, podem ser a sua ilustração. Lewis Carroll lembra-nos disso, através de um poema chamado “Mouse’s Tale” (O Conto do Rato), um trocadilho com “Mouse’s Tail” (A Cauda do Rato) que é prolongado visualmente: o próprio poema é em forma de cauda de rato. A ideia não era nova: na Grécia Antiga, o poeta Símias de Rodes escreveu um poema chamado Ovo e outro chamado Machado de Guerra, em forma – previsivelmente e respectivamente – de ovo e de machado.

Um dos muitos encantos de Alice é esta fronteira ténue entre linguagem e imagem. As ilustrações de Tenniel e as palavras de Carroll estão sempre prontas a fazer mais do que seria de esperar e, parafraseando Humpty Dumpty, “Quando se obriga uma palavra ou uma ilustração a trabalhar muito, deve-se pagar-lhe horas extra.”

Este texto foi publicado na revista Dif, numa versão ligeiramente diferente.

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Filed under: Design, Ilustração, Tipografia, Uncategorized, , ,

One Response

  1. Manuel Albino diz:

    Olá Mario. É por estes textos que eu tenho o “ressabiator” nos meus “preferidos”. Bonito, elucidativo e muito teu (daquilo que eu ainda posso dizer conhecer de antes e do que tenho lido).
    Não é um comentário…é só uma lisonja verdadeira…

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