The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“One Siza Fits All”


Nas Belas Artes do Porto, havia um anfiteatro pequeno, bonito, com vista para o jardim, com umas cadeiras embutidas, em madeira escura, gasta. Tinham um assento de fechar, o que podia ser um problema: se a dobradiça quebrasse, o assento ficava inutilizado. Acabou por se encontrar uma solução de recurso, que foi fazer umas cadeiras pequeninas, de madeira, que encaixavam no lugar das cadeiras partidas. Infelizmente, eram muito desconfortáveis e, mesmo nas aulas mais sobrelotadas, acabavam por ficar vazias (os alunos preferiam sentar-se no chão).

Um dia, começou a correr o boato que essas cadeiras tinham sido feitas pelo Siza Vieira.

Na altura, eu dividia um apartamento com um estudante de arquitectura e, no próprio dia em que ouvi o boato pela primeira vez, ele entrou em casa tirando peças de madeira dos bolsos do casaco, das calças, da pasta, de todo o lado. Era uma das cadeiras do Siza, cuidadosamente descolada e contrabandeada.

Daí em diante, a cadeira, – que continuou a ser tão desconfortável como troféu como tinha sido como tapa-buracos –, foi motivo de orgulho e romaria, com lugar de destaque na nossa sala de jantar e, desde essa altura, habituei-me a encontrar mais cadeiras desengonçadas e oscilantes, espalhadas pelas casas dos meus amigos arquitectos – à segunda, a cola para madeira nunca pega tão bem.

Este é apenas um dos exemplos da adoração cega que os arquitectos da escola do Porto votam ao Siza. Mas há coisas que me irritam mais no seu trabalho, como a sinalética associada aos seus edifícios que é, francamente, muito fraca.

O pior exemplo são os símbolos das casas de banho de Serralves, num estilo a meio caminho entre o De Stijl e a figura do Modulor de Le Corbusier (é o braço levantado), que demonstra bem que ângulos rectos e pouca informação nem sempre são sinónimo de minimalismo (ou de bom gosto). Também em Serralves, as letras metálicas que identificam as salas, assentes sobre um pequeno rebordo, talvez com a intenção de serem discretas, acabam, precisamente por isso, por ser um floreado tipograficamente deselegante. A parte inferior de uma linha de texto não é realmente uma linha; parece uma linha por causa de uma série de correcções ópticas que corrigem as diferentes formas das letras. Ao assentar o texto sobre uma superfície, essas correcções são amputadas, destruindo o equilíbrio original das letras.

Não estou a dizer que Siza, enquanto arquitecto, não deveria lidar com letras. Acredito que qualquer pessoa o pode fazer – mas também acredito que o deve fazer bem.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, ,

13 Responses

  1. Lp diz:

    Um bom profissional não é aquele que faz tudo bem – é aquele que quando não sabe fazer tudo bem, encontra alguém que o faça por ele, e integra-o na equipa. Não parece ser o caso do chefe Siza, que há já vários anos tem tido no mobiliário (sobretudo ergonomia e resistência) e na sinaléctica os seus calcanhares de Aquiles.
    De certeza que já alguém lhe chamou a atenção para isso; no entanto, tendo lido há pouco tempo uma entrevista com ele, desconfio que um ego insuflado é o culpado pela insistência nessas (in)competências.

    É pena também a insistência essa de rechearem os espaços ligados às artes & design com exemplos que nada dignificam as profissões. Deveria também existir uma curatoria mais cuidadosa do utilitário.

    Pois em casa de ferreiro, espeto de pau – o meu Prof. de Ergonomia da Faculdade costumava dizer que compreendia a razão de poucos alunos irem às suas aulas – as cadeiras do bar eram melhores que as das salas de aula….

  2. LC diz:

    Em primeiro lugar gostaria de agradecer pelos ótimos textos que encontro aqui. Sou leitor assíduo, porém não comentador.

    Aqui no Brasil a escrita se repetiu: Siza projetou a sede da Fundação Iberê Camargo. E o mobiliário. E a sinalização. E as luminárias (se bem que estas não foram projetadas especificamente para lá).

    Ainda não conheci – Porto Alegre fica muito longe do Rio – mas a impressão que tenho é que, não fosse Siza o autor, o projeto (e o excesso de controle de seu autor sobre todos os aspectos) não teriam acolhida tão unânime…

    Apesar das ressalvas acima, gosto muito do Siza. Aliás, formalismo dissolvendo a funcionalidade não é estranha aos nossos arquitetos – basta lembrarmos de Niemeyer, outro arquiteto que também gosto e que também nem sempre observa que prédios tem que funcionar…

    Abraços!

  3. João Lima diz:

    Quando acabei o secundário tinha duas opções: Arquitectura ou Design de Comunicação. Infelizmente ou não, optei pela primeira. Na altura, no meio primeiro ano de faculdade, não compreendia porque só se falava no Siza, achava eu, como a generalidade das pessoas, (?!) que a sua obra era sobrevalorizada, e haveria em Portugal arquitectura bem mais interessante.

    Contudo, não haveria de levar muito tempo a perceber que o homem é de facto quase genial (só não digo genial por causa da Avenida dos Aliados mas só isso dava matéria para outro post). E quanto mais aprendia arquitectura mais fui percebendo a excepcional qualidade de grande parte das obras de Siza.

    No entanto depressa me apercebi que o meu caminho era outro. Hoje como aluno de design de comunicação percebo que o trabalho de design do Siza é de facto mau (sobretudo o lado gráfico), e a sua resistência a colaborações com designers, deve-se a um complexo de superioridade que a generalidade dos arquitectos ostentam. O próprio Siza diz “Eu não sou designer nem percebo nada disso”, ora se não é designer porque não pede ajuda?

    No entanto devemos ter em conta o que representa por exemplo uma sinalética de Homem/Mulher de uma casa de banho num edifício excepcional como por exemplo o da Fundação Iberê Camargo no Brazil. A grandeza da obra é de tal ordem que não é um Helvetica Corbusier Men à entrada de uma casa de banho que lhe retira o valor.

    Respect.

  4. Lp diz:

    Não é o “Helvetica Corbusier Men” que retira mérito à arquitectura enquanto objecto, apenas o retira às escolhas de design do capitão Siza, à unidade do projecto arquitectónico como um todo, e, naturalmente, ao design per se.
    Qualquer landmark que se preze convém ter uma unidade qualitativa no seu todo….

  5. JL diz:

    joão lima quantos anos estiveste em arquitectura? posso saber? é uma pergunta banal!

    Abraço

  6. BA diz:

    aproveito também a onda das questões para fazer algumas aos que fizeram o post e aos que “comentaram” Conhecem alguma obra/evento do siza que tenha tido um designer envolvido? conhecem algum arquitecto ou a obra de algum arquitecto que tenha um designer envolvido em todo o seu processo?

  7. lool diz:

    e k tal chamar um pintor para fazer a escolha das cores??? e um escultor para fazer o estudo das formas e dos materiais? um engenheiro k ajudava na construção um advogado para tratar de burocracias fiscais e legais – problemas de camara e afins……..e não se faziam arquitectos uma mais valia para a sociedade e n haviam mais discussões…por amor de deus é entrar no ridiculo debater e questionar a obra de arquitectos só pk eles fazem pouca utilização dos designers.

    PS: designer de interiores substitui o arquitecto e o pintor e o escultor substituem o designer de interiores quem é k sobra?! o pintor e o escultor!

  8. BA:

    Assim de repente, lembro-me do Eduardo Souto Moura usar quase sempre a mesma firma (António Queirós Design) para fazer as sinaléticas das suas obras.

    O Koolhaas costumava trabalhar com o Bruce Mau.

    lool:

    Não se trata de questionar a obra de arquitectos por não utilizarem designers, mas por fazerem mau design. Lembro a última linha do post:

    “Não estou a dizer que Siza, enquanto arquitecto, não deveria lidar com letras. Acredito que qualquer pessoa o pode fazer – mas também acredito que o deve fazer bem.”

  9. lool diz:

    ok. “Eu não sou designer nem percebo nada disso”, faço destas, minhas palavras – e atenção não sou grande fã – mas achas que compensa a um arquitecto ir pedir ajuda a um pintor para saber qual a melhor cor a usar na parede? achas que compensa ao arquitecto ir buscar um designer de interiores? para lhe fazer o interior da casa e decorá-lo, não estou aqui a dizer que os designers são uma miseria e que os arquitectos é que são bons, aliás nem sou arquitecto nem sou designer para falar do trabalho de um ou do outro. Mas se o arquitecto enquanto “artista” pensa que o seu trabalho só fica completo com aquele elemento em especifico feito por ele bem ou mal não vai pedir a ninguém que o faça por ele, pensa tu no teu trabalho/projecto se não precisas de mais alguém para que o teu trabalho fique perfeito? e se não “rejeitas essa ajuda” porque és tu que nesses momentos o deves completar.
    Quero dizer com isto, que se fosse eu arquitecto não olharia a despesas se necessitasse de ajuda de um designer para definir a minha imagem ou para a estrutura de uma sinalética, e se eu fosse designer não olharia a despesas em pedir ajuda a um arquitecto se necessitasse dele para me ajudar no meu trabalho (e acredito que em muitos momentos os designers não foram mais felizes nos seus projectos por falta de cooperação com um arquitecto e vice-versa)
    Mas existem momentos em todo um projecto que poderiam ser utilzados mais intervenientes, mas que nem sempre esses intervenientes devem ou podem ser utilizados por simples “remate do projecto” ou pela continuidade de uma linguagem do “artista”(sugiro a obra do Le corbusier para me fundamentar).
    Bem ou mal a sinalética em Serralves não perturba, pode ser questionada, como muitas outras intervenções de outros artistas, mas não perturba.

    PS:LP apesar de eu não apreciar muito a obra do siza em geral e só apreciar alguns dos pequenos pormenores que ele vai deixando tenho algo a dizer em relação ás famosas cadeiras… o teu Prof. de Ergonomia da Faculdade realmente tem razão são mais confortáveis as do bar, mas ele esqueceu-se de referir ou se calhar o seu pensamento não abordava essa parte, era que se a sala tivesse umas chaise longue do Corbusier ele tinha os alunos todos na sala, mas das duas uma ou estavam todos a dormir pelo seu conforto ou todos a conversar porque assemelhavam a sala a um bar.

  10. A questão da sinalética do Siza não perturbar é relativa. Quando se diz isso, não se tem em conta que o seu design (em especial o de equipamento) é frequentemente citado como um bom exemplo.

    Pelos exemplos que dei no texto (e ainda poderia acrescentar mais alguns), acredito que o seu design não está de todo ao nível da sua arquitectura.

    Aquilo que perturba no design do Siza é a tendência para se elogiar tudo o que ele faz, por nenhuma razão melhor do que ter sido feito por ele. Pelo contrário, acredito que o melhor design e a melhor arquitectura deveriam talvez estimular a excelência e não a conformidade do “não perturba”.

  11. Joaquim Vieira diz:

    Concordo quando se diz: “o seu design não está de todo ao nível da sua arquitectura”
    E não concordo quando se diz : “adoração cega que os arquitectos da escola do Porto votam ao Siza” porque essa adoração será, penso eu, na perspectiva arquitectónica e o siza enquanto arquitecto, não enquanto designer.
    Porque certamente não estarão formados ao nivel do design para avaliarem o seu trabalho, quer no design de equipamento quer no design gráfico.
    Limitando-se a avaliar o seu conforto no caso dos equipamentos e o “perturbar ou não perturbar” dos grafismos relativamente ao espaço e não propriamente o design do grafismo em si.

    Conheço alguns arquitectos, inclusive professores da escola do porto (FAUP), inclusive amigos do arquitecto siza que possuem a mesma opinião partilhada no blog quanto ao nivel do seu design e ao desconforto “da cadeira”.
    Mas desde já faço a proposta para que frequente e visite algumas das obras do arquitecto siza e experimentar todo o equipamento e verá que nem tudo são rosas e nem tudo são espinhos, e que algum do equipamento é o indicado para certas obras, e aí contradigo-me, quando digo que algumas peças podem aproximar-se á sua arquitectura.

    Sei que pareço um fã incondicional do arquitecto siza e da escola do porto, mas estou mesmo longe disso porque tal como disse “nem tudo são rosas e nem tudo são espinhos”.
    Acho que isto era um bom tema de debate até com o arquitecto siza, uma espécie de tertúlia publica, onde se poderia debater sobre o seu nacionalismo arquitectónico que se transpôs para o design gráfico e equipamento das suas obras.

  12. João Lima diz:

    Mais um exemplo de um atelier de arquitectura que colaborou com um designer, neste caso um type designer. Promontório Arquitectos e Mário Feliciano colaboraram no projecto de um centro comercial em Oeiras.

    http://www.promontorio.net/ret_01.html

    (Foram 3 anos LP)

    abraços

  13. Joaquim Vieira diz:

    (racionalismo em vez de nacionalismo peço desculpa pelo erro)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: