The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ensaio sobre a banalidade do design


Na semana passada, encontrei à venda na velha Leitura da rua de Ceuta o novo calhamaço de Steven Heller, Iron Fists: Branding the 20th Century Totalitarian State que comprei imediatamente, embora o preço me tenha, nesta altura do mês, doído muito. Folheei-o entre reuniões e correcções de testes, mas confesso que ainda não o li – não posso, assim, fazer uma crítica completa, clássica, mas posso julgá-lo pela capa que, felizmente, é algo que um designer pode fazer com alguma legitimidade.

É uma capa estranha, chamativa mas desconfortável. À primeira vista, parece ser um esquema quase abstracto de bandas diagonais que revela em negativo o título do livro, mas na verdade é apenas uma sobrecapa plástica que tapa parcialmente a verdadeira capa que, longe de ser abstracta, mostra com todo o pormenor a capa de um outro livro, um manual de identidade do Partido Nazi, centrada numa margem branca desconfortavelmente grande – como que a dizer: não confundam esta capa (a do livro nazi), com a capa deste livro (o de Heller): isto é só uma imagem.

Com todas as suas camadas, a capa consegue ser vistosa e envergonhada no mesmo fôlego, apelando ao comprador, mas distanciando-se duplamente do seu tema. Poder-se-ia argumentar que a sua função é prática: pouca gente acharia confortável ler um livro com uma grande – ou mesmo uma pequena – suástica na capa. No entanto, pelas suas dimensões, Iron Fists não é um livro para ler no autocarro ou mesmo no café. A sua sobrecapa é, portanto, mais simbólica do que pragmática, ilustrando bem a relação desconfortável que os designers têm com as imagens gráficas, inegavelmente poderosas, dos regimes totalitários, e em particular com a suástica.

Num ensaio de 2006, chamado sugestivamente The Silence of The Swastika, Erica Nooney afirma que a história oficial do design se limita a criar uma narrativa formalista que canoniza uns tantos heróis, não conseguindo lidar com as implicações politicas do design, sobretudo quando são espectacularmente negativas. Lendo Nooney, fica bem claro que a história do design “clássica” é sobretudo promocional – fala das coisas boas, referindo vagamente as coisas más, que em geral só são invocadas para sublinhar o terrível poder e responsabilidade dos designers. Aqui, a suástica é usada como um símbolo de mal absoluto, algo que deveria pairar fora da história como um aviso.

Contudo, para Nooney, este isolamento é um problema. Ela acusa precisamente Steven Heller de, com o seu trabalho sobre a suástica, ter isolado questões que deveriam ser colocadas a todo o design, ao considerá-las apropriadas apenas a um pequeno número de objectos gráficos. Segundo ela, é essencial conseguir produzir uma história do design que consiga lidar directamente com os problemas que a suástica levanta.

No entanto, este é um problema antigo, que se limita a reproduzir dentro do design gráfico um debate maior, que foi colocado com particular acuidade por Hannah Arendt no seu livro Eichmann em Jerusalém. Para Arendt, o problema do Mal não era a sua excepcionalidade, mas a sua banalidade. Ao tornar os crimes do regime Nazi num exemplo de mal absoluto, corria-se o risco de também os inutilizar enquanto exemplo: qualquer coisa comparada com eles se torna trivial. O que é apenas um assassinato comparado com seis milhões? Esta deveria ser uma falsa escolha e cada assassinato deveria ser tão grave como um genocídio. Da mesma maneira, qualquer objecto de design deveria ser tão político como uma suástica – julgando Iron Fists apenas pelas camadas da sua capa, parece-me que ainda não é desta.

Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design, História, Política, Publicações, , , ,

One Response

  1. Há cerca de quatro anos ou cinco anos atrás o príncipe Harry de Inglaterra usou um dsfarce de Hitler no Carnaval e foi logo ferozmente criticado pela imprensa. Na altura chegou a ser proposto que a suástica fosse proibida ne União Europeia e fiz de imediato um flyer ( Ver aqui: http://farm1.static.flickr.com/161/337607691_756fdec784_o.jpg) para a mítca festa de Carnaval da FBAUP que falava um pouco sobre isso. Como designer nada me preocupa mais do que a iconoclastia. Se um tipo usa a suástica para alguma coisa que seja, nem que seja disfarçada, para mim é já uma batalha ganha. Quanto mais especial seja o tratamento dado a um signo, mais sagrado ele se torna. E isso com a suástico, pela hsitória que conta, poderia ser perigoso. Infelizmente, imagino que o livro não fale muito de questões de composição ou simbologia hindu. Pelo título só consigo adivinhar a colocação da suástica ao nível em que foi proposta pelo Partido Nazi. E isso é mais do mesmo.

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