The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Marasmo

Não tenho visto muito design interessante em Portugal. Durante algum tempo, desconfiei desta sensação de vazio – pensei que o problema fosse meu e que as coisas interessantes estivessem a acontecer noutro sítio qualquer. Mas, ao perguntar a amigos e colegas, também eles me diziam que não tinham visto nada.

É claro que os melhores designers continuam a fazer bom trabalho, embora, nos últimos tempos, me pareça mais cerebral do que inspirado. Por outro lado, muitos dos designers mais jovens, cujo trabalho eu ia seguindo, desapareceram. Deixaram de trabalhar de todo, talvez por terem arranjado emprego (um paradoxo aparente, mas é difícil ser interessante enquanto se é pago para isso), talvez pela razão oposta (não há assim tantos empregos), talvez por outras razões (encontrar um designer motivado é mais difícil do que encontrar design interessante).

Este marasmo no design é, sem dúvida, consequência da Crise (Económica, Política, do Porto, do país, Internacional, etc.) e, em alturas de crise, é o próprio design a primeira coisa a atirar pela janela. Nem falo de poupar dinheiro não contratando designers, mas de usar um design mais cauteloso, mais administrativo, mais seguro. Na ambição supersticiosa de encontrar públicos, os clientes sujeitam o design gráfico ao marketing, o que na área da cultura, onde aparecia o design mais interessante, dá sempre os piores resultados.

Para aguentar a escassez, poderia dedicar-me à crítica negativa; numa má época é sempre possível encontrar algo para dizer mal, mas, mesmo para isso, é preciso haver objectos que sejam ruins num sentido que se possa falar de maneira interessante, mas nem isso tenho visto. Tem sido uma temporada difícil.

Talvez por deformação profissional, a minha solução tenha sido analisar mais o discurso crítico e público dos designers do que o seu design propriamente dito. De resto, acredito que não é possível isolar uma coisa da outra: a forma como os designers falam de um trabalho faz parte daquilo que o torna interessante. Nunca acreditei naquela coisa de um trabalho ter de funcionar por si só. É um mito.

De qualquer das formas, tem havido mais conferências, exposições e artigos sobre design em Portugal e, se calhar, em momentos difíceis, a capacidade de auto-avaliação acaba por ser mais valorizada. Mas esta consciência obtida em tempos de crise é uma coisa amarga, porque só raramente encontra os meios para ter consequências práticas e, quando a crise passa, é rapidamente esquecida.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

11 Responses

  1. Um tipo deixa de fazer umas cenas maradas e tal e pimbas… caiem logo em cima. Mas é bom! Para acordar. 🙂
    As minhas desculpas,
    pois eu comecei a trabalhar numa empresa e não posso divulgar o que faço em nome dela enquanto o trabalho não estiver aprovado e produzido. Para não colidirem publicamente dois logótipos diferentes por exemplo. Esta mecânica torna as coisas ligeiramente mais lentas na demonstração de trabalho. Mas não perdes pela demora, Ressabiator! 😉
    Todos os anos, ao décimo mês, a Fundação Calouste Gulbenkian convida sete artistas novos, sete críticos novos, uma comissária nova, e um designer novo, tudo novo, para fazerem uma exposição e uma publicação dedicada aos valores emergentes do panorâma criativo nacional. Adivinha quem vai poder mostrar trabalho… digamos… interessante… Tu vais ver! Abraço

  2. Lp diz:

    ….Mário, acreditas mesmo quando se trabalha e se recebe, a qualidade do trabalho desce?

  3. E este marasma não será também responsabilidade dos professores? Digo FBAUL, FBAUP, Restart, ESADs e afins? A culpa não é só dos estudantes, nem se pode só culpar a economia. Que é feito dos departamentos de design destas Universidades e Escolas? Onde anda o design anti-marasmo? Será que também os professores aderem ao marasmo, porque é mais confortável e se ninguém os chatear, ainda melhor, desde que recebam ao fim do mês? A política do não-me-façam-trabalhar também afecta, e muito, o design português.

    Na verdade temos visto mais artigos sobre design, ainda há muito pouco tempo. No Público, na Visão, no DN, entre outros, mas não é suficiente. De boas intenções está o país cheio.
    O que vale é que ainda resistem algumas boas tentativas e bom design: Drop, Andrew Howard e R2 no Porto e os estilosos do RMAC BBDO que nem design é. Mas fazem dinheiro e isso, em tempo de crise, é o que interesse. Pelo menos para o nosso Portugal, de queixosos e lamentações.

  4. Lp:

    Tal como dizia no texto, parece um paradoxo, mas uma coisa é seres pago para fazer aquilo que gostas, outra é seres pago para fazer quase aquilo que gostas.

    Em geral, o design que eu mais aprecio é independente e de pequena escala. Quando um destes designers arranja um emprego a tempo inteiro, deixa de poder fazer os projectos independentes.

    Era bom que os projectos independentes fossem pagos e não auto-financiados.

    César Amaral:

    Infelizmente, esta crise também atravessa o ensino. Na minha opinião, as reformas de Bolonha só vieram burocratizar o ensino superior, servindo apenas para poupar rapidamente dinheiro sem muito critério.

    Neste momento, a maioria do tempo de um professor é sugado para questões que pouco ou nada têm que ver com design. Com os cortes orçamentais no ensino, as escolas estão na mesma situação que os jovens designers: precisam desesperadamente de dinheiro e fazem qualquer tipo de trabalho para o conseguir, mesmo que a qualidade fique pelo caminho.

  5. Mas se depender de mim a crise de qualidade no design chegou para ficar. Cumprimentos. JAM

  6. “Tom tinha “descoberto, sem o saber, uma grande lei da acção humana – que para fazer um homem ou um rapaz cobiçar qualquer coisa, só é preciso tornar a coisa difícil de obter.”

  7. Nunca acreditei naquela coisa de um trabalho ter de funcionar por si só. É um mito.

    Por acaso não concordo. Pelo contrário. Nunca ouvi nenhum designer autor de grande parte do trabalho que gosto, falar sobre o trabalho. E para ser franco, não estou minimamente interessado. O trabalho funciona por si.

    Quando trabalhava a sério, ficava sempre muito desapontado quando tinha de “explicar” o resultado final. Começava logo a achar que a) ou é burro; b) ou não está a funcionar.

    E o “explicar” tornou-se numa verdadeira arte (se for com sotaque estrangeiro, melhor ainda). Trabalhei com muita gente e a maior parte das vezes a “explicação” que ouvia só me deixava a pensar que a) ou é burro; b) ou não está a funcionar.

    E mais: Imagina que fazes um livro para uma determinada editora e achas aquilo do melhor. Tens de “explicar” porque é do melhor, mas azar, não colou, porque a coisa até está minimalista (vulgo, tem pouco trabalho).
    Segunda versão, um verdadeiro “subprime”, com muitos “elementos gráficos” (vulgo trabalhoso). Tens de “explicar” porque a segunda versão — a má –, é boa. Mais vale estar calado. Até o design mau (ou menos bom, se preferires) funciona por si.

  8. Não é apenas o designer que fala sobre o trabalho, nem a conversa se esgota na relação entre designer e cliente. O melhor design é promovido e discutido. Há artigos e livros sobre o assunto; é o tema de aulas, e por aí adiante.

    Não é assim tão incomum ouvir bons designers a “explicar” o seu trabalho; basta ir a uma conferência ou uma aula de design. É claro que algumas “explicações” são mais interessantes e satisfatórias do que outras e isso também afecta a experiência que se tem do design.

  9. Não é apenas o designer que fala sobre o trabalho, nem a conversa se esgota na relação entre designer e cliente.

    Não, mas em última análise é essa conversa que vai definir se o design vai chegar a ser promovido, discutido e tema de aulas. Ninguém quer discutir o design que fica na gaveta. Por um lado.

    Quanto à explicação do próprio designer, como disse, não estou minimamente interessado. Mas não me custa nada admitir que tenha um interesse bestial. Numa nota à parte, fui a muitas aulas de design e a menos que te refiras aos alunos explicarem o seu trabalho, as coisas devem ter mudado muito — porque tirando o Andrew Howard (tiro-lhe o chapéu por isso) –, nem direito a uma apresentação do trabalho do professor houve alguma vez. Quanto mais explicações.

    O design explicador, tal como eu o vejo é um vendedor, a maior parte das vezes de muito má qualidade, onde o conflito entre alguma objectividade do design, a arte e até o esoterismo raramente está resolvido. Como disse, para mim a melhor situação, sempre, é o cliente olhar e existir a nítida sensação que gostou e o trabalho funcionou por si. Raramente isso acontecia no meu caso.

    Mas também há vendedores de boa qualidade (embora pessoalmente, lá está, questiono muitas vezes o valor do design) como o super-sobre-avaliado Sagmeister. Até consagrados como Khoi Vinn se espantam como é que ele consegue levar avante as suas ideias. E o artigo até é elogioso.

    Voltando ao início e ao marasmo, nota uma coisa — é verdade que muito do melhor trabalho sai antes de se arranjar um verdadeiro emprego. Mas isso implica uma certa idade e disposição para o risco, etc. Os factores que apontas são válidos, mas não deviam ser suficientes para tolher as sucessivas novas gerações de ter esse gosto por estar sempre a produzir a troco de nada. Se tu que és atento achas que o trabalho desapareceu, é porque os novos não estão a substituir os que vão ficando mais velhos e dependentes financeiramente de trabalho remunerado (que como sabes muitas vezes nem como designer é).

  10. Quanto às aulas, é claro que, na grande maioria dos casos, tens razão. Já comentei isso aqui várias vezes, mas realmente não há muita disposição dos designers portugueses para se exporem, nem à frente dos alunos, nem onde quer que seja. Também posso apontar algumas excepções, como o Jorge Silva, de que já falei aqui.

    Quanto ao marasmo, tens razão: se calhar acrescento que há uns anos um mau emprego, mal pago e pouco estimulante não ocupava a totalidade do tempo de um jovem design; que muitos dos designers mais novos se têm mudado para Lisboa, para trabalhar a tempo inteiro em agências (trabalho intenso e, em geral, chato); ou então emigraram, pura e simplesmente.

  11. Parece-me que mais que um problema de ausência, é um problema de falta de divulgação ou mesmo de comportamento anti-social/elitista de alguns designers portugueses.

    Estudei na FBAUL equipamento e sei que existiam muitos trabalhos interessantes para acompanhar dos meus colegas de comunicação, dos quais ia vendo uns relances dentro das salas e às vezes nas paredes… mas tirando isso, não tinha forma de ver os trabalhos dos meus próprios colegas.

    Não existem exposições físicas, não existem forums de discussão, não existe a preocupação de cada um ter o seu próprio portfolio online ou offline para qualquer mortal ver e apreciar.

    As pessoas ou não sabem como mostrar ou não querem mostrar por decisão própria. Até porque se lida mal com a crítica cá no nosso cantinho à beira mar plantado e se tem um medo, muitas vezes fundamentado do plágio e das cópias de estilo.

    Eu próprio lutei e continuo a lutar para que os meus colegas tenham o seu behance, o seu coroflot, ou mesmo se de web design perceberem o seu site. Mesmo um blogue chegaria, mas vejo-me sempre confrontado com uma resistência enorme a tornar o trabalho um bem público e não apenas exercícios para colocar em gavetas poeirentas.

    E sim, é difícil fazer bom design quando esse não paga o pão na mesa a 99% dos designers…

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