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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Livraria Ideal

Mais do que o cartaz, a capa de cd ou o site, a capa de livro é, neste momento, o formato da moda. Há pelo menos dois blogues sobre o assunto e tem sido rara a revista que não lhe tenha dedicado pelo menos um artigo nos últimos meses. Por sua vez, os designers de capas de livros gozam de um prestígio inédito dentro e fora do design, com Chip Kidd à cabeça, mas também David Pearson, Rodrigo Corral, Paul Sahre, Jonathan Gray, Helen Yentus, entre outros.

Mas apesar de toda a cobertura, é difícil evitar a sensação que o formato de alguma maneira estagnou. Enquanto os artigos, catálogos e exposições se vão multiplicando, as capas mostradas acabam por ser muito poucas. Existe já um cânone extremamente compacto e exclusivo, onde é pouco comum aparecerem livros de outros mercados que não o da língua inglesa e é raro ver capas de géneros menos respeitáveis, como a banda desenhada, os manuais técnicos ou os livros escolares, sobretudo se não foram feitas por designers de ficção já estabelecidos.

Neste âmbito, a exposição Gateways, mostrando capas de livros nacionais e internacionais, acaba por ser ao mesmo tempo oportuna e arriscada, mostrando trabalho da maioria dos designers que já pertencem ao cânone, mas conseguindo acrescentar-lhe algumas novidades. Tem, em relação às revistas e aos sites, a vantagem de mostrar os próprios livros, o que permite apreciar as suas qualidades tácteis – o tipo de papel, os cortantes e os batentes. Desta maneira, funciona como uma livraria ideal, onde cada livro foi seleccionado pelo seu design – o que é um pouco frustrante, tendo em conta que não se lhes pode mexer, quanto mais comprar.

Mais uma vez, Andrew Howard conseguiu fazer um bom trabalho no espaço reduzido e ingrato do Silo, duas salas altas e cilíndricas no interior do eixo central da rampa de acesso ao parque de estacionamento do NorteShopping (no dia da inauguração, os fumadores iam-se desviando casualmente dos carros que aceleravam em direcção ao telhado). De todas as exposições da série Idioms, esta é sem dúvida a melhor, a par talvez da primeira, sobre cartazes. As duas têm em comum terem sido feitas mais para designers do que para o grande público, o que lhes permitiu evitar a pedagogia excessiva das outras exposições da série, que apesar de muito bem montadas e organizadas, acabavam por saber a pouco.

A prova definitiva que o design feito para designers compensa é a mostra individual dedicada ao trabalho de David Pearson, responsável pelo design de um conjunto de séries – Great Ideas, Great Love, Great Journeys, entre outras – que serviria para reafirmar a Penguin como uma editora central na história dos livros bem desenhados. A colecção Great Ideas, em particular, junta textos e excertos de clássicos – grandes ideias – a pastiches de design clássico, aplicados de maneira mais engenhosa do que estritamente historicista. As justaposições entre texto e design são sempre distintas, por vezes historicamente óbvias – Henri van de Velde e Nietzche –, por vezes inesperadas – Romek Marber e George Orwell –, por vezes lúdicas – a lombada de “The Work of Art in the Age of Mechanical Reproduction” reproduzindo-se pela capa fora. Mesmo que não se conheça bem de onde vem o design destas capas, elas acabam por ressoar elegantemente com os textos que ilustram e com a própria história gráfica da Penguin, frequentemente citada ao longo da série.

As capas de Pearson, mostradas umas ao lado das outras, formam um padrão de padrões – coerente mas inventivo –, uma qualidade que surge também nas capas expostas de Helen Yentus para as obras de Albert Camus, nas de de Petra Börner para a Harper Collins , nas de Coralie Bickford-Smith para a Penguin e nas de João Bicker para a Fenda. Porém, se as capas tipográficas de Bicker, por exemplo, fazem um bom conjunto, este acaba por ser desperdiçado nas livrarias, onde os livros nunca aparecem juntos – seria talvez interessante negociar a possibilidade de um escaparate próprio para a colecção.

Bicker é uma excepção na mostra que, embora apresente uma boa selecção de obras portuguesas, são quase todas catálogos de exposições e até publicações de artistas (como o livro dos R2 para a Casa da Música), e não capas de livros de ficção. Esta ausência demonstra bem o triste estado do design editorial português, que só por acaso consegue produzir e manter um bom design – Jorge Silva resume bem a situação quando diz que não há editor português que não se farte de elogiar a Penguin, excepto quando se trata de lhe seguir o exemplo.

As séries são, no entanto, apenas uma pequena parte dos mais de quatrocentos livros expostos. Se é possível identificar tendências – “crianças infelizes, sapatos, silhuetas de aves, borboletas e, claro, tipos de letra toscamente desenhados à mão”, como ironiza Jonathan Gray no catálogo de Gateways –, ainda assim é difícil resumir a exposição. No texto de introdução, Andrew Howard arrisca cinco categorias um tanto ou quanto disjuntas: ilusões de óptica, sem palavras, só com palavras, tácteis e colecções – uma classificação tão eficaz como outra qualquer (seria igualmente possível agrupá-las numa lista menos formal que incluísse a citação, a apropriação, a nostalgia, e por aí adiante). No catálogo, acabou por se optar pela neutralidade da ordem alfabética de autores.

Na minha própria lista, ficam as capas recortadas de Sagmeister, a mão caligrafada de Jon Gray para Extremely Loud & Incredibly Close, o labirinto de Helen Yentus para Samedi the Deafness, a capa de Killing the Buddha de Paul Sahre – um dos meus designers favoritos de capas, infelizmente pouco representado – e as capas discretas e eficazes de jamie Keenan para a Routledge Classics. Desilusões, algumas – as capas de Juan Pablo Cambariere, por exemplo – que não chegam, nem de perto nem de longe, a afectar o bom nível geral da exposição.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Exposições, Publicações, , , , ,

8 Responses

  1. Hola,

    Quería saber por qué considerabas mis tapas una desilución. ¿Tenias una idea previa de las mismas y cuadno las viste en persona no te gustaron? No entiendo.

    ¡Gracias!
    Juan Pablo Cambariere

  2. não as considerei uma desilusão no sentido de as ter visto antes (embora já conhecesse algumas do livro Fully Booked), mas em relação ao resto da exposição.

    Mário Moura

  3. Ah, o sea que simplemente te parecieron malas, pero muy malas me imagino.
    La verdad es que siempre me siento muy honrado y desorientado al ver que me invitan a estas exposiciones y libros.
    En fully booked varias de mis tapas aparecen al lado de tapas de Jon Gray y David Drummond, dos de mis diseñadores favoritos, y realmente siento que no estoy a la altura, es un privilegio muy especial estar ahí.
    No suelo recibir muchas críticas negativas, por lo que si pudieras tomarte un ratito para contarme por qué te parecen tan malas te estaría muy agradecido. Si hay algo que yo pueda hacer desde acá para retribuirte el favor, por solo dilo. ¡Gracias!
    Puedes escribirme a info@rarosobjetos.com.ar
    Y ver mas material en http://www.flickr.com/photos/7801378@N06/
    (pero no de libros)

  4. Normalmente, não costumo apreciar as capas em trompe-l’oeil a não ser que a execução gráfica e tipográfica seja mesmo muito boa. No caso da capa de “el oro de moscu”, a execução e arranjo das letras acaba por dar um ar artificial à capa, contradizendo o efeito da corda, das texturas e do resto.

    A ideia da capa e a execução tipográfica de “Historia de uma traición argentina” é relativamente banal. A mesma coisa quanto à capa de “tres genias en la magnolia”. A execução tipográfica do texto contornando os olhos da boneca nas costas do livro é forçada.

    Nas capas dos livros de Graham Greene, a sobreposição do rectângulo de texto às texturas das fotografias não me parece que funcione muito bem, em parte pela cor escolhida, em parte, porque o logótipo da editora é muito fraco e tem uma presença demasiado grande.

    As minhas favoritas são as capas de “Vida de Vivos” e “El Misterio del coraje”, pela composição tipográfica.

    Agradecendo os links,

    Mário Moura

  5. Si, realmente tus observaciones son impecables, comparto y hacepto las críticas, y te agradesco sinceramente que te hayas tomado la molestia de hacerlas.

    Una sola observación, que me parece que puede enriquecer este interesante intercambio. Estas analizando mi trabajo como si yo los hubiera hecho para el mercado europeo, y yo no hice estas tapas para ese mercado y esos lectores.

    Yo, obviamente, hice estas tapas para Sudamerica (Argentina, mas precisamente). Las necesidades, variables, códigos y principalmente la competencia de los lectores sudamericanos no es la misma que la de los europeos.
    Creo, modestamente, que puede ser por eso que todos los diseñadores de Gateways que te gustan son europeos (o de paises “centrales”), y el único que te disgustó es sudamericano. Es interesante a veces tener en cuanta el contexto para sacar ciertas conclusiones.

    Si pasaras una temporada en Buenos Aires o trabajaras 15 días en una editorial Argentina verías las cosas de otra manera.

    Por ejemplo, yo diseño muchos discos para Soundbrush Records, una discográfica de New York. La forma de trabajar para ellos y el resultado son totalmente distintos, te invito a verlos aquí:
    http://www.rarosobjetos.com.ar/diseno/discos11.html

    ¡Gracias de nuevo!

  6. Infelizmente, as condições da edição de livros aqui em Portugal não são muito diferentes das que descreves. Por isso (e como já tinha dito no texto), o nível do design editorial também não é por aqui muito famoso. Há excepções, mas são poucas.

  7. pedromarquesdg diz:

    É interessante que tenha feito uma analogia desta exposição com uma livraria. De facto, as livrarias deveriam começar a assumir-se como agentes estéticos, e partilhar os seus espaços “arrendados” à exposição massiva dos best-sellers (de que vivem em grande parte) com outros espaços de “escolha do livreiro”, nos quais mostrassem livros de uma forma mais afastada das pressões de venda. Por exemplo, uma livraria com 3 mostras, poderia dedicar uma a esse tipo de exposição mais “gráfica”, cujo apelo acabaria por reverter, no fim de contas, para a casa. No presente estado de coisas, chega a ser doloroso entrar numa livraria: se sobrevivemos à montra, a primeira estante virada para a entrada é o golpe de misercórdia. Diga-se, já agora, o mesmo dos alfarrabistas: reparei na Feira do Livro de Lisboa o bem que ficam as capas da Sá da Costa dos anos 70 do Sebastião Rodrigues expostas e alinhadas, sedução visual que raramente (ou nunca) vejo aplicada num alfarrabista (há excepções, claro).

    Pedro Marques

  8. […] Norte Shopping foi tão surpreendente como agradável. Descrito por Mário M. num post intitulado A Livraria Ideal, também não posso deixar de fazer a comparação do espaço do Silo a uma gigante e espectacular […]

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