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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Cadernos

Não se trata dos cadernos genéricos que se pode comprar em qualquer papelaria, mas dos cadernos que um designer faz para oferecer aos seus amigos ou clientes, por auto-promoção ou por gosto. Às vezes, são coisas simples, só a capa, o formato ou a cor do papel são “design”, outras vezes, são mais preenchidos, com temas e jogos como um almanaque, datas e utilidades como uma agenda. Alguns chegam a ser experimentais, quase livros de artista, como um caderno pautado com as linhas deformadas vectorialmente que vi na secção de livros experimentais de Fully Booked.

Começam por ser um passatempo mas podem transformar-se num negócio e o designer torna-se num designer de cadernos, como o atelier Serrote, por exemplo. Para o seu próprio uso, muitos designers acabam por preferir estes cadernos de marca, em particular os Moleskine (poderíamos chamar-lhes cadernos-design). São objectos curiosos na medida em que têm literalmente um pedigree. São cadernos reeditados, fac-similados, versões de cadernos usados por escritores, artistas ou arquitectos famosos. Vêm com um pequeno certificado de autenticidade que diz ser aquele o caderno usado por Bruce Chatwin e Hemingway, no caso dos Moleskine, ou por Le Corbusier, no caso de um pequeno caderno catalão que me ofereceram há uns anos.

Mas, na maioria das vezes, o caderno funciona apenas como um cartão de visita, uma dádiva um tanto ou quanto irónica, porque se um caderno é realmente bem feito, acaba por ser quase um livro e deixa de ser confortável escrever sobre ele. É uma falta de respeito tão grande usá-lo como seria escrever sobre um livro bem desenhado.

E de facto o caderno, quando é feito por um designer, acaba por ser mais um livro do que um caderno. No fundo, é um livro que é só capa, que só tem parte de fora – um objecto sem interior, uma forma sem conteúdo. São uma espécie de livro onde tudo é forma com o mínimo de conteúdo possível – um livro cujo único conteúdo é a forma do livro. O caderno mostra bem a maneira como os designers são treinados para pensar em tudo como uma relação entre uma forma e um conteúdo.

É irónico portanto – mas ainda assim adequado – que a sua intenção seja oferecê-lo a um cliente. À primeira vista, parece aquilo que um designer normalmente faria, mas trata-se na realidade de uma inversão subtil – no caderno, é o designer que inicia o trabalho pelo lado das formas e não o cliente pelo lado dos conteúdos, como seria habitual. Desta maneira, o caderno é um dos locais onde o designer começa a ser um autor – por pouco conteúdo que o caderno tenha, ainda assim é o designer a decidi-lo. Ir do caderno à revista ou ao catálogo é só um pequeno passo, e poderíamos imaginar uma linha contínua entre o caderno de design, numa das extremidades, e a monografia de design, na outra.

Filed under: Autoria, Cliente, Crítica, Cultura, Design, Publicações, Uncategorized, , ,

2 Responses

  1. “Monografias de design”??? Bloquinhos de passerelle, adequados a uma feira de modas. Pode ser erro meu de agora mas ainda não aprecio essa faceta do design.
    Partindo do princípio de que o trabalho do designer é apenas dar forma ao conteúdo do outro, este texto parece-me enquadrar bem estes objetos nas trocas efectuadas numa relação designer/amigo-do-designer/cliente. Parece-me no entanto que se deixa aqui escapar toda uma série de novas atitudes que um designer de comunicação pode tomar no decorrer de um processo criativo. Adicionar conteúdos, tomar posições sobre um produto, assumir e desenhar uma coisa de acordo com princípios próprios, definir a mensagem… estas já são tarefas que podem pertencer ao domínio dum criativo mais completo. Para um desses um caderno de curiosidades desenhado segundo os cânones da época em que é feito não passa disso mesmo. Pior que isso, pode ser apenas uma nota de troca com valor subjectivado pela (des)resposabilização que um designer faz sobre o conteúdo. E sem ovos não se fazem omoletes.
    Cumprimentos.
    JAM

  2. welisson diz:

    eu sei como pode ser a capa

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