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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Chilrear Alegre dos Designers

Não há fome que não dê em fartura. Se há uns anos não havia muitas revistas de design, agora até é preciso escolher. O dinheiro não chega para todas e elas continuam caras – a única característica de uma revista de design que nunca chega realmente a mudar.

Há revistas para todos os gostos: teóricas e volumosas como a Eye, Print ou Étapes, generalistas como a Icon ou Creative Review, e objectos mais experimentais como a Dot Dot Dot. A variedade dos assuntos cobertos é grande, e o tom também, indo desde o bitaite ligeiro até ao artigo ou entrevista de fundo.

Neste momento, continuo a preferir a Eye, que tem bons artigos de nível académico, bem como uma secção de crítica muito estimulante e aguerrida, mas a Print também tem subido na minha consideração. Dantes considerava-a uma revista pragmática, embora pouco profunda. Associava-a a extensos portfolios organizados por tema – cartaz, brochura, identidade – de forma a “inspirarem” o seu público com mais facilidade. Tal como a velha Graphis, a Print era a Vogue ou Marie Claire dos designers: dizia-lhes o que vestir, que fonte usar, que esquema de paginação era considerado de bom tom, sugerindo também, com discrição, quais eram os “nomes” a ter em conta – possíveis Paul Rands, Milton Glasers ou David Carsons.

Actualmente, o estilo mudou e tornou-se mais articulado, mais verbal. Já não basta dispor as imagens pelas páginas; é preciso construir uma narrativa em torno delas, criticando-as, usando-as como exemplo, fazendo delas um caso geral – há uns tempos, por exemplo, já não me lembro em que revista, vi um artigo com um nome ambicioso como “A Ascensão do Branding Religioso”, embora o artigo fosse apenas um comentário curto a uma campanha publicitária feita para uma igreja. Por aqui se vê que o tom teórico e critico que privilegia os grandes temas, a política ou a ética também ganhou os seus chavões e as suas distorções.

Em Portugal, pelo contrário, a escolha continua a ser pouca. Tanto quanto me lembro, existem a Blue Design, a Attitude, e ainda alguma cobertura em revistas sobre temas urbanos, alternativos ou de marketing. No entanto, se já não é mau haver uma ou duas revistas, ainda assim é possível queixarmo-nos da uniformidade do tom do jornalismo sobre design em Portugal.

O design é tratado aqui sobretudo como uma forma de consumo. Os textos tendem a apresentá-lo como uma coisa gira, criativa e urbana, feita por designers jovens e talentosos. Por vezes dá a sensação que, tal como os cadernos-design, os bonecos de character design, os sites, as cadeiras ou as fontes, se pode também comprar uma cópia daqueles jovens designers numa loja de artesanato urbano qualquer. E, se não for esse o estilo pretendido, é sempre possível escolher um dos velhos designers que, tal como os jovens, são remetidos para um estatuto coleccionável, acrítico e essencialmente decorativo: os Sebastiãos Rodrigues, Cassianos Brancos, Vítor Pallas, etc. Não é uma grande escolha: entre o novo e o vintage.

Este tom chilreante e entusiasmado acaba por ser o único permitido ao design nos media portugueses – sempre que trabalhei com a chamada grande imprensa alguém me lembrou que era preciso tratar o texto de forma a que fosse lido por pessoas que não entendem nada de design e que devia enfatizar o lado novo, urbano, alternativo da coisa. Por tudo isto, a sofisticação embasbacada acaba por ser o tom de voz público do design, tão característico como o dialecto arrogante dos dirigentes desportivos ou o tom paternalista dos ministros. Para uma actividade em que toda a gente rezinga em surdina, é irónico que quando se trata de falar em público, o design resvale para um discurso decorativo e eternamente inaugural digno de um Presidente de Junta de Freguesia.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações

3 Responses

  1. Ácido.

    Gostei, sim senhor.

    Ou ainda não foste de férias, ou acabaste de regressar delas…

    🙂

  2. pedamado diz:

    Realmente é como afirmas: “o dinheiro não chega para todas”. Curiosamente, as edições apontadas são todas um pouco generalistas. Mesmo num campo mais técnico ou específico, revistas como a Computer Arts, Advanced Photoshop, ou a Mac World vendem-se “aos pontapés”, e entram lentamente no mercado nacional de uma forma “diluída”. Basta olhar para a iCreate – o “tom chilreante” também se ouve por estas bandas…

    Mas não é este assunto que me traz aos comentários.

    Aproveitando a deixa do conhecimento especializado, quero referir a revista Baseline, incontornável na cena tipográfica internacional. Esta tem sido das poucas revistas que mantém a qualidade e especificidade ao longo do tempo. No entanto, se uma revista como a Print não encontra lugar digno no panorama da escrita nacional…

    O que me traz finalmente ao assunto deste comentário. As edições digitais. São mais rápidas, menos dispendiosas e beneficiam do feedback dos seus leitores podendo ainda potenciar as suas comunidades. A Eye percebeu finalmente isto e lançou o seu Blog no próprio site. O que fará uma revista (meio tradicional de divulgação) tomar esta decisão? [estou a ser irónico…]

    Em território luso, também observamos o meio digital crescer em qualidade e quantidade de edições digitais:

    – Paulo Heitlinger encontrou um veiculo de publicação específico sobre design e tipografia nos seus cadernos.

    – O Reactor e o este blog também encontram lentamente a sua voz e o seu público.

    – O Type for You (de autores nacionais) tem sido referenciado várias vezes na web.

    – …

    Será que a falta de especificidade das revistas se prende com uma crescente falta de apetência, ou mesmo um desencanto dos seus públicos para um formato pouco específico, desadequado ou dispendioso? [numa tentativa de chegar a mais gente para manter as vendas por parte dos editores]

    Será que o meio de impressão está fadado a ser o veiculo do conhecimento generalizado em detrimento do meio digital para o conhecimento específico?

    Será o fim da impressão? É claro que não. A verdade é que os editores mais inteligentes estão a apostar num formato híbrido de edição, on-line como complemento da edição impressa. Interessante vai ser ver o movimento contrário.

    Enfim,…diz-me o que lês e dir-te-ei quem és…

  3. Respondendo do fim para o princípio, acho que as revistas a nível internacional estão num bom momento, tendo encontrado um bom equilíbrio com a Web (não referi blogs ou revistas em formato electrónico nem internacionais nem portugueses porque o texto é mesmo só sobre revistas em formato impresso).

    Quando falei de generalistas, falava de revistas que se dedicavam ao design gráfico, de equipamento, um pouco de arquitectura, como a Icon ou a ID. Mas a lista que está no post não é exaustiva, apenas exemplos, podia ainda pôr a Step, a CMIK, a Graphik, a How, a Typographic.

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