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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Coisas com Piada

A minha carreira profissional começou na Banda Desenhada. Foi aí que fiz os meus primeiros trabalhos pagos, o que pode parecer estranho num país como Portugal, onde muitas coisas – como a BD, as artes em geral e, claro, o Design – não costumam ser pagas pelo simples facto de não se parecerem com coisas que costumam ser pagas.

Mas, felizmente, as pessoas que lidavam directamente com BD – editores, autores, críticos – tinham uma boa noção do trabalho que aquilo dava a fazer. Sempre que possível pagavam, por pouco que fosse.

Graças à BD, aprendi bastantes mais coisas sobre design gráfico que as ensinadas na escola. Vi os meus trabalhos impressos em revistas e jornais. Paginei, fiz lettering, escrevi críticas. Quando havia salões de BD, conheci outros autores. Lembro-me de ter conhecido Seth, um dos meus autores favoritos, quando ele ainda era um jovem desenhador a sonhar com a New Yorker. Agora, é comum ver os seus desenhos nessa revista.

Descobri também que os cuidados gráficos usados para imprimir uma BD eram bem mais exigentes que os usados para imprimir uma monografia de design, e isso era bem visível nas publicações sumptuosas de Chris Ware ou em praticamente tudo o que saía na editora canadiana Drawn & Quarterly – conheci o editor, Chris Oliveros, um tipo baixinho com uma camisa havaiana, num dos salões.

No entanto, também havia coisas menos boas na BD. De vez em quando, tinha uma daquelas conversas – que comecei a considerar inevitáveis – em que alguém me pedia para desenhar umas “coisas com piada”, umas “bonecadas”, para um projecto qualquer, em geral por pouco ou nenhum dinheiro (esses trabalhos eram apresentados como um favor que nos faziam, nunca o oposto). Lembro-me de um dia alguém me ter apresentado como o “tipo dos patinhas”.

Entretanto, fui começando a fazer design e fui aprendendo que também se esperava que os jovens designers trabalhassem mais por gosto que por dinheiro e, de vez em quando, lá aparecia alguém a pedir mais umas “coisas com piada”. A condescendência incomodava-me mais que o dinheiro, mas sempre tentei não levar aquilo a mal, atribuindo a situação mais à ignorância que à chico-esperteza. Fazia parte da quantidade de situações que me levaram, com o tempo, a começar a escrever sobre design.

Agora, embora a minha actividade principal sejam as aulas, considero a crítica de design como uma profissão. Sou regularmente pago para a exercer, e já o fiz para jornais, revistas e livros, quer em Portugal, quer no estrangeiro. Entretanto, também já me habituei a que, de vez em quando, me apareça alguém, em geral um designer, que me pede para escrever “umas coisas com piada” para um projecto qualquer. Mais uma vez não levo a mal mas, ainda assim, esperava que pelo menos os designers tivessem tanta consideração pelo trabalho alheio como aquela que reivindicam para o seu próprio.

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Filed under: Ética, Banda Desenhada, Crítica, Cultura, Design, Ensino, Publicações

14 Responses

  1. Tem piada não ler um único comentário aqui. Só deve querer dizer que a maior parte dos teus leitores são designers que não sabem escrever lá muito bem… Continua o bom trabalho por aqui. Abraço.

  2. diogo diz:

    @João: É capaz de querer dizer que o artigo foi publicado pouco tempo antes de ter feito esse comentário infeliz.

    Quanto ao resto… tens razão Mário.

  3. luis diz:

    Já foi há quase quase 13 anos que o Chris Oliveros veio ao Porto com o Seth, o Joe Matt, a Julie Doucet e uma boa parte da companhia. Lembro-me que foi nesse salão que comprei o Optic Nerve #1 e a compilação 32 Stories do Adrian Tomine, o Yummy Fur #31 e o The Playboy do Chester Brown – ainda guardo este último autografado pelo autor. Para mim, foi uma grande perda o desaparecimento do salão do Porto mas também compreendo a enorme aflição que deveria ser para preparar aquela semana.
    O teu texto fez-me revisitar outros tempos, mas é certo que o propósito não era bem esse. Ainda assim, também ao ver a reprodução do teu quadradinho, ali em cima, lembro-me que já na altura, ainda sem te conhecer, quando acabava de ler uma das tuas bandas desenhadas pensava – este tipo tem piada – e o mesmo acontece quase sempre ao acabar de ler um dos teus textos e, em nenhum dos casos é por condescendência ou falta de respeito pelo teu trabalho, mas porque acho que consegues encontrar quase sempre uma boa dosagem de humor para quase tudo em que te metes. Conduzir uma aula com uma narrativa inteligente e bem humorada ou escrever um ensaio crítico com clareza e pertinência sem descurar o sentido de humor, não me parece que sejam tarefas assim tão fáceis para se fazer com a frequência com que o consegues, por isso espero bem que continues por aí a fazer uma coisas com piada.
    Abraço

  4. Tiago C diz:

    O Designer continua a ser visto como alguém que dá um aspecto engraçado, moderno, diferente, arrojado, entre outros, ás coisas. Não quer dizer que não o seja! Mas obviamente que é muito mais do que isso.

    Agora… se a imagem do Designer é esta, então isto acontece porque é esta a imagem que se “alimenta” no “espaço público”, que é comunicada. Quando falo em “espaço público” não estou a falar neste blog e nestes comentários ou em qualquer conversa entre Designers. Estou-me a referir mais concretamente ao espaço habitado por Designer, Cliente e Público-alvo. Será que muitos Designers não alimentam uma imagem da sua actividade como algo restrito, elitista, em que ninguém percebe muito bem como as coisas são feitas…? Não pensem só em nós, pensem em todos os Designers que aí andam por esse mercado. E quando digo todos, também incluo aqueles que fazem orçamentos de 50€ para logotipos ou 400€ para websites.

    Muitas vezes fui e sou solicitado para dar o tal aspecto engraçado ou fazer algo com piada. No entanto, não procuro imediatamente mudar esta ideia relativamente ao nosso trabalho. O que procuro fazer é integrar o cliente no processo de trabalho e, por vezes, colocar-lhe as mesmas questões que coloco a mim próprio ao desenvolver algo. É interessante ver que muito rapidamente o Designer deixa de ser aquele que dá um aspecto engraçado ás coisas.

    Em webdesign isto é “escandaloso”. “Quero um site moderno… e tem que ser melhor que este aqui da concorrência!”. Desde o início que querem ver como vai ser a interface gráfica, o “look and feel”… e eu digo: “Sim, sim… vamos já chegar lá! Mas primeiro vamos lá estabelecer aqui qual o objectivo deste site e o respectivo público-alvo”. Depois apareço com Personas e respectivos Cenários e eles (clientes) começam a perceber que as coisas são mais complexas do que aquilo que estavam à espera e que fazer um levantamento de requisitos e funcionalidades pode ser bastante complexo tendo em conta as necessidades dos seus públicos-alvo. Segue-se toda a Arquitectura de Informação e só depois aparecem os primeiros protótipos de interface. Quando chegamos aqui, já foram debatidos muitos problemas relacionados com estrutura e navegação (fluxograma e plantas ou Storyboards).

    Pessoalmente, gosto que o cliente seja uma parte activa no processo. O sentimento de que ele faz parte, de que aquilo que está a ser desenvolvido lhe pertence, é muito maior e acaba por ser encarado com outra seriedade.

    Isto leva-me a uma outra questão já bastante discutida, mas sempre interessante… a autoria. Seguindo um processo de trabalho em que o cliente é parte activa em todo o percurso, como fica a questão da autoria…?

    ups… desculpem o tamanho do comentário.

    Abraços!

    ps: se calhar, ás vezes, mais vale fazer um logotipo de borla em vez de cobrar 50€…

  5. […] texto foi colocado como comentário ao post “Coisas com piada”, de Mário Moura, no Resabiator. comment feed | 0 comments September 6, 2008 […]

  6. anacnunes diz:

    Eu ainda sou uma amadora no mundo da BD mas já passei por isso. Já me pediram para desenhar esta ou aquela personagens desta ou aquela BD ou qualquer coisa com graça. É um pouco irritante mas prontos, a ignorância colectiva tem destas coisas.

  7. Diogo. Aquele comentário foi um pouco precipitado admito mas era uma suposto ser uma coisa com piada.
    Quanto ao que disse o Tiago C. ficou-me um pormenor na cabeça: 500 euros por um website que demore 62 horas a ser desenhado pode ser justo. Depende muito dos sites. 68horas = 8horas/dia x 8,5 dias. Se trabalhares 8 horas por dia num site em pouco mais de uma semana tens o site pronto. Isso dá-te um ordenado de cerca de 1400 euros por mês. O que nem é muito mau. Claro que podes querer receber mais e se tiveres experiência e boas qualidades tens todo o direito de o fazer. Mas 400euros por um website não muito complexo não é como pedir dez contitos euros por um logotipo. Penso.

  8. …que fique claro claro … falo apenas do desenho da comunicação e do interface. Se a isso somares o trabalho de programador é óbvio que sobes o orçamento.

  9. Pedro Gonçalves diz:

    Joao,

    Parece-me demasiado reductor e simplista pensar um orçamento de um website apenas pelas horas de trabalho gastas pelo designer. Além de como acrescentaste, e bem, que existe neste caso o trabalho indissociável do programador (esse sim cobra ao metro ou às linhas de código), há que pensar no valor que o website representa para o cliente, no interface público que representará para os seus clientes. Hoje em dia um website bem realizado é tao importante como a respectiva identidade da empresa, já que é a principal via de comunicaçao da instituiçao com o seu público.

    Desvalorizar este aspecto cabe aos clientes “chico-espertos”, nao a alguém que quer prestar um bom serviço, e como tal, quer ser bem pago por ele.

  10. Sim. Estive a pensar melhor e têm razão.
    Cumprimentos.
    JAM

  11. Tiago C diz:

    Os orçamentos em webdesign são algo muito complicado. O site pode sem uma coisa muito simples e, de um momento para o outro, ser uma coisa extremamente complexa. Quando falo em 400 euros, refiro-me a sites simples (+/- 5 páginas) e é um valor dado pelo todo. Ou seja, desde a definição dos requisitos, análise de público-alvo, fluxograma, plantas, passando pelos protótipos de interface, implementação e acabando nos testes de usabilidade.

    Claro que quem dá um orçamento destes não vai fazer todas estas coisas, muito menos produzir toda esta documentação. Mas é precisamente por isso que depois aparecem sites que não são úteis, não são fáceis de utilizar e proporcionam experiências pouco agradáveis/significativas ao utilizador.
    Pessoalmente penso que fazer webdesign é passar por todas estas fazes (e outras que não foram aqui mencionadas). E todo este trabalho não pode ser orçamentado por 400 euros, por muito simples que o site seja.

    Antigamente, muitos webdesigners orçamentavam tendo em conta uma série de aspectos. Entre eles, o número de páginas. Neste momento já nem isto se pode fazer. Um site pode ter uma única página, no entanto, por exemplo, essa página pode ser extremamente complexa ao nível das suas funcionalidades.

    Muitos clientes já perceberam que não interessa ter um site só com uma interface “bonita”, “com piada”. Interessa-lhes a introdução de conteúdos através de um backoffice, interessa-lhes estar em contacto com o seu público-alvo através de newsletters, interessa-lhes publicar noticias na página principal, rss dessas noticias, comentários nos seus produtos, registo de utilizadores, etc., etc., etc…

    João Alves Marrucho, percebo o que queres dizer. Se realmente o webdesign for visto nessa perspectiva… Mas o processo de desenhar um site é muito mais do que isso. E os orçamentos de webdesign devem ser bem detalhados e nunca “Quer um site? 400 euros!”. Daqui não vai sair boa coisa e, muito provavelmente, vai acabar por sair mais caro para o cliente porque depois vai acabar por ter que pagar a outro webdesigner para redesenhar esse mesmo site.

  12. diogo diz:

    Completamente off-topic:

    Recebi muitas palavras de apreço por ter feito um reparo chatinho a um comentário do João Marrucho. Não conheço o João Marrucho e por isso fiquei bastante surpreendido (o Mário já o referiu no ressabiator mais do que uma vez mas não estabeleci ligação. Para além disso, no comentário dele, o link para a página pessoal não está a funcionar).

    Fiquei contente por o meu pequeno comentário ter feito tanta gente feliz, mas continuo sem entender muito bem porquê… são as desvantagens de não se estar por dentro do “meio” à tanto tempo.

  13. […] texto foi colocado como comentário ao post “Coisas com piada”, no Ressabiator, de Mário Moura. comment feed | 0 comments September 21, 2008 […]

  14. Realmente tenho que concordar com o artigo. É pena é não saber escrever “umas coisas com piada”, pois não tenho jeito para isso, mas o que mais temos para ai são chico-espertos a espera que de um “ingénuo” para lhe fazer o jeitinho.

    parabéns Mário

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