The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Pedra de Toque


A propósito do design de instituições culturais e da gestão das suas imagens gráficas, acaba-se quase sempre por falar nos cartazes, que se tornam assim o símbolo gráfico mais visível da cultura; logo a seguir vêm os catálogos e, por vezes, mais raramente, as revistas institucionais. Mas quando se trata de avaliar a qualidade do design de uma instituição ou de um evento, prefiro dar uma olhadela à sua programação.

É, para mim, o objecto ideal para avaliar a versatilidade da imagem gráfica de uma instituição cultural, mas também a capacidade de um designer para a gerir. Envolve uma grande quantidade de informação – datas, horários, fichas técnicas, textos de apresentação, imagens, etc. – concentrada num formato mínimo, que pode ir desde apenas uma folha impressa de um dos lados (um cartão de visita ou um flyer), a uma pequena brochura ou mesmo livro.

A programação é um formato informativo, funcional e, em geral, discreto. Não costuma sobreviver bem a demasiada “criatividade” – embora haja bons exemplos do contrário, como este cartaz com a programação mensal que pode ser recortado em quatro flyers com a programação semanal (de que já falámos aqui). Talvez por isso, não costuma ser muito coberto pela crítica e pela história do design, nem é um formato que interesse aos coleccionadores ou ao público em geral. Costuma ser distribuído gratuitamente, assume-se que é descartável, e é raro ser distribuído fora do sítio onde se destina – é um formato efémero e local por excelência.

Os três exemplos que dou a seguir são todos do Porto e demonstram bem os problemas específicos da programação e de como ela acaba por ser a pedra de toque da imagem gráfica de uma instituição cultural.

O primeiro exemplo, a programação de Serralves, é uma revista pequena, de páginas agrafadas. A capa é discreta, usando a paleta de cores reduzida e a fonte Interstate que, só por si, resume a imagem gráfica do Museu. A abreviatura dos meses tem a vantagem de não ser de leitura imediata, o que permite que a capa seja percebida, antes de mais, como um arranjo tipográfico quase abstracto – caracteres e não palavras. Porém, a mancha acaba por ser ingrata e demasiado uniforme, indecisa entre o alinhamento à direita e um arranjo em bloco, com o “2008” a fugir.

O interior do livrinho é, apesar de tudo, pior. Dá a sensação que a informação foi comprimida à pressão na área central da página, talvez para criar uma quantidade respeitável de “whitespace” – uso aqui a expressão no seu sentido mais pretensioso –, da mesma maneira que uma tripa enfarinhada composta quase ao meio de um prato branco e rabiscada por um fio de ketchup pode até parecer, para quem não se importa muito, um prato de Nouvelle Cuisine. O problema é que quando se mete a coisa na boca, é apenas tripa enfarinhada com ketchup – espaço branco e fonte sem serifas não chegam, por si sós, para fazer o Estilo Suíço. Os patrocínios salpicados sem muito critério pelas margens também não ajudam e o efeito geral é atravancado e sem ritmo.

Quanto ao uso da cor para marcar a diferença entre o texto inglês e português, acaba por ser apenas um efeito que, na melhor das hipóteses, não atrapalha a leitura. Há uns anos, houve uma moda de alinhar o texto em bloco, substituindo os parágrafos por alternâncias de cor, conseguindo assim um rectângulo compacto de texto. Na programação de Serralves, tenta-se uma coisa semelhante, embora com alinhamento à esquerda, e isso faz com que a alternância de cores não seja mais do que um vago degradé vertical, sem efeitos particularmente estéticos ou práticos – ketchup?

A programação da Casa da Música, da autoria da Rmac/BBDO, é melhor conseguida que a de Serralves. Está dividida por várias publicações– Remix Ensemble, Casa da Música, Orquestra Nacional do Porto –, e isso permite uma gestão mais generosa do espaço, com partes dedicadas a textos de introdução e outras dedicadas à programação propriamente dita. A capa, e sobretudo o seu acabamento lustroso, joga bem com as imagens 3D sobre fundo negro da identidade de Sagmeister, parecendo mais um ecrã do que uma página. Porém, a tipografia, remetida para cantos opostos da capa – excepto na programação da Orquestra Nacional do Porto –, podia facilmente ser mais afirmativa sem sacrificar a discrição.

No interior, as imagens escuras e quase monocromáticas – sobretudo na programação do Remix Ensemble e da Orquestra Nacional do Porto – dão bem a ideia de um concerto ou de uma saída à noite. Contudo, as grelhas tipográficas podiam ser mais coerentes – às vezes, são usadas duas colunas de largura igual para o texto e, logo acima, duas colunas assimétricas para a imagem e a sua legenda, sem que se perceba bem porquê. O equilíbrio entre a mancha tipográfica e o espaço negativo fica assim demasiado solto, prejudicando o ritmo da composição. O uso ocasional de texto vertical e até diagonal poderia ser evitado, bem como a mistura entre a fonte mono-espaçada e uma fonte “clássica”, que provavelmente foi escolhida para dar um ar “clássico” à parte da música clássica.

O último exemplo é o meu favorito do trio, a programação dos Gráficos do Futuro para a Culturgest. A versão que apresento aqui já é antiga, de 2005, mas é um bom exemplo de gestão de informação, sem floreados óbvios, mas com bons detalhes gráficos quanto baste. Tal como na de Serralves, a capa é também lida à primeira vista como tipografia – cores e caracteres –, mas aqui o arranjo é mais decidido. No interior, parece apresentar mais informação que as de Serralves e da Casa da Música, mas consegue fazê-lo de uma maneira que destaca e cuida bem da tipografia. Consegue ser airosa sem dar a sensação de desperdiçar espaço – como a de Serralves – ou de que este espaço poderia, ainda assim, estar melhor gerido – como a da Casa da Música.

Uma das dificuldades de escrever sobre programações é que, mesmo guardando compulsivamente todo o design digno de nota que me passa pelas mãos, ainda assim há coisas que escapam. Gostaria de ter escrito também sobre a imagem e a programação dos M/M Paris para a Fundação Ellipse que, na altura me desiludiu, mas não consigo encontrar o único exemplar que tenho – tinha? – cá por casa. Também gostaria de ter à mão uma programação do festival de Curtas de Vila do Conde, feita já faz uns anos pelos Rev – tanto quanto me lembro tinha uma capa com um soldado de plástico com uma guitarra impressa em overprint por cima da espingarda. As hierarquias tipográficas eram muito soltas, com um conjunto muito variado de fontes mas, inesperadamente, a coisa funcionava.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações, ,

4 Responses

  1. Booklets e programações são daqueles objectos que acabo por recolher e coleccionar compulsivamente, numa vaga tentativa de criar um arquivo de inspiração e referências que acabo sempre por ignorar e/ou esquecer numa caixa qualquer num canto qualquer.

    O artigo, confesso, renovou uma vontade de percorrer por essas mesmas caixas e olhar de uma outra forma para esses mesmos objectos, revê-los, possivelmente sob um olhar mais cuidadoso.

    Ou então, foi a inspirada comparação entre “tripa enfarinhada” e “white space”.

  2. Pedro Gonçalves diz:

    É miragem ou há uma viuva na página esquerda da programaçao de serralves?
    Sacrilégio!!!

  3. Pedro Gonçalves diz:

    Só para acrescentar:
    O design de programaçoes culturais será das peças gráficas que mais gozo podem oferecer ao seu autor, caso a este (como é o meu caso) lhe agradem as tarefas de categorizaçao e hierarquierizaçao do texto. Estou de acordo em que o emprego de criatividade excessiva pode actuar como ruido e até dificultar em demasia tanto uma boa obtençao de uma boa composiçao como uma boa leitura.
    Contudo, como bem exemplificas com o cartaz do Passos Manuel, a boa utilizaçao do texto e uma composiçao formal e cromática é normalmente premiada.
    Já agora e para complementar o meu ultimo comentário, a caixinha nos estilos de parágrafo do InDesign que diz “balance ragged lines” poderia ter sido muito útil ao senhor/a que maquetou a programaçao de serralves…

    Abraços

  4. Os dois últimos comentários foram retirados pela administração do blogue. O primeiro a pedido do seu autor e o segundo, porque sendo uma réplica ao primeiro, deixa assim de fazer sentido.

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