The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Bons e Baratos

Um bom exercício para descobrir o litro de leite mais caro do super é ir atrás dos pacotes mais brancos; depois, dos que têm fontes com serifas e, se quisermos o nosso Nestum com leite de primeira, levamos aquele com a forma mais exótica, mais sobre o comprido. Se, pelo contrário, quisermos leite barato, basta usar os critérios que usaríamos para escolher um bom cartaz de circo – muita cor e muitas fontes. Os sinais manifestos de design são, em geral, os mesmos de uma etiqueta de preço bem preenchida.

Curiosamente, com os livros portugueses o processo é o mesmo. Enquanto para comprar um livro barato em França ou em Inglaterra, o remédio é ir atrás dos tais sinais exteriores de design, indo muito provavelmente parar a uma boa edição da Penguin, da Vintage ou da Gallimard, em Portugal os livros ainda têm muito em comum com o leite – ir à procura de design numa livraria portuguesa acaba por conduzir quase sempre às estantes da literatura estrangeira. “Livro barato” é aqui sinónimo do esplendor Bollywoodesco das Edições Europa-América, com as suas exuberantes ilustrações a guache, lettering viçoso e fotogramas granulados de filmes dos anos setenta.

Já houve boas colecções de livros de bolso com aspecto digno em Portugal, como os Livros RTP ou a biblioteca Unibolso, mas essa tradição de literatura bem apresentada por um bom preço perdeu-se. Os livros foram-se tornando quase todos feios e caros. Ainda se tentaram algumas colecções de bolso como a da Bertrand, da Booket ou da Biblioteca editores Independentes, mas graficamente eram coisas baças e indistintas, que pareciam ter sido feitas para não vender. Reparei em cada uma delas quase por acidente.

Mas, na semana passada, fui surpreendido. Pela primeira vez, tive vontade de comprar mais livros portugueses pela capa do que o meu dinheiro permitia. A culpa é da nova colecção da Leya, Bis, que reedita num formato pequeno e barato clássicos da literatura.

A primeira impressão que se tem destes livros é anacrónica ou, mais exactamente, nostálgica. Conseguimos ver aqui e ali traços do Bonjour Tristesse e do West Side Story de Saul Bass, ou da Cantora Careca de Massin – um tom mais do que adequado a uma colecção de clássicos reeditados.

As capas são brancas com uma grande ilustração, geralmente um pormenor fotográfico em alto contraste, por vezes um desenho ou montagem, embora mantendo sempre o esquema da silhueta escura recortada a branco. O enredo de cada livro fica assim resumido numa imagem sólida e evocativa, quase um logótipo. Por comparação, a tipografia é mais solta – às vezes, alinhada à esquerda, outras, contornando a imagem –, mas o contraste das fontes e o jogo dos itálicos, bolds e regulares joga bem com o contraste e a textura das ilustrações, assegurando a unidade da capa.

O design – assinado por Rui Belo/Silva! Designers – foi obviamente concebido para funcionar em conjunto, formando um mosaico forte e contrastado que, quando exibido numa estante de livraria, oblitera tudo o que está à volta como um exército bem treinado. A mesma disciplina é dedicada às lombadas e contracapas, que repetindo pormenores da capa, protegem os livritos do mau gosto por todos os lados.

As capas desta colecção demonstram bem que a qualidade do design não se deveria medir pelas coisas caras e extravagantes mas pelas baratas e acessíveis, e que isso até é possível em Portugal. Infelizmente, até para fazer bom e barato é preciso dinheiro e só grandes editoras têm meios para aguentar um preço destes – 5.95€ – e para ter uma estante em todas as Fnacs e todos os Continentes do país. Mas até isso me deixa entusiasmado: é a prova que é possível juntar bom design e muito dinheiro em Portugal, uma coisa bem mais rara do que parece.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ilustração, Publicações, , ,

One Response

  1. Nelson diz:

    Boas! Vistas as capas pelo link fornecido no texto acima escrito parecem-me sem dúvida bastante atractivas.
    E, tendo em conta o que me acontece a mim, quando as capas são atractivas, o miolo não custa a ler, muito pelo contrário, dá mais pica.

    Quanto ás lombadas não sei até que ponto se tornará maçador ver em todas elas o “iconezinho” que serve de “remember” da capa e se torna um pouco da praxe. No meu ver torna-se ruídoso e supérfulo, fazendo com que os contrastes tipográficos autor/obra não brilhem tanto como na capa. São desequilibradores dado o seu peso cromático.

    Os contrastes tipográficos usados na escrita dos nomes dos autores bem como o logo da editora remetem-nos de imediato para a ideia de colecção.

    Encontro também no livro de Miguel Torga, “novos contos da montanha” um leading que no meu ver se encontra mal usado entre o nome do autor e o nome da obra. As entidades deveríam ser mais espaçadas ou assumidamente coladas de modo a não correr riscos de interpretação.

    Na minha secção de favoritos fica a obra de Mia Couto, “Terra Sonâmbula”. O mais equilibrado e o mais apetitoso para a prateleira.

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