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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Cabeças Flutuantes e Quadros Vivos

Já há algum tempo que os meus hábitos de espectador mudaram. Tenho prestado mais atenção às séries de televisão que aos filmes que, neste momento, me parecem um formato demasiado breve. Deixei praticamente de ir ao cinema; faço-o mais pela ocasião social do que pelo filme em si, e calculo que a maioria das pessoas vai pelas mesmas razões, porque se tornou comum ouvir gente a falar ou até a atender o telemóvel durante a projecção.

Tendo em conta que o cinema se reduziu para mim a um bom pretexto para falar sobre civismo, acabo por preferir esperar que o filme saia em dvd ou passe na televisão. Posso assim vê-lo no silêncio da minha casa e, se o estiver a ver no computador, posso até “marcá-lo” como a um livro, retomando a “leitura” dias, semanas ou meses depois. Em quase todos os aspectos, ver um filme tem sido, para mim, uma experiência muito próxima à de ler um livro.

Mas enquanto um filme é como uma história curta, a série é como um romance longo, que exige mais tempo e uma leitura mais atenta. Numa série, é possível acompanhar o desenvolvimento de um personagem ao longo de meses e anos, e não é por acaso que muitas das melhores séries que andam por aí são sobre criminosos com vidas familiares complexas – é preciso tempo para simpatizar com uma mente verdadeiramente criminosa como a de Tony Soprano ou com uma ética tão distinta da actual como a de Don Draper.

Tem-se falado muito destes enredos e destes personagens, tentando perceber a influência que têm nas narrativas contemporâneas ou as razões porque se tornou possível usar tramas tão complexas num meio como a televisão que, mesmo hoje, não é propriamente conhecido pela sua intelectualidade. No entanto, uma das coisas que não se tem coberto o suficiente é a forma como estas séries encontraram a sua própria maneira de se representar em anúncios, muito diferente da que é usada nos filmes.

Enquanto nos filmes o formato-chavão é a “cabeça flutuante”, nas séries o formato por defeito tem sido o “quadro vivo”, uma moda que começou, apropriadamente, com os grandes retratos promocionais de Annie Leibovtiz para The Sopranos. Nestes retratos os personagens eram compostos em intrincadas reconstituições de quadros famosos, como A Última Ceia, ou a Barca de Dante, e bem depressa a ideia começou a ser copiada por outras séries de televisão como Lost, Battlestar Galactica ou a versão americana de Life on Mars. Muitas vezes nem se trata de recriar um quadro em particular, mas de colocar os actores em poses contraídas e pouco naturais, tentando com isso representar as suas relações dentro da trama.

Em alguns casos, a ideia não é tanto copiar superficialmente uma pintura mas utilizar uma iconografia complexa, concebida para ser decifrada pelos fãs. É comum estas imagens darem pistas sobre o que irá acontecer no futuro da série, dando azo a páginas e páginas de interpretação na net, como é o caso desta imagem da Última Ceia usada para anunciar a quarta temporada de Battlestar Galactica que foi longamente debatida em revistas, fóruns e blogues – poderíamos falar de uma iconografia para as massas, onde é dedicada tanta atenção a decifrar um anúncio como noutros tempos foi dedicado a decifrar uma pintura renascentista.

Este género de anúncio joga com a própria complexidade da série – de facto, não só anuncia essa complexidade como a prolonga, fazendo parte dela. Enquanto, as “cabeças flutuantes” se limitam a enumerar – literalmente – as cabeças de cartaz do filme, estes quadros vivos anunciam personagens e enredo, o que só é possível porque, numa série de televisão, estes já são conhecidos do público. No fim de contas, a publicidade às séries, como muita da melhor publicidade, não anuncia nada de novo, mas aquilo que conhecemos bem ou aquilo que sentimos que deveriamos conhecer bem.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicidade, , ,

3 Responses

  1. Sérgio Soares diz:

    Boa noite

    Não conhecia o tal chamado “quadro vivo” utilizado nas séries, inclusivamente o do padrinho representando a última ceia. O video do formato floating head ta muito bom lol

    Bom blog

  2. […] e derivativo; apenas uma versão mais pequena dos cartazes de cinema com todos os seus defeitos e cabeças flutuantes. Mesmo as chamadas edições de luxo não passam de versões metalizadas, em relevo, holográficas, […]

  3. A alteração de paradigma na decoração das igrejas católicas, incluindo quadros e retábulos, deu-se após o Concílio do Vaticano II, onde se regulamentaram vários temas. Um dos resultados foi a alteração da leitura da missa em Latim para a Língua oficial de cada país. A partir desse momento deixou de ser necessário o carácter literal na iconografia cristã, a mensagem passou a ser mais clara principalmente para os crentes analfabetos. A maioria das igrejas contemporâneas despiram-se do uso da imagem como ferramenta para convocar as grandes narrativas bíblicas. Este post fez-me lembrar este aspecto, uma série televisiva ao contrário de um livro, pode servir muito bem aos analfabetos, tal como lhes servia a iconografia das grandes narrativas cristãs…dai o uso dessas recriações imagéticas em quadros vivos se mostrar tão apelativo para as séries.

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