The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Ordem de Chegada

Quem anda muito de autocarro já se acostumou à estranha ética da fila de espera. O primeiro a chegar tem algum espaço de manobra – pode decidir onde a fila começa. Quem vem depois tenta perceber a situação e põe-se atrás de quem chegou antes. Às vezes isso é difícil, porque há quem vá para o outro lado da rua, onde está sombra, onde não chove, onde não bate o vento, onde se pode ver o autocarro a vir, onde se pode olhar para uma montra, descansar as pernas, etc. Outros metem-se logo no começo da fila, e apresentam as suas razões para isso: estão carregados, estão cansados, não entendem, quando eram mais novos não era assim.

Uma fila é um bom sítio para ver a sociedade a funcionar. É uma representação gráfica, performativa, da ordem de chegada, uma maneira tácita de reconhecer que toda a gente é igual – não interessa o dinheiro de cada um, não interessa a sua posição social, só interessa quem chegou primeiro. Graças à fila, sabemos com o que contar – onde estamos e onde vamos estar.

Ao entrarmos numa fila, damos a entender que compreendemos as regras sociais e que estamos dispostos a cumpri-las. Isto são duas coisas bem distintas, como demonstram as tais pessoas que esperam de fora da fila. Podem argumentar que sabem qual o seu lugar, mas isso não é o mais importante: estar na fila implica saber a nossa posição, mas sobretudo dá-la a conhecer aos outros.

Tanto quanto sei, as filas de autocarro não são reguladas por lei, embora já se tenham feito campanhas para regrá-las. Organizam-se espontâneamente e nunca há duas exactamente iguais. Em outros contextos, no entanto, é preciso uma organização melhor. Num banco, num hospital ou numa repartição de finanças, as filas têm regras muito definidas, embora por vezes difíceis de perceber.

Por exemplo, há pouco tempo, tive de ir a uma repartição tirar uma dúvida sobre o meu número de contribuinte. Já não ia às finanças desde que apareceu o Simplex, e não sabia bem o que esperar. À primeira vista, aquilo parecia mais um banco do que uma repartição, com pequenas secretárias baixas alinhadas em cubículos em vez do tradicional balcão alto em granito. O esquema das filas também era diferente. Dantes havia uma máquina de senhas para cada serviço; agora havia uma só máquina para todos os serviços.

Tirei a minha senha e sentei-me, sem ver muito bem como aquilo funcionava. Com o tempo comecei a perceber: as pessoas eram atendidas por ordem de chegada, independentemente daquilo que vinham tratar; os números anunciados no ecrã plano atrás do balcão indicavam a senha de quem estava a ser chamado e o balcão a que essa pessoa se devia dirigir.

Infelizmente, devo ter sido das poucas pessoas a perceber. Cada vez que alguém era chamado, duas ou três pessoas, em geral idosos, iam ao balcão e apresentavam as suas senhas, julgando que era a sua vez. Os funcionários explicavam-lhes que ainda tinham de esperar, enquanto a pessoa cuja vez tinha realmente chegado aguardava. Por cada pessoa atendida, perdiam-se pelo menos trinta segundos nisto.

Das suas cadeiras, duas senhoras comentavam que, no ecrã plano onde apareciam os números, só conseguiam ver as letras maiores. Estava muito longe, atrás dos balcões, e a porção maior do monitor era ocupada com publicidade às finanças – imagens de ondas no mar e de árvores na floresta. Os números, bastante pequenos, rodeavam as imagens como rodapés num noticiário. Piscavam e mudavam de vez em quando, sem que se percebesse porquê. Às vezes, ouvia-se uma campainha e aparecia um número novo no ecrã.

Demorei quarenta e cinco minutos a ser chamado. Quando chegou a minha vez, tive de esperar que a funcionária repetisse a duas pessoas que ainda não era a vez delas e que tivessem paciência. A minha dúvida foi rápida e, ao levantar-me para sair, comentei que aquele sistema não era grande coisa. Ela ficou vermelha, mas concordou.

Filed under: Design, ,

3 Responses

  1. Miss Dita diz:

    Os cães de fila são os melhor integrados na sociedade.

  2. licopodio diz:

    Uma fila é um bom sítio para ver a sociedade a não funcionar.

  3. […] das filas de espera e das implicações éticas e de igualdade de pagar para passar à frente. Como acredito que a fila de espera é uma representação gráfica (e performativa) da ideia de civismo e […]

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