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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Design é uma Arma

Desde os gadgets até aos carros e à arquitectura, tudo nos filmes do 007 é uma forma ou outra de design. A própria estrutura das histórias é uma marca registada, um design de série, estabelecido desde os primeiros filmes e sofrendo variações mínimas ao longo de quatro décadas e meia: um pequeno genérico onde o personagem é filmado através do cano de uma arma; uma sequência curta de introdução; o genérico principal; e, por fim, o próprio filme.

Esta sequência de abertura foi concebida e aperfeiçoada por Maurice Binder, designer gráfico de catorze dos vinte e um filmes, desde Dr. No até License to Kill, só sendo substituído por Robert Brownjohn em From Russia With Love e Goldfinger.

Enquanto Binder preferia os jogos psicadélicos e geométricos de silhuetas femininas, Brownjohn usava sequências de imagens projectadas sobre o corpo nu de strippers contratadas para o efeito, uma versão mais ou menos risqué das experiências fotográficas de Moholy-Nagy, de quem Brownjohn tinha sido aluno no Institute of Design de Chicago.

Apesar da sofisticação aparente, a maioria dos genéricos eram feitos com meios bastante artesanais: o cano da arma do pré-genérico, por exemplo, era mesmo um cano de pistola real, fotografado através de uma máquina pinhole. Embora tenha sido o tema do primeiro de todos os genéricos da série, o de Dr. No, o computador só começaria a aparecer com mais frequência depois da morte de Binder em 1991, quando os genéricos da série começaram a ser assegurados por Daniel Kleinman.

Mas o design, ou pelo menos o consumo, já tinha um lugar especial nos livros de Ian Fleming, em particular na forma como os objectos são descritos com uma precisão voluptuosa. Não chega falar de um objecto qualquer; é preciso que seja de marca, e que essa marca se mantenha ao longo da história, ajudando a estabelecer a personalidade e o universo dos personagens: uma pistola é uma Walther PPK, um carro é um Aston Martin, um cocktail é um Vodka Martini.

Mesmo o próprio Bond é descrito por Fleming por comparação a uma “marca”, apresentado como uma versão mais cruel do actor Hoagy Carmichael. Este estratagema também é usado por Brett Easton Ellis em American Psicho, onde todos os objectos são marcas e todas as pessoas são celebridades ou são comparadas com celebridades (curiosamente, os dois autores lidam com assassinos elegantes com uma obsessão por consumo e mulheres).

As histórias de Bond passavam-se originalmente no período a seguir à segunda grande guerra, que corresponde a um boom económico e ao começo da guerra fria. A celebração do luxo e do consumo a seguir a uma época de provação tinha algo de escandaloso e libertador, mas era também uma afirmação dos valores do capitalismo contra a ameaça comunista. Como refere Christopher Hitchens na introdução de uma edição da Penguin Modern Classics, Bond pode ser comparado com um herói do Velho Oeste, mas é definitivamente um herói do novo Oeste, do Ocidente, e o design é, mais do que tudo, a sua arma.

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One Response

  1. Noutro dia fui ver o 22.º filme — “Quamtum of Solace” e durante o genérico fiquei surpreendido por não ver o nome habitual do autor Daniel Kleinman mas sim MK12.

    Não sei qual foi o motivo nem se isto é passageiro (Robert Brownjohn também substituiu consecutivamente Maurice Binder durante o 2.º e 3.º filmes), mas espero que volte rapidamente Daniel Kleinman.
    Não digo isto porque não tenha gostado do genérico nem da nova presença da Tipografia durante o filme mas porque acho que o genérico foge um bocado ao espírito que se esperava.
    Ou seja, num primeiro visionamento agrada-me visualmente, mas acho que não está tão ligado ao filme como os anteriores (de Kleinman). Para além disto, mesmo analisado isoladamente, este é provavelmente o genérico com menos impacto desde 1995…
    A tipografia durante o genérico (refiro-me aos nomes da equipa e não ao título do filme claro) também está diferente, deixando o papel neutro que tinha até aqui (com Maurice Binder, Robert Brownjohn e Daniel Kleinman), e que dava um equilíbrio com toda a quantidade de elementos e efeitos na animação.

    No Casino Royale, Daniel Kleinman deu resposta ao novo tipo de filme que estavam a fazer com Daniel Craig mudando várias coisas no genérico, nomeadamente um estilo mais bidimensional, cores e formas mais simples…, não aparecem mulheres (a única que aparece é a personagem Vesper e não é uma silhueta nua mas sim a cara e muito rapidamente e timidamente).
    Neste filme há uma tentativa de ir pelo mesmo caminho de simplicidade a nível visual, mas depois a parte, por exemplo, em que aparecem imensas silhuetas de mulheres a alta velocidade não tem nada a ver com o filme (este), ainda menos que no filme anterior porque desta vez a história é diferente — a Bond girl nem se chega a envolver fisicamente com James Bond…

    Uma vez que este filme é a continuação do Casino Royale passado pouco tempo (em tempo real, ao estilo por exemplo da série 24) — e não como nos filmes antigos em que cada história é muito separada das outras — seria de esperar que houvesse alguma atenção a isso e se fizesse uma ligação qualquer ao filme anterior (embora tivesse que ser muito diferente claro, até porque este filme tem um ritmo e um tom diferente do anterior). Mas mais do que alguma ligação ao filme anterior, seria obviamente de esperar muito mais ligações à própria história deste filme!
    O genérico quase não tem ligações à história, a única ligação que me lembro é mesmo só o deserto e há outras coisas muito importantes na história, como a vingança da morte de Vesper…etc.
    Os genéricos de Daniel Kleinman eram muito ricos visualmente também por causa das ligações bem feitas à história (personagens, enredo, tipo de ambientes/países …).
    E depois visualmente tal como já disse, falta impacto, tem poucas surpresas, é muito a mesma coisa do princípio ao fim.

    Portanto, conclusão temos um genérico pobre pelo facto de não inovar (pelo menos de forma sustentada) , e de não manter ligações importantíssimas à história do filme!

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