The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ponto da Situação

Em termos de design, as semanas têm sido calmas. Mais uma vez, não tenho visto nada que me entusiasme e mesmo as idas à Fnac não têm dado muitos resultados. Poucos livros sobre design têm aparecido, e mesmo as revistas parecem-me previsíveis. Honestamente, não sei se o problema tem mais a ver comigo do que com aquilo que leio. Afinal, tenho o último livro de Sagmeister pousado em cima da cómoda e mal o folheei; a última Etápes está na minha mochila há uma semana e ainda não encontrei tempo para ela. Em ocasiões como esta, costuma ser útil fazer um ponto da situação – perceber onde estou e como cheguei aqui.

Já faz quase cinco anos que comecei a escrever com regularidade sobre design. Já tinha escrito para algumas revistas, mas só com o blogue encontrei um formato de edição que permite um ritmo de observação rápido. Deixei de escrever uma ou duas vezes por ano; passei a fazê-lo mensalmente e, mais tarde, semanalmente.

Apercebi-me rapidamente que, da série de assuntos que tinha a pairar na minha cabeça à espera de serem escritos, poucos valiam a pena sob o ponto de vista editorial. Não vale a pena escrever sobre assuntos gerais, sobretudo se nos limitarmos a dar o ponto de vista consensual sobre eles – dizer o que toda a gente sabe é reconfortante, mas inútil. Do mesmo modo, dizer algo polémico perante uma audiência pode revelar que um assunto supostamente melindroso se tratava afinal de uma banalidade.

Em parte, isto acontece porque o design português é, apesar de tudo, insular. As ocasiões que poderiam sustentar um discurso público são raras e essa raridade é, na minha opinião, determinante na falta desse discurso. O universo restrito da sala de aula é com frequência visto como equivalente a uma publicação ou a uma apresentação pública, mas dizer uma coisa numa sala fechada, perante um conjunto pequeno de alunos, não é exactamente a mesma coisa que falar publicamente sobre design. Na sala de aula, existe sempre, quer se queira quer não, por mais diluída ou descontraída que seja, uma forma de autoridade que impede uma discussão totalmente aberta. Pode-se alcançar algo de semelhante, mas acabará sempre por ser a simulação de uma discussão pública. Aquilo que o impede é o próprio sistema de avaliação subjacente.

Pelo contrário, publicar num blogue tem a vantagem de fazer tábua rasa de todas estas formas de autoridade. Uma opinião, quando é expressa num blogue, pode valer por si mesma, pelas suas razões e pela sua argumentação, independentemente de quem a diz, dos seus títulos ou do seu currículo.

Essa convicção levou-me a usar um pseudónimo durante os primeiros anos em que escrevi no blogue. Curiosamente, durante esse período, lembro-me que, apesar de revelar muito pouco sobre mim, ainda assim havia quem especulasse sobre quem eu era e como isso afectaria as minhas opiniões. Lembro-me que alguém disse, a certa altura, que por ser do Porto as minhas opiniões não seriam originais – um bom exemplo de um ataque pessoal pouco relevante, até porque nasci em Lisboa.

Este género de discussões irrisórias corresponde à opinião que muita gente tem dos blogues: arenas, mais do que fóruns, onde gente anónima troca insultos entre si sem consequências de maior. Existe, de resto, uma bibliografia cada vez mais vasta que se dedica a defender que os blogues são o fim da cultura ocidental, que vão dar cabo dos elevados critérios editoriais da imprensa escrita e televisiva, que vão reduzir a actividade intelectual a um bando de amadores que zurra uns aos outros aquilo que já todos sabem. Um bom exemplo deste género de livros é O Culto do Amador de Andrew Keen, que, apesar de tudo, apresenta argumentos muito convincentes sobre o efeito negativo da net sobre a cultura. A ele se juntam críticos como Rick Poynor ou Steven Heller que já por várias vezes se queixaram da falta de critérios da blogosfera, apesar de serem, eles próprios, bloguistas de referência.

No entanto, em favor dos blogues, é preciso referir que, antes de escrever num, eu pouco sabia sobre como expor e defender uma opinião. Percebia-o instintivamente, mas não sabia como o fazer de maneira sistemática. Isso impedia-me de estruturar melhor a minha própria opinião, mas também dificultava a minha análise crítica das opiniões de outras pessoas. Com o tempo, aprendi alguma coisa sobre o assunto, graças a um conjunto de livros e recursos como A Arte de Argumentar, de Anthony Weston, editado pela Gradiva ou Critical Thinking for Students, de Roy van den Brink-Budgen, bem como o Guia das Falácias de Stephen Downes, consultável online. Sem os blogues, as regras de argumentação expostas nestes livros, que no fundo servem de sustento à discussão democrática, seriam apenas abstracções.

Quando se publica um texto num blogue, antecipa-se uma reacção, que é como quem diz um público. Nas revistas e nos livros isso também acontece, mas não é um processo tão imediato. Quando escrevia para revistas, apareciam por vezes cartas de leitores a debater ou comentar um outro ponto, mas era uma troca que podia levar meses e que, na maioria das vezes não era pública. Num blogue, a consciência que alguém nos lê é muito mais imediata.

É precisamente porque se escreve antecipando uma reacção que escrever num blogue é, para mim, uma excelente maneira de pensar sobre um assunto. Enquanto escrevo, penso sobretudo em quem discorda de mim. Imagino todo o tipo de problemas que aquilo que estou a defender pode levantar. Verifico – um a um, e vezes sem conta – se os meus argumentos são suficientemente sólidos e se os factos em que se baseiam são fiáveis. Mesmo assim, não é raro descuidar-me. Às vezes, os leitores chamam-me a atenção, outras, sou eu, meses depois, que encontro um erro qualquer, e é sempre uma sensação de que me estão a embrulhar as tripas. Só posso falar por mim, é claro, mas os blogues tornaram-me mais rigoroso e responsável.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações, ,

5 Responses

  1. Pedro diz:

    “Enquanto escrevo, penso sobretudo em quem discorda de mim. Imagino todo o tipo de problemas que aquilo que estou a defender pode levantar.”

    Esta frase é como um resumo de uma das partes de uma aula de semiótica que tive ontem com o professor Fabio Tropea, em que se disse algo como:

    “O sentido existe como diferença – Entende-se o mundo e cada um dos seus componentes pela sua oposição diametral, existindo sempre um sentido binário na criação de sentido.”

    Obrigado pela recapitulação proporcionada em particular, e pela excelente reflexão, em geral!

  2. Kordump diz:

    Não querendo ser mauzinho vou o ser… mas de facto quando se chega ao ponto de blogar sobre blogar é porque não se passa mesmo nada…

    Felizmente não fez um post de “peço desculpa por não ter postado…” porque esses sim não costumam valer nada.

  3. não quero colocar o meu nome diz:

    Parece-me que fizeste uma excelente reavaliação.
    Nunca é de mais lembrar as razões que nos levaram a tomar certas opções. Mesmo que ninguem as entenda.

  4. Bem, tudo se resume ao conceito clássico de dialética…

    Escrever um livro é fácil, encontramos quem concorde com o nosso ponto de vista para o editar (ou editamos nós mesmos) e quem lê não tem outra solução além de concordar ou não ler, porque não se argumenta com folhas de papel.

    Um blogue pode ser um bom dinamizador de conhecimento, se o seu público estiver nisso interessado. É claro que blogues sobre o futebol, não terão conversas profundas LOL

    Eu pessoalmente gostava de escrever mais nos meus blogues mas sei bem que o público que me lê nem sempre está interessado ou capacitado para esse tipo de escrita. E afinal um blogue é também uma ferramenta de marketing pessoal.

    Quanto às massas, sempre foram más para o conhecimento, o que agora muda é a ferramenta de comunicação, não deixarão de haver bons bloggers como o Mário e bloggers medianos como eu, por existirem milhares de lavandarias de roupa suja ou repositórios de futilidade.

  5. Eu acredito que um blog é sobretudo uma ferramenta de rapidez e expansão. A questão da escrita posiciona-se da mesma forma que o mercado editorial, a forma como apresentamos os conteúdos filtram os interessados. Será bom para perceber se o que escrevemos interessa a quem nos entende. Eu digo isto porque comecei a fazer isto há pouco tempo. Não sinto que exista um sentido de dever para com leitores que de mim esperam qualquer coisa. Esta ferramenta traz liberdade de expressão e quem se identifica com os temas, validará os seus conteúdos. Para ser honesto, é apenas isso que me interessa. Não de um ponto de vista elitista, mas de interesses comuns. Saber se existe alguém que pensa como nós, ou que poderá discordar de nós, mas para isso, terá de partilhar o ring connosco. Não sei se é um formato original, aquele em que escrevo, mas apenas escreverei dessa forma, para trazer alguma consistência que me obriga a uma disciplina mental. Ainda assim, quero escrever, criticar e ser criticado, porque uma boa conversa e troca d eopniões é sempre construtiva. Quem sair desse registo, ou tem uma posição dogmática, ou ignorante, ou faz as coisas de ânimo leve, sem objectivos de aprender. Concordo consigo em muitas coisas, mas a escrita desta forma nunca deve ser constrangida. Deve ser feita em plena liberdade. Afinal, um blogue não possui obrigações ;). Continue.

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