The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Arte de autor?

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Há um ano, por esta altura, era de bom tom lastimar-se os grandes logótipos bancários que cobriam a cidade toda. Na Casa da Música ou em Serralves, cada cartaz tinha, bem visível, o logo de um banco; cada praça do Porto tinha a sua cúpula em plástico transparente abrigando carrosséis e ringues de patinagem, tudo sob a protecção de um banco. Com os bancos em crise, o que lamentará agora o mundo da arte?

Não me parece que as grandes parcerias público-privado como Serralves sofram demasiado com a crise – se as coisas correrem mal, acabarão por negociar uma intervenção do estado, à semelhança do que aconteceu com os próprios bancos. Algumas instituições culturais serão, também elas, demasiado grandes para falir.

Quanto às pequenas instituições e aos pequenos eventos, há muito tempo que estavam em crise. Depois da guerra à subsidiodependência,  já praticamente não tinham apoios estatais. Pode ser que agora tenham mais dificuldade a obter empréstimos, mas a grande maioria funcionava sem recorrer a esse género de financiamento, sendo sustentada pelos próprios artistas ou pelos seus pais. As grandes instituições só muito raramente as apoiavam (ou reconheciam). Quando o faziam, a ajuda não se traduzia em dinheiro, mas em branding: o artista fornecia o trabalho; a instituição fornecia a visibilidade.

Apesar de tudo, a influência legitimadora das grandes instituições fazia-se sentir pesadamente. Cada pequeno projecto de vão de escada fazia de conta que tinha o rigor e a ambição suficientes para ser notado pela crítica ou pelos comissários. O resultado disto tudo era arte empertigada, paralisada pelas suas próprias ambições. Para quem não estivesse no meio, incompreensível.

Agora, com a crise, há quem espere que as coisas mudem. Pode ser que as coisas se renovem, pode ser que tudo isto seja o fim. É como discutir se o copo está totalmente vazio ou se está cheio de potencialidades – em última análise, não interessa muito.

Pessoalmente, prefiro as alternativas mais simples ao mundo da arte, como o design, a banda desenhada ou a ilustração. Não é muito difícil apreciar ou comprar uma ilustração, por exemplo. Em geral, é mais barata que uma obra de arte, e pode-se gostar dela sem grandes riscos de embaraço. Não é preciso uma batelada de comissários e de críticos para lhe determinar o valor.

É claro que a ilustração já anda em crise há anos. Os jornais e as revistas têm preferido a fotografia, mais imediata e mais popular, e os ilustradores têm-se dedicado a mercados alternativos. Tradicionalmente, a ilustração funcionava em conjunto com um texto. Neste momento, é uma coisa autónoma. Pode ser exposta em galerias ou pode aparecer em publicações sem estar relacionada com qualquer texto ou assunto definido à partida. É a chamada “ilustração de autor” – uma maneira de continuar a trabalhar em tempos de crise.

Tal como a ilustração depende do texto, a arte depende dos seus mecanismos de legitimação, dos seus críticos, comissários, publicações e instituições. Se é possível haver ilustração sem texto, talvez seja possível – embora pouco provável – haver arte sem (demasiada) legitimação, uma espécie de “arte de autor”, que tenha outras preocupações para além de subir na vida.

Um dos maiores problemas das grandes instituições culturais portuguesas é que, apesar de viverem de apoios privados, viam os seus patrocínios como uma degradação. Não os recusavam, mas torciam o nariz a tudo aquilo que lhes fizesse lembrar negócios, como o design, por exemplo. Ter o mínimo possível de design pretendia ser um símbolo de resistência ao comércio, mas resultava numa imagem fraca, dissonante e fanhosa.

Pode ser que uma “arte de autor” dedique menos tempo a fazer de conta que não se vende e invista mais em design. Mesmo para quem não tem muito dinheiro, não é um objectivo difícil de alcançar – o design não é assim tão caro. Talvez esta arte dedique também mais tempo a produzir publicações com algum conteúdo crítico, por exemplo, do que a fazer arte de galeria. Num momento em que as grandes instituições estão mais cautelosas do que nunca, investindo o mínimo possível, não se perde nada por pensar.

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Filed under: Arte, Autoria, Crítica, Cultura, Economia, Política, , ,

5 Responses

  1. leonor diz:

    Há algum tempo que venho lendo artigos e ouvindo comentários entre ressabiator, livros e conferencias concentrando-me especialmente na opinião geral sobre as instituições culturais. Talvez o comentário não se relacione directamente com este texto, mas com outros anteriores como por exemplo o que fala da suposta “identidade cultural”. A verdade é que é um tema que me interessa bastante, e que até agora balanço entre duas opiniões e gustaria de ouvir a opinião do Mário directamente sobre esta questão.

    Numa conferencia sobre design ibero-americano em Madrid, o discurso de uma designer de São Paulo foi muito ao encontro do que também se passa com as industrias criativas do Porto e a intervenção de Tom Fleming e a sua consultora criativa. Ou seja, que a economia da criatividade é uma realidade e uma visão importante para mudar os centros culturais a nível local e global, e a relação destes com a periferia…transformando a própria periferia num centro. Discurso este que suou bastante bem, sobre direitos de acesso dos públicos e a importância da cultura na sociedade e que esta se tem que defender no mercado, levantando-me aqui a questão de se a entrada em acção das lógicas de branding e das estratégias utilizadas com marcas serem levadas ao campo das instituições culturais não pode ser o começo do fim.

    Como por exemplo o que se passa com a Tate, que mais que de instituição se transformou numa marca, o que por um lado seduz públicos alheios à cultura e desmistifica o acesso a esta tornando-a talvez auto suficiente. Por outro lado talvez esteja a desprover de conteúdo e transformando o nome da instituição apenas numa boa razão para criar vários objectos de merchandising, e vender.

    Industrias criativas, economias culturais, são o ultimo cartucho do capitalismo e um possível desastre para o futuro da cultura, ou é finalmente a luz ao fundo do túnel e uma possibilidade de vida para todas as artes? Acho que tenho alguma confusão sobre tudo isto, mas gustaria saber ouvir mais opiniões…

  2. Interessa-me o design como processo criativo, pois todos os criadores podem aprender com processos alheios.
    Por exemplo gostei muito da apresentação do Stefan Sagmeister no TED:
    http://www.ted.com/index.php/talks/stefan_sagmeister_on_what_he_has_learned.html

    Mostra que coisas tão simples como frases de um diário podem tornar-se um projecto artístico e de design.

  3. “Arte de autor?”
    Espectacular estado de lucidez!

  4. Leonor:

    A ideia das indústrias culturais dá a entender que a única forma de estruturar a cultura é de acordo com esquemas empresariais. Isto acontece desde as maiores instituições até às mais pequenas, mas naturalmente beneficia as maiores, cuja estrutura já é mais próxima à de uma empresa.

    Tal como escrevi no texto relativo a Tom Fleming e Serralves, o problema maior do discurso das indústrias criativas é que, embora soe bem, e diga bem dos pequenos criadores, espaços ou eventos, não se traduz em apoios reais.

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