The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O que se passa com a ilustração?

marcellus_hall

No espaço de um mês abriram no Porto duas galerias especializadas, a Dama Aflita, vocacionada para a ilustração de autor, e a Mundo Fantasma, que embora se dedique preferencialmente à banda desenhada, abriu com uma exposição de Marcellus Hall, colaborador da New Yorker, a revista onde qualquer ilustrador daria a alma (e o corpo) para trabalhar. Só isto seria suficiente para compor um bom ano, mas, antes do mês acabar, ainda inaugurou no Maus Hábitos a exposição itinerante de artes gráficas Åbroïderij-ha!, organizada pela Bedeteca de Lisboa Feira Laica, com apoio da Bedeteca e da associação Chili com Carne.

As três exposições são de muito boa qualidade, mas a da Bedeteca Feira Laica excede pela variedade de autores expostos e, sobretudo, pela grande qualidade média das colaborações, sobretudo as dos autores nacionais. Curiosamente, embora muitos deles estejam associados à ilustração em jornais, livros e revistas – como João Maio Pinto, João Fazenda ou Daniel Lima – a exposição não é anunciada como sendo de ilustração, mas de “Artes Gráficas”, uma designação um tanto ou quanto anacrónica. Tal como a expressão “Obra Gráfica”, dá a entender gravuras ou serigrafias feitas por um artista, e não algo feito por um designer ou ilustrador. Essencialmente, parece querer dizer que muitos destes desenhos, embora feitos por ilustradores, podem ou não ter cumprido a função de ilustrações – não apareceram em jornais, livros, revistas ou discos, o que não diminui em nada o seu mérito; a grande maioria é muito melhor do que tudo o que tenho visto na imprensa portuguesa, de onde a ilustração tem andado ausente.

Mas, estando a ilustração portuguesa num momento particularmente bom, porque não aparece nos jornais e revistas? Porque não aproveitam os editores e os directores de arte esta bonanza? Ocorre-me que não se trata de um desencontro, mas de uma relação de causa e efeito: a qualidade da ilustração melhorou precisamente porque não tem aparecido nos jornais e revistas.

A imprensa escrita tem estado em crise desde há alguns anos – por causa da concorrência da televisão, rádio e internet, por causa da diminuição de receitas da publicidade – e tem cortado no que pode e no que não pode. Uma das primeiras coisas a ir embora, tendo em conta a velha hierarquia entre imagens e palavras, foi a ilustração, trocada pela opção mais barata e mais expediente da fotografia.

Mesmo recorrendo às facilidades do computador, demora sempre mais tempo a fazer uma ilustração do que a tirar e retocar umas tantas fotografias, mas, apesar de tudo, a ilustração tem vantagens que só a melhor fotografia consegue alcançar (não falo evidentemente da fotografia corriqueira empregue pela imprensa portuguesa). A ilustração tem uma relação menos directa, mais cerebral e intelectualizada com o seu assunto. O seu discurso pode aproximar-se ao discurso escrito, no sentido em que pode produzir analogias, metáforas, alegorias, que seria difícil obter numa fotografia sem manipulações ou encenações evidentes. Deste modo, a ilustração pode ser usada como um mecanismo muito forte de opinião editorial, tal como acontece na New Yorker, na New York, na Atlantic Monthly, entre outras – uma tradição que não existe em Portugal.

Trabalhar profissionalmente como ilustrador em Portugal é uma tarefa desgastante e repetitiva. Para conseguir ganhar algum dinheiro é preciso conseguir produzir largas dezenas de trabalhos por mês. Este género de produção intensiva não deixa muito tempo para experimentar e, mesmo nos desenhadores mais rodados, leva necessariamente a fórmulas. Por outro lado, é raro um ilustrador lidar com um director de arte que lhe permita desenvolver o seu estilo, adaptando-o a uma determinada publicação – Jorge Silva é uma excepção, mas também ele anda afastado dos jornais. O mais comum é um ilustrador trabalhar para editores e jornalistas cuja única preocupação é preencherem, de uma forma ou de outra, as páginas. Deixados de lado, os ilustradores têm agora todo o tempo do mundo para experimentar. Podem dedicar-se ao mercado alternativo da ilustração de autor, afinando no processo o seu talento.

Pelo lado da imprensa, argumenta-se que a fotografia é aquilo que os leitores querem, mais objectiva e mais real do que um desenho. Mas, na maioria dos casos, a fotografia é apenas uma forma preguiçosa de tapar um buraco. Na revista de Domingo do Público, por exemplo, desde há semanas que uma das crónicas é acompanhada pela mesma fotografia de stock. Se uma ilustração pode dizer muito sobre um texto, a sua ausência também o faz, e a imprensa portuguesa com o seu uso e abuso de fotografia de stock ou, na melhor das hipóteses, de casamento, demonstra bem o carácter derivativo da grande maioria dos seus textos. A falta de opinião das imagens ilustra a falta de opinião dos textos.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ilustração, Publicações, , , , , ,

13 Responses

  1. Marco diz:

    Concordo contigo, Mário. Temos muitos bons ilustradores encostados à box…

    E que dizer do espaço dedicado nos jornais à banda desenhada? A situação ainda é pior.

    Um abraço!

  2. Miguel Carneiro diz:

    Olá Mário,

    é bom perceber que sempre vai havendo pessoas a remar contra a maré, escrevendo sem preconceitos e sem pedir autorização sobre o que lhes vai parecendo importante, contrariando o marasmo crítico em que mergulhamos. O Maus Hábitos parece ter gerado uma rede de inimizades que tem impedido que levem mais a sério a programação cultural (artes plásticas, música, teatro, etc) que têm levado a cabo nos últimos anos.

    Não posso, no entanto, deixar de desfazer um equívoco: a exposição em questão foi concebida e organizada pelo pessoal da Feira Laica e apoiado/produzido ($$) pela Bedeteca de Lisboa e pela Chili Com Carne. A deslocação da exposição ao Maus Hábitos, e toda a recontextualização ao novo espaço é da exclusiva responsabilidade dos Gajos da Mula!

    Quanto ao texto, não podia ser mais pertinente, apesar da categorização ilustração de autor, de ilustrador ou de artista me parecer um pouco simplificada… Quanto à “objetivização” da imprensa e a relação que criou com a ilustração eu próprio sofri as consequências: das raras oportunidades que tive de ilustrar notícias (apenas para o “Público”) todas as ilustrações, sem excepção, foram alvo de chamadas de atenção por ter excedido o carácter mais objectivo e jornalístico da notícia, suscitando leituras menos desejáveis. Chegaram mesmo a alguns maus tratos, desde deformar/achatar um delas para fins de paginação(!!) e numa outra cortaram deliberadamente um conjunto de 3 palavras que tinha escrito propositadamente com gralhas e erros gramaticais por pensarem que poderia me ter enganado… Na altura não teve graça nenhuma, agora é de rir!

    Gostava mesmo de voltar a trabalhar para a imprensa, mas como dizes e bem o espaço cada vez é menos e os poucos lugares disponíveis estão reservados a alguns ilustradores cativos que têm bilhete para a época toda, independentemente da qualidade do trabalho (a maior parte das vezes fechado em fórmulas previsíveis e entediantes) que vão apresentando.

    Infelizmente caminhamos para um mundo cada vez mais consensual.

  3. Olá Miguel,

    obrigado pela correcção. as minhas desculpas pelo equívoco.

  4. Concordo contigo nalguns pontos e noutros acho que falta uma visão mais realista e prática do assunto, mas já lá vou.

    Primeiro que tudo acho que um dos maiores problemas da ilustração/design/cultura no geral é a falta de divulgação. Por exemplo, eu estive até há pouco tempo numa faculdade de artes, tenho um projecto que me obriga a passar os dias à procura de informação sobre a actividade criativa em Portugal e no entanto, referes neste post vários projectos dos quais nunca tinha sequer ouvido o nome à distância. Esta minha dificuldade tem sido colmatada com a minha proactividade em contactar as pessoas que sei que vão ter informação que querem divulgar, em vez de serem estas a procurar-nos para defender os seus interesses.

    Agora imagina se fosse um jornalista com pouco tempo para encher o choriço da minha revista ou jornal. Já se percebe um pouco o problema da ausência da ilustração e design na imprensa (é claro que depois há o voto de ignorância de alguns editores).

    Sobre a questão da ilustração na imprensa, posso-te falar na primeira pessoa dessa questão, pois estou agora a trabalhar “de vez em quando” para as Visões e uma das coisas que compensa a total precariedade é a relação directa e informal que tenho com os directores criativos e colegas de trabalho. Ora, um dos maiores problemas para a boa ilustração neste caso de que posso falar é simples, tempo e também critérios pessoais dos directores.

    Por exemplo a Visão LINK que saiu a semana passada, teve 3 capas diferentes, duas de ilustrações do Hélder Oliveira e uma baseada numa foto da sessão fotográfica que criaram para o meio da revista. Ora sendo a foto de duas “gajas” já se sabe qual foi escolhida, mesmo não ilustrando o tema de capa convenientemente. Mas a questão é mais complexa, também eu concordei que as ilustrações feitas não correspondiam ao “feeling” da revista, embora preferisse ao escolhido.

    Na discussão destas capas dei uma daquelas ideias descabidas que o director de arte gostou e reconcebeu e estava disposto a pedir que esta fosse ilustrada. Ora isto numa sexta com fim-de-semana prolongado até terça e data de fecho prevista nesse dia, e não tinhamos garantia de o resultado ser o esperado (para não falar no tempo para o ilustrador mandar esboços e finalizar o trabalho). Lá está, se calhar esta ilustração que não foi feita era muito melhor, em termos artisticos em termos de design de capa, mas a revista tinha de sair e por isso saiu a solução de recurso.

    Quando somos independentes é mais fácil, não há prazos, não há constrangimentos, não se perde dinheiro se se prolongar o trabalho e daí os resultados serem melhores…

    Mas depois a diferença entre o ilustrador do mercado americano e o nacional também entra na equação. No dia anterior ao fecho precisou-se de duas infografias e tendo uma secção de infografia que só faz isso, tive de ser eu, precário, com mais trabahlho nas mãos e sem grande experiência na disciplina (a minha é a ilustração conceptual) consegui fazer as duas infografias com qualidade suficiente para deixar alguns colegas admirados (se prestam ou não isso já não sou eu juíz, vejam no meu blog pessoal). Ou seja, em menos tempo, com menos experìência e sem tanta responsabilidade em suar a camisola (visto que não ganhei mais por isso) fiz o que outros não tinham tempo para fazer.

    Acho que dá para ver outros pormenores da pintura 😛

  5. José Cardoso diz:

    Olá,

    Em que sentido podemos atribuir a qualidade de “ilustração” a um trabalho? Isto é, qual a diferença entre um “ilustrador” desempregado e um artista? Com este “momento particularmente bom” que a ilustração portuguesa atravessa, se os directores e editores não pegam nela, alguém há-de pegar. Neste caso, o sujeito será o Galerista. Com a recente aposta das galerias de arte contemporânea na ilustração (pelos vistos é uma boa aposta, dado o crescente número de galerias mais direccionadas para o comércio/exposição deste tipo de trabalhos) também é provável que o ilustrador comece a trabalhar directamente para a galeria, a qual lhe dará, com certeza, a liberdade de produzir obras autónomas. É aqui que surge a minha dúvida: Se um trabalho não está a ilustrar um texto (uma capa de livro ou cd, promover um produto, etc) e se torna independente, porquê a designação? Estarão todos os ilustradores portugueses a tornar-se artistas?

  6. Olá Zé,

    Há uns tempos, um comissário achava engraçado que eu considerasse como artista toda a gente com um curso de artes plásticas, pintura ou escultura. Enquanto para muitos designers, é um objectivo limitar o exercício da actividade a quem tem curso, para os artistas, o curso é só o começo da carreira. Desconfio que, no mundo da arte, muita gente que expõe regularmente, tem galerista, aparece nos jornais e revistas, não é, apesar de tudo, considerado um artista a sério. Parece-me difícil, portanto, que um ilustrador (ou um designer) se transforme num artista simplesmente por não estar a fazer exactamente aquilo para o qual estudou.

    No caso dos ilustradores, a designação depende da sua formação e do seu campo de acção. As próprias galerias ou eventos especializados em ilustração acabam por ter algum tipo de influência legitimadora nos trabalhos que mostram. Por outro lado, a ilustração é um discurso condicionado quer histórica quer tecnicamente. Certos desenhos tornam-se ilustrações não apenas porque foram feitos para ilustrar um texto, mas porque se posicionam em relação a uma certa tradição, estilo ou técnica.

  7. José, a ilustração não é só ilustrar texto, podes ilustrar um conceito, um sentimento, etc… há uma linha ténue realmente entre arte e ilustração mas também entre arte e design.

    Eu pelo menos depois de 5 anos a estudar em Belas Artes não consigo definir sequer o que é arte e quem diz que sabe, sabe mais que a maioria da comunidade artística LOL

  8. Ah, só acrescentar que há vários anos que ilustradores americanos expõem em galerias de arte, nomes como Coop, Kurt Halsey, Jasinsky…

  9. José Cardoso diz:

    Sim, mas o facto de esses nomes exporem em galerias, não vai contribuir para um novo estatuto das suas obras? As ilustrações tornam-se quase objectos de culto e é nessa transformação que perdem o sentido para o qual foram feitas – tornam-se de alguma forma descontextualizadas. E claro que tenho conhecimento que a exposição de trabalhos de ilustração não é uma coisa nova mas, o que estou a tentar defender, é que é uma coisa cada vez mais comum.

    Sendo esta uma actividade mais regular, existe também a progressiva necessidade de criação experimental (agora o exemplo Coop, Kurt Halsey, Jasinsky não será tão válido..). É aqui que julgo residir a minha confusão, no preciso ponto onde a ilustração experimental e o Desenho na sua forma artística se misturam (se é que alguma vez se misturam). Porque o Desenho será, na minha opinião, também uma forma de “ilustrar um conceito, um sentimento, etc..”.

    Eu não estou a tentar reivindicar nenhum estatuto para o ilustrador, só estou a tentar descobrir algumas razões para o “salto” que a ilustração portuguesa deu..

  10. Sim, nesse sentido que referes é realmente caso para ver se perco e perdemos algumas horas a pensar nas razões e implicações do fenómeno.

    Parece-me que se a ilustração for experimental demais deixa de o ser e passa a ser arte, no sentido em que aquilo que é a característica mais diferenciadora da ilustração seria a capacidade que o público em geral tem de a decifrar, ao contrário do que aconteceu na arte com a entropia da mesma como andamos sempre a ler e ouvir.

    Assim de repente e enquanto “autor” (sé é que posso ter a imodéstia de me classificar como tal), pensando um pouco sobre o assunto, posso afirmar que o desenho o considero como exercício plástico, muitas vezes egoísta no sentido de ser produzido por prazer, ou mecânico, servindo como prática para o acto posterior, ou seja, a criação de pintura ou ilustração. Considero que faço ilustração, primeiro quando a produzo no sentido mais tradicional de ter um texto, ou um material a ser ilustrado mas também quando pretendo criar algo que desperte sentimentos e emoções na pessoa que o visualizar.

    De facto, o objectivo acaba por ser o mesmo que o do artista mas enquanto o artista não se restringe ao que o fruidor deveria conseguir decifrar (apoia-se esteticamente num subjectivismo kantiano), o ilustrador acaba por se comportar como um pintor clássico, tenta incluir símbolos, pistas visuais que levem ao conceito que se pretende que seja veiculado. Basicamente e sem grande palavreado teórico, o artista não se importa que a obra seja indecifrável ou ambígua e o ilustrador tenta de facto ilustrar algo. Um pouco na mesma medida em que o design não é para o designer fazer o que gosta mas sim para veicular uma mensagem aos seu destinatário.

    Mas vale a pena pensar um pouco mais sobre a questão José.

  11. […] os jornais portugueses abandonam a ilustração como se fosse a peste, o inglês The Guardian usa-a cada vez mais. Um bom exemplo […]

  12. […] Muita gente dirá que, ao ser exposta na parede uma galeria uma ilustração deixa, pura e simplesmente, de ser uma ilustração – pelo menos no sentido clássico. Naturalmente, isto é um argumento essencialista, que defende que algo só pode ser uma ilustração em circunstâncias muito precisas. Essas circunstâncias não incluem, por exemplo, o facto da grande maioria das publicações portuguesas dispensarem cada vez mais o recurso à ilustração, levando os ilustradores a redireccionarem os seus talentos para exposições e para formatos mais experimentais, o que pode até aperfeiçoar as suas qualidades (já o defendi em outro texto): […]

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