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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Não posters, mas capas de filmes

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Não sei exactamente a data, mas os primeiros DVDs apareceram na Europa há cerca de dez anos, por volta de 1998. Parece que foi há mais tempo, porque, tal como sucedeu com o multibanco ou o telemóvel, os DVDs mudaram, de maneira subtil mas radical, o nosso estilo de vida. Mais do que as cassetes de vídeo, objectos bastante frágeis e maljeitosos, que só se podia ver umas quantas vezes antes de perderem a qualidade,os DVDs consolidaram a transformação de filmes e séries de televisão em objectos de consumo.

Antes do DVD e do VHS, um filme era tão efémero como uma performance ou um happening. Via-se no cinema ou na televisão a uma determinada hora, num determinado dia, e, em geral, ia-se preparado para isso, lendo a crítica nos jornais ou nas revistas de cinema. Depois, só sobravam recordações, o que estimulava o coleccionismo: se não era possível ter o filme, podia-se guardar os cartazes, bilhetes, livros, revistas, adaptações em bd, cadernetas de cromos ou aqueles cartões que se punham nos átrios dos cinemas com fotografias do filme. Agora, tornou-se difícil não ser dono de um filme, mesmo que não se queira, tendo em conta que são oferecidos a torto e a direito como brindes em todo o tipo de produtos, desde jornais, revistas e consolas, a cabazes de compras, passando por promoções em bombas de gasolina, e por aí adiante.

Os DVDs, com os seus extras, featurettes, fins alternativos, galerias de imagens e faixas de comentário, são um bom suporte para a obsessão cinéfila. No entanto, um DVD não é apenas um formato de arquivo. A maneira como os seus conteúdos se articulam altera quase imperceptivelmente a maneira como se vê o filme. Mesmo um DVD básico pode conter várias versões do mesmo filme, sendo possível mudar-lhe o final, as legendas ou a língua em que é falado. São mudanças pequenas que podem transformar o próprio género do filme: uma faixa de comentário num filme de ficção transforma-o subtilmente num documentário sobre esse mesmo filme – um grau zero de Making Of.

Mas se os filmes se tornaram coleccionáveis, não foi certamente pelo aspecto físico dos DVDs que, desde o começo, se parecem com um CD metido numa caixa de cassete de vídeo mais estreita. De maneira geral, o seu design é fraco e derivativo; apenas uma versão mais pequena dos cartazes de cinema com todos os seus defeitos e cabeças flutuantes. Mesmo as chamadas edições de luxo não passam de versões metalizadas, em relevo, holográficas, e por aí adiante – não design, mas demonstrações de abundância vagamente kitsch. Por outras palavras, se já se tornou aceitável comprar livros ou CDs pela capa, comprar um DVD pela capa ainda parece estranho.

Uma excepção são os DVDs da Criterion, que desde 1984 faz reedições de luxo de filmes clássicos ou contemporâneos. As suas capas são quase sempre originais, mesmo quando se apoiam sobre cartazes do filme. A forma como, através da cor e da tipografia, conseguem representar os próprios filmes, mas também a própria ideia de colecção, é um excelente trabalho de direcção de arte que, tanto quanto sei, tem sido assegurado por Sarah Habibi. O único problema é o preço, cerca de 43 euros. De vez em quando cedo à tentação, e compro um ou outro, embora ainda me faltem as minhas capas favoritas: Pierrot Le Fou, de Goddard, com design de Steve Chow e If, de Lindsay Anderson, com design dos Aesthetic Apparatus. Recomendam-se também as capas dos filmes de Wes Anderson, com direccção de arte do próprio e as capas feitas por Eric Skillman, cujo processo expõe no seu próprio blog. Skillman recorre com frequência a nomes sonantes da banda desenhada, como Xaime Hernandez, Darwyn Cooke, Bill Sienkiewickz, Mike Allred ou Sean Philips (é possível ler aqui uma entrevista a Skillman sobre o seu trabalho com autores de bd).

Uma dos maiores problemas (e tentações) do designer é fazer aquilo que se espera dele – caixas de detergentes que se parecem com caixas de detergente, capas de livros que se parecem com capas de livros, capas de filmes que se parecem com capas de filmes. Se o DVD parece ser, à partida, um formato derivativo, uma versão de uma versão – não um filme, mas o registo de um filme; não uma capa, mas um poster em miniatura –, os DVDs da Criterion com o seu cuidado gráfico conseguem fugir elegantemente à armadilha e criar algo de novo através do design.

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Filed under: Banda Desenhada, Cartaz, Crítica, Cultura, Design, Ilustração, Linguagem, ,

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