The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Exemplo

serralves

Regressar ao tema da nova identidade de Serralves é um pouco como bater no ceguinho, mas como o pior cego é o que não quer ver, pode ser que este ceguinho mereça a tareia. Uma das razões para isso é que teve um bom ano. Tem motivos para se gabar e para ser gabado. Teve 400.000 visitas pagas e, por causa disso, teve direito a uma setazita ascendente no Público. Tudo isto seria um pretexto para festejar se entretanto não tivesse decidido mudar discretamente de identidade gráfica.

Esta nova identidade é, sem grande margem para dúvidas, um mamarracho – escolhi a palavra porque é comum ser usada em relação à arquitectura e, se este logótipo fosse um edifício, com toda a certeza haveria algum brado público contra a sua falta de qualidade.

No design, pelo contrário, mesmo os piores logótipos acabam por se entranhar sem grandes queixas. Mas enquanto uma casa mal engendrada – um pouco como um atentado à bomba – pode dar cabo de uma vizinhança ou de uma paisagem, um mau logótipo é como uma bomba de fragmentação, ou mais exactamente como um campo de minas, faz o seu estrago a mais gente, numa área maior e durante mais tempo. Embora se possa argumentar que facilmente se pode mudar um mau logótipo, não é comum que isso aconteça sem que se deixem passar uns anos, e no intervalo vai inquinando o espaço público de toda a Península Ibérica (é esse o alcance actual de Serralves). Eis uma excelente razão para se pensar melhor no que se faz.

Outra boa razão seria o facto de – como já referimos atrás – Serralves ter motivos para se gabar. Pouca gente diz mal de Serralves hoje em dia e mesmo a crítica habitualmente feroz do mundo da arte só costuma ter boas palavras para Serralves.

(Um aparte: das poucas coisas que se costuma criticar em Serralves são as suas iniciativas mais expansionistas como o Allgarve. Alguns críticos, como Augusto M. Seabra, chegam mesmo a apelar a um regresso da Fundação aos seus princípios básicos, expressos nos seus estatutos, e que passariam por sensibilizar o público para a arte contemporânea e para o ambiente através do Museu, do Parque e do património associado. Pelo contrário, a nova identidade junta Casa, Museu e Fundação debaixo de uma só palavra – “Serralves” – distanciando-se claramente desta missão original, e transformando Serralves – ainda mais – numa imagem de marca, mais imaterial e mais desligada da sua envolvência.)

Mas enfim, sendo Serralves considerado um bom exemplo no que diz respeito a visitantes, eventos, exposições e por aí fora, corre-se o risco de se achar que é também um bom exemplo no que diz respeito ao design. Há uns tempos, numa discussão, disseram-me uma coisa semelhante: eu defendia que o design de Serralves não era grande coisa, sobretudo se comparado com o de instituições semelhantes; a pessoa com quem eu discutia argumentava que era bom design, e que, para o poder avaliar correctamente, deveria ter em conta a dimensão da instituição, o seu alcance internacional, o tamanho do seu gabinete de design, etc. De certa maneira, o design de Serralves não era mau porque Serralves é uma instituição grande e bem sucedida.

Como é evidente, trata-se de uma falácia – um cliente importante não garante, por si só, a qualidade de um design –, e levando-a até às últimas consequências pode-se chegar à conclusão que, fazendo depender a qualidade do design da qualidade da instituição, acaba por nem ser preciso qualquer tipo de design. Se uma instituição como Serralves consegue 400.000 visitantes independentemente do seu design, então o design é algo meramente cosmético e, em última análise, inútil. Mas a verdade é que as maiores instituições internacionais prestam bastante atenção ao seu design e, se Serralves quer competir nas grandes ligas, vai ter de pensar melhor no seu design.

Não se trata apenas de ter design porque todos os grandes museus o têm, mas porque o design encarna a qualidade da preocupação que a instituição tem para com os seus visitantes, incluindo a maneira como estabelece a sua identidade perante eles. Serralves, por se assumir como um exemplo dentro das instituições culturais nacionais, tem a obrigação de cuidar do seu design, devendo ser responsabilizada pelas suas decisões nesse campo, que deveriam ser discutidas publicamente e não remetidas a meras notas de rodapé.

Dentro das instituições e da crítica ligada ao mundo da arte existe a tendência para se associar unicamente o design a estratégias empresariais de marketing e publicidade, coisas que desviam as instituições das suas responsabilidades principais (o texto de Seabra referido mais atrás é um bom exemplo disso). Como consequência desse preconceito, o design de instituições como Serralves acaba por ser reduzido ao mínimo, não no sentido do “less is more” modernista, mas no sentido em que se acredita que muito branco e uma fonte sem serifas chegam, por si só, para fazer um bom design para um museu de arte contemporânea – não se trata de minimalismo, mas de pobreza.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Logos

11 Responses

  1. cruz diz:

    SERR/\_VES, acho que tens razão é bater no ceguinho. Há muito que cheguei à conclusão que Serr/\_ves não é para mim, deve ser por isso que lá não ponho os pés há bastante tempo, nem me lembro a última coisa que lá fui ver. Talvez vá ao concerto de Sexta-feira, é isso, fui lá ver o Bretschneider, outro concerto, que também não foi nada por aí além.

    Acho que sou elitista, a programação artística do Fernandes não me interessa minimamente, não é para mim, compreendo e aceito, ele acha que certas coisas são importantes eu acho que são outras, não me admiro que as opções de design de comunicação—independentemente de quem as toma (quem será?)—também sejam fracas, mas talvez seja por acaso, também podiam ser boas, por acaso.

  2. Nelson diz:

    A nova identidade de Serralves pode ser entendida sem grandes ambiguidades e por quem não saiba do que se trata, como AILINES SERR/\_VES….Porquê!?Está à vista.

  3. Hei cambada!

    Hoje vi a aplicação da nova imagem de Serralves (Serr/\_ves) em anúncio no jornal Público. E surpresa das surpresas é pior que o que esperava. Se o o Logótipo é mais do mesmo mas mais deselegante, grosseiro e datado, a articulação com os novos elementos revela-se uma trapalhada que quase me faz perder a vontade de publicar um juízo. Pois há coisas com que não vale mesmo a pena perder tempo e não se tratasse de uma das maiores instituições culturais de Portugal facilmente cairia no esquecimento.

    Para fundamentar a minha opinião sobre a nova imagem:
    O tipo de letra usado no texto foi tão explorado no início deste século em Portugal que apenas produz uma imagem já muito gasta. A opção da caixa alta para todo o tipo de informação (excepto fichas técnicas) diminui a legibilidade porque todos gritam: descrições, títulos, sub-títulos, horários, temas, locais (todos em bicos de pé). Além disso um designer gráfico deve saber que a caixa alta têm menor legibilidade nestes casos porque cria menos contrastes entre os caracteres, principalmente com tipos de letra sem serifas. O entrelinhamento escasseia enquanto o espaço entre as letras foi expandido. São opções viáveis desde que não tomadas em conjunto em blocos extensos de letras maiúsculas.
    Acho incrível (num objecto que se quer de boa e fácil leitura) que seja possível ver espaços maiores entre as letras que formam uma palavra do que entre as linhas. E entre as palavras criaram-se vales para cortar o fluir dos olhos pela mensagem. O foco de atenção dispersa-se e tende-se a explorar as linhas de baixo ao mesmo tempo que a palavra que vem a seguir. É este para mim o pior dos piores nesta imagem, a gestão do branco (não que me satisfaça com o resto, NÃO!). Os ritmos dos espaços vazios (entre as linhas, entre os blocos, entre as letras e outros) não ajudam a hierarquizar a informação, pelo contrário, tranformam o objecto numa espécie de listagem cinzenta de títulos e sub-títulos.
    Para compensar essa falha criaram umas barras coloridas verticais que colocaram no lado esquerdo, demasiado impositivas porque assim tinha de ser, penso. Essas barras têm cortes nas extremidades num ângulo estranho a toda a composição. As cores escolhidas para essas barras não dão mais vida (são as mesmas).

    Um fracasso a tentar jogar pelo seguro que pelo menos não tem alinhamentos à direita misturados.

    Sempre tive como sonho secreto vir um dia a redesenhar Serralves, porque estava ao meu alcance e ao mesmo tempo era um desafio. Tinha a certeza que seria capaz de fazer a coisa bem. Agora, pá, quase todos os designers que conheço serão capazes de criar algo bem melhor.
    …Tristeza do ca———.

  4. Partilho do mesmo suspiro…

  5. Vou ser positivista: A julgar pelo logótipo, viajar pela SERR/\_VES (isto das barras é giro!) deve ser bem melhor que pela Ryanair.

  6. cetes diz:

    Enfim! nem dá para acreditar!
    Vou guardar um minuto de silencio pelo design em Portugal!
    …………………………………………………………………
    …………………………………………………………………

  7. D.Q. diz:

    Hoje apanhei um programa de Serralves com a nova imagem. Azul, vermelho e branco. Os boatos confirmaram-se: Serralves foi comprada pelo grupo American Airlines!

  8. Gostei do novo logótipo. Moderno, funcional e o azul fica a combinar com a cidade do Porto! O anterior realmente estava a precisar de ser mudado talvez por ser muito simples, talvez por ter sido muito utilizado (ao fim de algum tempo torna-se vicioso)… Sou da opinião de que tudo o que seja institucional seja actualizado de vez em quando para não ganhar a monotonia.

    Quanto ao facto de poder ter resultado melhor, talvez para uma próxima alteração (daqui por uns tempos) surjam ideias melhores. Mas mesmo assim acho que o actual vai resultando bastante bem.

  9. Tiago Machado diz:

    Preferia que tivessem mantido o anterior.

    Mas tem-se notado que Serralves tem vindo a perder a coesão gráfica que lhe era tão caracteristica. Andam um bocadinho perdidos, esperemos que encontrem o rumo de novo…

    Este logo tem pinta de industria metalurgica.

  10. […] uma vez, Serralves. Já tinha dito aqui que mudou a sua identidade gráfica e que não foi para melhor; já se sabia […]

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