The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O dilúvio

urs-fischer

Com a crise financeira, o mundo da arte sustém a respiração. Espera-se menos dinheiro, mais falências, que algumas galerias fechem, que algumas instituições vacilem, que os leilões sejam menos eufóricos do que antes; aposta-se qual será o tipo de artista e qual o tipo de arte que irá sobreviver. Há até quem veja a situação como uma limpeza, um dilúvio que vem eliminar todo o lixo acumulado dos últimos anos – a especulação, as bienais supérfluas, os artistas sobrevalorizados. É como se, expulsando os vendilhões do templo, se pudesse fazer regressar o mundo da arte ao seu estado de graça original.

Mas até a ideia de um dilúvio purificador ilustra a dependência do mundo da arte em relação à ideologia de mercado: não é através de um esforço crítico que se corrigem os excessos ou se constroem alternativas, mas aguardando passivamente que o mercado – mesmo em queda – tome as decisões. No fundo, equivale a dizer que só o mercado pode salvar o mundo da arte dos excessos do mercado. É como acreditar que os vendilhões se expulsarão a si mesmos do templo.

No entanto, o mercado, ou pelo menos o tipo de mercado que causou esta crise, não é inevitável. O capitalismo não é uma estrutura monolítica; existem dentro dele inúmeras variantes, por vezes bastante divergentes entre si. Esta crise foi causada pelo neo-liberalismo, uma variante radical que assenta na ideia de que o Estado deve intervir o menos possível sobre os mercados – uma interpretação fundamentalista da mão invisível de Adam Smith. De acordo com esta filosofia, o próprio Estado deve comportar-se o mais possível numa empresa, privatizando serviços como a saúde, a educação e a cultura – e subordinando-se assim, ele mesmo, ao mercado.

Desde há alguns anos, o financiamento das artes tem-se aproximado de um modelo neo-liberal, não apenas como uma maneira de sustentar economicamente as artes, mas como uma ideologia completa e coerente, que tende a apoiar e produzir obras e artistas que a celebrem. Um passo decisivo desta aproximação foi a invenção da “subsidiodependência”, uma forma de diabolizar o apoio directo do Estado aos criadores. Não se tratava de eliminar completamente os subsídios, mas de poupar dinheiro, mudando subtilmente a natureza dos financiamentos. Em vez do subsídio, que passou a conotar uma esmola pública, começou a defender-se a parceria público-privado – outro nome para subsídio –, onde o Estado promovia o mecenato de entidades privadas através de estímulos fiscais e financiamentos parciais – no fundo, apoiando quem já se podia apoiar. O modelo de parceria público-privado funciona assim como um incentivo a que todas as entidades, sejam elas museus, escolas ou até mesmo artistas se comportem o mais possível como empresas de grande dimensão – quanto maior a entidade, maior o subsídio.

Dentro da doutrina neo-liberal, assume-se que ajudando as instituições maiores através de apoios directos, diminuição de despesas e cortes nos impostos, se vai acabar por ajudar também o cidadão comum. Do mesmo modo, no financiamento às artes parte-se do princípio que os apoios às entidades de maiores dimensões vão “transbordando” para as entidades de menor dimensão, acabando por sustentar finalmente os artistas. Na realidade, isso raramente acontece. Em muitos casos, o apoio dado pelas maiores instituições acontece apenas no plano do branding: o artista fornece a obra, não recebendo qualquer tipo de remuneração por isso; a instituição assegura a montagem, a divulgação e a legitimidade institucional. Este modelo assume que o artista pode assegurar a sua sobrevivência por outros meios – talvez através de um segundo emprego trabalhando numa instituição de maior dimensão, dando aulas numa universidade, montando a sua própria galeria ou servindo à mesa num restaurante. Prefere-se assim dar um emprego aos artistas, mesmo que fora da sua área, do que financiar directamente as suas obras.

Deste modo, enquanto se fala cada vez mais das indústrias criativas e do seu contributo para a economia, é muito pouco provável que haja artistas a ganharem dinheiro com isso. A maioria nem se incomoda muito com o assunto, porque acredita que mantendo a sua distância, quer em relação a subsídios estatais, quer a apoios privados, consegue assegurar a sua autonomia criativa. No entanto, este distanciamento garante também que a maioria do investimento cultural acaba por ir parar às instituições de maior dimensão, por não haver quem reivindique alternativas. Trata-se efectivamente de um aproveitamento oportunista da doutrina da autonomia da arte que, neste caso, permite poupar bastante dinheiro ao Estado e às grandes instituições, enquanto retira argumentos aos próprios artistas para defenderem sistemas de financiamento que lhes sejam mais vantajosos. Originalmente, a autonomia do artista, tal como a autonomia da universidade, assentava sobre uma independência financeira assegurada em geral por dinheiros públicos; neste momento, é uma forma eficaz de precarizar o trabalho nas artes.

O antídoto seria inverter as prioridades, começando a apoiar preferencialmente estruturas de pequena e média dimensão, assim como os próprios artistas. No entanto, isso torna-se difícil em Portugal, sobretudo porque só as grandes instituições têm direito à visibilidade mediática. Mesmo a crítica especializada prefere falar sobre as finanças de grande escala, reservando uma crítica meramente formalista aos artistas, omitindo completamente a forma como as suas obras são financiadas. O resultado é um desconhecimento quase total sobre a maneira como a economia do artista funciona e o modo como a sua carreira se processa, tirando os raros casos em que é considerada bem sucedida e que, por isso mesmo, são pouco representativos da situação como um todo. Essencialmente, da discussão pública em torno das artes, fica a sensação de que só as grandes instituições têm uma economia séria, viável e digna de ser apoiada.

Sem surpresa, este estado das coisas mantém-se durante a crise sem sobressaltos de maior. Tal como se decidiu dar dinheiro aos bancos em dificuldades em vez de apoiar directamente as pessoas endividadas, continua a apoiar-se as instituições de maior dimensão em detrimento dos próprios artistas numa versão cultural do “bail-out” – como no caso do apoio dado pelo Estado às galerias que participam na Arco deste ano. Tudo indica que, também nas artes, se vai tentar ultrapassar uma crise provocada pelo neo-liberalismo recorrendo homeopaticamente ao próprio neo-liberalismo. No entanto, talvez fosse uma boa ocasião para encontrar alternativas, se houvesse vontade de as procurar.

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Filed under: Arte, Crítica, Economia, Política

11 Responses

  1. gostei do que li. Mas gostava também de ler o “Design em tempos de Crise” – Sou de Lisboa e não sei onde se vende (ed. pequena mas de grande saída) – Eu acho que és muito condescendente com os artistas. Não são deuses mas são tremendamente egoistas. não dão um chavo pelo próximo. Infelizmente há um ou outro cujo trabalho dá-me gosto de estar vivo. era desses que gostava de sentir a pulsar insurreição.

    • Para já, o Design em Tempos de Crise ainda não está à venda em Lisboa. A primeira edição está a escoar mais depressa do que o previsto, e ficámos sem exemplares suficientes para um lançamento aí. Terá de ficar para a segunda edição. Mas podes encomendar um pelo correio directamente à Braço de Ferro.

  2. Serpa diz:

    Olá
    só para dar um pequeno toque: a Trama (no Rato) encomendou, se não me engano, 3 exemplares. Um é para mim (eh eh eh) e ficarão dois para os mais rápidos a lá chegar.

  3. O sistema das artes não é tão objectivo como o financeiro. Não é assim tão simples como apoiar quem deve juros (que são se calhar até anti-constitucionais porque obrigam à devolução dum valor acrescentado que não existe nem em número abstracto numa qualquer conta bancária nem de modo líquido). O próprio mundo da arte criou as suas próprias restrições, e não me parece que nenhum sector da sociedade esteja a obrigar os artistas a coisa alguma. Enquanto os sobre-endividados são passíveis de serem detectados e posteriormente ajudados. Os artistas (se fora de uma instituição maior) não podem ser considerados artistas porque como sabes bem, não é para quem quer, é para quem pode e sabe.
    Neste texto parece tudo muito bonito, mas se considerarmos que conhecemos imensa gente que luta por ganhar independência económica trabalhando no que gosta, também podemos saber que existem inúmeros trabalhadores/operários infelizes que gostariam de fazer outra coisa das suas vidas.
    Disse-o há muitos anos e volto a repeti-lo: A arte, como é entendida pelos críticos de revista hoje em dia, já criou barreiras para se proteger deste modelo ne-liberal. Agora digo algo de novo, (como um bom português, hipocondríaco, que só fica contente quando vê que tem mais razão do médico que não lhe diagnosticou o tumor do tamanho duma bola de ténis que tinha no cérebro atempo). -Tás a ver meu sacana! Hehe… Tinha ou não tinha qualquer coisa de mal, essa barreira? 😦

    • Não sei se compreendo a tua posição, mas discordo de alguns pontos e tenho algumas dúvidas:

      Em primeiro lugar, o sistema das artes é objectivo o suficiente para funcionar como um mercado; se não o fosse, ninguém se daria ao trabalho de investir dinheiro nele. Se dizes que, por não ser objectivo, não se deveria apoiar artistas, também não seria objectivo o suficiente para apoiar museus, casas da música, prémios Nobel, e por aí adiante, chegando finalmente à conclusão que a cultura não serve para nada e, portanto, não se deveria gastar dinheiro nenhum com ela. Se conseguiste passar a última semana sem gastar um tostão em cultura de qualquer espécie, ou sem ser pago por fazer cultura de qualquer espécie, ou sem que alguém tenha pago a alguém para atirar gratuitamente alguma cultura na tua direcção, compreendo o teu ponto de vista, embora não o inveje.

      Em segundo lugar, o argumento que ninguém está a obrigar os artistas a coisa nenhuma é exactamente o mesmo que dizer que as pessoas se endividam apenas porque querem, esquecendo que bancos e governos criaram a legislação que permite o endividamento excessivo, chegando mesmo a incentivá-lo. No caso dos artistas, a existência de escolas de arte, museus, galerias, ruas Miguel Bombarda e jornais com colunas de crítica de arte dá a entender que existe interesse na nossa sociedade para a existência de artistas. Numa sociedade capitalista como a nossa, havendo interesse, deveria – talvez – haver dinheiro.

      Em terceiro lugar, uma dúvida: que tipo de barreiras foram criadas para proteger a arte do modelo neo-liberal?

  4. Primeiro devo esclarecer a questão: O sistema artístico (arte de vanguarda, alta-arte, contemporânea, ou o que mais lhe queiram chamar…) não é obviamente o instituído, os Nóbeis, as casas da música… Não falo portanto das grandes instituições que como marcas em que se transformarm adtoparam competências de marketing.
    Falo dos grupos de artistas, às vezes satélites dessas casas outras vezes não, (que personificam e edificam tudo o que é trazido de novo ao sistema das artes do século XX) que desdenharam as leis mais básicas da troca de serviços (profissão=procura-oferta). E isso é uma barreira para o natural desenvolvimento social da classe.
    Nunca se profissionalizaram talvez por vergonha de cederem às regras do neo-liberalismo.
    Este sistema das artes, a única coisa que tem de objectivo é a de legitimar uma classe social em busca de status.

    As pessoas não se endividam porque querem, é claro. Se investigarmos um pouco sobre a base da economia, todo sistema monetarista funciona sobre a premissa base: dinheiro=dívida. Porque logo na altura da sua criação o dinheiro é produzido num Banco Central em troca de uma dívida assumida pelo Estado que ordena a sua produção ao produtor. Mais: o dinheiro segue para os bancos que o emprestam, momento em que é aplicada uma taxa extra (juros), um valor em dinheiro que nunca foi produzido e por isso não existe, a dívida cresce mas o dinheiro não. Mesmo que um cidadão consiga viver toda a sua vida sem dever um euro, o dinheiro que tem é devido (teoricamente a dobrar ou mais) por alguém, provavelmente a um banco ou ao estado.
    Pelo contrário na criação artítica não é preciso emitir notas de crédito para criar algo de novo… São sistemas com realidades e naturezas diferentes de base.

    Para acabar, como propões que sejam seleccionados os artistas que devem ter apoios?

    • Dizer que o sistema artístico “não é obviamente o instituído” parece-me uma contradição. É a mesma coisa que dizer que o sistema financeiro é tudo menos os bancos, ou tudo menos as pessoas endividadas. Neste caso, dá-te jeito dizer isso, porque, se o sistema artístico se reduz às “cenas alternativas” que nunca recebem dinheiro, podes dizer que estão fora do sistema neo-liberal e que não são um sistema tão objectivo como o financeiro mas, tal como digo no texto, as “cenas alternativas” fazem parte do sistema neo-liberal, embora não ganhando dinheiro por isso.

      “Pelo contrário na criação artítica não é preciso emitir notas de crédito para criar algo de novo… São sistemas com realidades e naturezas diferentes de base.” – de acordo, são sistemas diferentes, mas dependem um do outro. Para alguém ser considerado um artista na nossa sociedade tem de passar por uma série de crivos financeiros e sociais. O currículo de qualquer artista (bem sucedido ou não) ilustra bem que investiu muito dinheiro naquilo que faz. Tu próprio dizes isso quando afirmas que ser artista é para quem pode e sabe. De resto, quando comparei artistas e pessoas endividadas, fi-lo apenas para demonstrar que as decisões não são apenas tomadas individualmente, mas que dependem de estruturas e hierarquias sociais, ao contrário do que sugerias quando dizias que nenhum sector da sociedade obriga os artistas a coisa nenhuma,

      Quanto a seleccionar os artistas: um sistema baseado na avaliação de currículos e de projectos de candidatura, tal como acontece agora em todo o lado. A diferença, que já está implícita no meu texto, é que dava menos dinheiro público e privado às instituições de grandes dimensões e, com o dinheiro poupado dava mais subsídios relativamente pequenos a mais projectos de pequena dimensão, sem tentar conduzi-los tematicamente como acontece agora. Em termos processuais, tentava fazer um modo de candidatura a subsídios que fosse mais automático e menos sujeito a pressões de gosto centrais. Quase como preencher uma declaração de impostos.

  5. Tens razão, deu-me jeito. E concordo contigo. A crise é um bom momento para repensar os apoios, sem dúvida. Mas noto muitas falhas possíveis nessa selecção. Deve ser mais automática, definfitivamente. Poreém a avaliação de currículos deve ser mais problemática. Sugiro também o seguinte:
    Profisisonalização dos artistas… Burocracias, finanças, segurança social… Sendo que os que se afirmassem como artistas contribuiriam com apenas 10% para a segurança social, e poderiam descontar a aquisição de quase todo o tipo de materiais no IRS.
    Em troca renunciavam ao direito à reforma ao fim dos anos de trabalho obrigatórios para todos. Mantinha-se o apoio dados em situações de invalidez. Com saúde, os artistas trbalham até morrer.
    Não sei… Assim de repente parece-me lógico.

  6. Wilfrid Sá diz:

    Zeigeist(Addendum) anda no ar…que tal ser alvo de uma próxima conversa e até um artigo aqui no The Ressabiator?

  7. Gonçalo diz:

    A questão de quem se deve financiar, se de facto se deve financiar alguém (o neo-liberalismo diria que o estado não deve financiar ninguém…), é interessante e deve ser discutida mas a primeira metade deste texto é lixo. Recomendo algumas leituras sobre a crise, sobre neo-liberais e sobre as economias de mercado e menos esforço em juntar palavras num sentido que mais ninguém lhes reconhece.

    E entretanto, que se apague essa terrível primeira metade do texto.

    • Não percebo porque haveria de apagar o que quer que seja, baseado num comentário que não adianta absolutamente nada.

      A sua sorte é que discordo de praticamente tudo o que diz e da forma como o diz. Se concordasse, o seu comentário estaria (todo ele) apagado.

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