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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Apesar de tudo

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Tornou-se difícil negar que, para quem gosta das artes, as oportunidades têm aumentado e, até numa cidade como o Porto, da qual ainda se costuma dizer que é um deserto, esta expressão já deixou de descrever uma falta real de eventos, para passar a indicar a presença de um snob.

Mas, mesmo em plena abundância, algumas áreas estão mais favorecidas do que outras: para quem gosta de se queixar do estado da pintura, por exemplo, as inaugurações não têm faltado; para o cinéfilo, pelo contrário, o panorama não é tão entusiástico e os mais ferrenhos terão de se dedicar aos dvds, porque os ciclos de cinema clássico só aparecem muito de vez em quando (talvez a coisa melhore com o anunciado pólo da cinemateca). No caso do design, apesar das Personal Views terem acabado, ainda há eventos, conferências, exposições e aulas suficientes para manter um público mais ou menos regular.

Pelo lado da arquitectura, com uma presença pública muito frequente, instituições sólidas e publicações regulares, não há muitas razões para queixa e, num artigo publicado esta semana na Arte Capital, André Tavares fala inclusive dos problemas que a abundância de eventos relacionados com arquitectura levanta. Para ele, não se trata da quantidade, nem da sua qualidade, mas da forma como, na sua profusão, eles se acabam por cancelar uns aos outros.

Trata-se de um problema que não se limita, como é evidente, à arquitectura e que se espalha a todas as áreas da cultura. Ainda há algum tempo, era possível que passassem anos sem uma exposição memorável, uma boa conferência ou um concerto memorável. Não havia muitas livrarias que renovassem o seu stock regularmente. Em muitas cidades pequenas, só havia um cinema que, em geral, passava dois filmes por semana e na televisão só havia canal e meio – quem andasse na rua à hora da novela podia seguir os diálogos de casa em casa. Agora entre inaugurações e lançamentos, conferências e ciclos, livros e dvds, Fnacs e Amazons, vivemos numa era de abundância onde mesmo o leitor mais ávido não consegue ler todos os livros, o cinéfilo mais persistente não consegue ver todos os filmes, o crítico mais exaustivo não consegue ver todas as exposições.

Um sinal típico desta época são as listas de 1000 livros, filmes ou músicas que é preciso ler, ver ou escutar antes de morrer. Somando o tempo que tudo isso demoraria a consumir – porque é disso que se trata –, torna-se bastante evidente que uma vida inteira não chega para cumprir convenientemente a tarefa, sobretudo quando se tem um emprego, uma família ou uma vida para viver. O consumo torna-se assim um objectivo quase religioso, uma aspiração que nunca poderá ser suficientemente cumprida.

André Tavares sugere que este é um problema de crítica. Não da falta de crítica por si só – porque há mais de uma dezena de revistas de arquitectura em Portugal, às quais se juntam os críticos de arquitectura da imprensa generalista – mas do tipo de crítica, que não consegue lidar adequadamente com estes eventos todos. Também não se trata apenas da falha de uma crítica que assiste de fora aos eventos, mas da maneira como os próprios eventos se ignoram uns outros, não sendo, desta forma, críticos entre si.

À boa maneira portuguesa, esta distância funciona, quer como uma maneira de não provocar inimizades, quer como uma forma tácita de snobismo, mas também como um hábito, um modo de fazer as coisas, um modo de estar em sociedade. O resultado é que a crítica se volta para o comentário de coisas seguras e distantes, quer no espaço, quer no tempo e deixa de conseguir articular eficazmente o aqui e o agora. Este modo de estar é particularmente inútil numa era da abundância, dando a sensação que cada evento, cada livro, cada filme, cada música, quanto mais for produzido perto de nós, mais se encontra isolado, criando uma sensação de abundância fragmentada, sem comunidade, sem continuidade.

Para evitar isso, seria necessária, mais do que apenas uma forma de crítica, uma forma de ética pessoal que conseguisse lidar de modo eficaz com os problemas da abundância. Contudo, num sistema económico que depende da chamada “confiança do consumidor”, não há muitos incentivos para que isso aconteça. É frequente acreditar-se até que as escolhas críticas e éticas, que deveriam ser uma responsabilidade individual, acabarão por ser tomadas por contingências económicas, tecnológicas, políticas ou ecológicas.

Para rejeitar essa visão fatalista, será necessário, como afirma José Bártolo, contrariar o elogio da produção típico da sociedade actual, que nos leva a produzir mais do que somos capazes de consumir. Usando como exemplo a produção de textos no meio universitário português – cada vez mais intensa, mas também mais inconsequente –, Bártolo propõe correctamente uma solução em termos de uma responsabilidade pessoal de ler mais do que se escreve. A ênfase pessoal desta responsabilidade é importante, porque evita a tentação de recorrer a formas de censura explícitas ou implícitas que limitem a produção de cultura por meios “naturais” – todo o tipo de crises – ou “artificiais” – legislação, burocracia ou, simplesmente, censura. Mas, mais importante ainda, o próprio acto de não escrever sobre tudo o que se lê, vê ou ouve, deve ser, só por si, uma escolha crítica – e não uma obrigação automática de responder a tudo e a todos.

Não há demasiada cultura, demasiados livros, exposições, escritores, artistas ou designers, apenas escolhas para fazer e que nada ou ninguém deveria tomar por nós.

Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design, Política, Publicações

3 Responses

  1. umaflechanatesta diz:

    Uma solução que me agrada bastante é a de criar estruturas de gestão de informação: do local para o global e do muito específico para o mais abrangente.
    Estruturas – do tipo revista, blogue, programa televisivo, rádio – que estabelecessem relações entre os diferentes acontecimentos, funcionando ao mesmo tempo como uma agenda comentada.

    Pessoalmente já estou cansada de estruturas demasiado genéricas, com critérios estranhos, onde se fala de tudo um pouco e acaba-se por não se falar de nada concretamente.

    A Arte Capital parece-me um bom exemplo. Mas devia haver mais, diferentes e até em alternativa às que existem.

    Uma estrutura como proponho é uma espécie de aproveitamento do que já há, mas recombinado. E mais, parece-me que é um excelente projecto artístico.

  2. Se são necessárias alguém tem que as fazer 😛

    Pelos vistos até já tens as ideias 😉

  3. […] um tema de alguns textos atrás, numa era de abundância seria útil um público mais exigente e mais crítico, mas, para isso, […]

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