The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Barbara Says

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Na última quarta-feira de 2005, entre o Natal e o Ano Novo, fui a Lisboa para falar com o António Gomes, dos Barbara Says. Desde 1999, quando os Barbara vieram dar uma conferência nas Belas Artes do Porto, que eu já conhecia e apreciava o seu design gráfico. Na altura já tinham um estilo que, apesar de ser assumidamente digital, conseguia ser também muito táctil e físico, recorrendo a efeitos que eram ao mesmo tempo sofisticados e lo-fi. Usavam tecnologias quase obsoletas de maneira criativa e recorriam com à vontade a um imaginário urbano especificamente lisboeta. Não faziam, no entanto, uma mera apropriação – havia um genuíno respeito por aquilo que recolhiam e citavam. Desse primeiro contacto, lembro-me particularmente de uma série de flyers recortados em formas exóticas – círculos, estrelas, caixas de medicamentos – realizados com cortantes antigos recolhidos em gráficas. Era uma ideia ao mesmo tempo económica, elegante e inesperada, qualidades que estão presentes em todos os trabalhos dos Barbara. Agora, uma editora francesa, a Pyramid, estava interessada em publicar um livro recolhendo os dez anos de trabalho dos Barbara, e o António tinha-me pedido para escrever o texto de introdução. Esta era uma boa ocasião para conhecer melhor o trabalho dos Barbara e aceitei de imediato.

Cheguei a Santa Apolónia por volta da uma da tarde, e liguei ao António. Combinamos no largo do Adamastor, junto ao Noo Bai. Para quem conhece mal Lisboa como eu, era um sítio fácil de encontrar. Já conhecia o café de uma visita anterior, era um terraço sossegado, perfeito para uma entrevista. Quando cheguei vi que tinha compreendido mal: não se tratava apenas um ponto de encontro; o novo atelier dos Barbara era no andar por baixo do Noo Bai. A entrada fazia-se pelo próprio café. Descemos umas escadas, passamos por uma cancela e chegamos ao atelier, que estava em obras de remodelação bastante intensas. Trolhas iam e vinham com baldes de entulho; o chão estava coberto de plástico e restos de caliça; a um canto, havia um monte de objectos amolgados com ar surrealista: armários, expositores, arquivadores, relógios de parede, escarradeiras de pedal. O atelier era a antiga sede de um sindicato, uma sala ampla, de pé direito duplo, com um meio andar em galeria contornando a parte de cima. Em baixo, a toda a volta da sala, havia uma série de portas de madeira com vidraças foscas. Em cada vidro estavam escritas coisas como “Sindicato Nacional dos Marinheiros Mercantes – Delegação do Pessoal de Convés dos Navios de Longo Curso” em grandes letras negras. Imaginei atrás de cada uma das portas um burocrata entretido na sua pequena secretária. Disse isso ao António que se riu, dizendo que eram apenas armários embutidos. No entanto, o lettering das portas dava um aspecto ainda mais amplo, tortuoso e tipográfico à sala, que era realçado por alguns murais incongruentes de cenas náuticas e alfandegárias. Havia até, escondida por baixo de um armário, uma passagem secreta usada pelos antigos ocupantes para fugirem à Pide. Acabava por ser uma mistura feliz de burocracia portuária e de caverna de contrabandista.

Resolvemos começar a ver os trabalhos num compartimento resguardado num dos lados da galeria que, depois das obras, iria ser a sala do António. O barulho dos berbequins era ensurdecedor, mas, à medida que ele me ia mostrando cartazes, revistas e catálogos, apontando meticulosamente pormenores, falando com entusiasmo do que tinha corrido bem e do que tinha corrido mal em cada caso, comecei a perceber que aquele espaço, e mesmo aquele ruído, ilustravam perfeitamente a sua atitude enquanto designer gráfico. Era uma filosofia que combinava criativamente recolhas de materiais de escritório, de velhas tecnologias de gráfica caídas em desuso, com um aproveitamento criativo dos próprios problemas inerentes a cada projecto. Não havia obstáculos ou dificuldades que não pudessem ser incorporados imaginativamente no resultado final. Isto era particularmente evidente na imagem gráfica da exposição de arquitectura Metaflux, que foi desenvolvida em prazos extremamente apertados, sendo literalmente um work-in-progress. Nas semanas que antecederam a exposição, cada novo anúncio de jornal foi aproveitado para experimentar novas soluções, novas versões do logótipo, que acabou por se estabilizar numa solução meio orgânica, meio digital, que viria a dar o tom ao resto do material promocional da exposição – desde a fonte usada na capa e no poster que parecia oscilar entre o digital e o clássico, até aos convites a imitar folhas de decalque Mecanorma ou Decadry, feitas com padrões desenhados por cada um dos arquitectos expostos. Esta capacidade de improviso, aliada ao uso orgânico de recursos digitais revelou-se também essencial no design da imagem gráfica da 75ª Feira do Livro de Lisboa. Aqui o trabalho foi realizado em colaboração estreita com os arquitectos Marcos Cruz e Marjan Colletti, exigindo, por questões orçamentais, uma gestão rigorosa dos materiais, reaproveitando sempre que possível tudo o que sobrasse. Para este projecto foi criada um género de lettering, praticamente uma fonte, com sugestões tridimensionais, que funcionava em conjunto com um padrão de texturas irregulares que seriam recortadas em grande escala nas paredes do pavilhão principal, permitindo ver porções da estrutura metálica interior. O resultado final produzia um contraste interessante entre uma estética digital e um certo look quase orgânico.

Mais tarde, durante o dia, tivemos de mudar de sítio. Por causa das obras no atelier, parte dos trabalhos estavam guardados em casa de um amigo, um antigo designer gráfico, cujos trabalhos eu me lembrava de ter visto no começo da década de noventa. A casa dele estava repleta de livros, mas sobretudo de materiais recuperados de velhas gráficas – caracteres de madeira, máquinas de picotar, mapas, etc. Nesse dia, um conjunto de antigas pedras litográficas adquiridas numa velho armazém de gráfica estavam ser fotografadas. Eram grandes lajes gastas, mais ou menos polidas, que tinham sido usadas para imprimir papéis de embrulho e estavam cobertas com padrões de empregados de hotel levando embrulhos, no meio de clientes pachorrentos e de automóveis antigos. De certa maneira, pareciam uma espécie de hieróglifos Art Deco. Aquelas pedras interessavam de forma evidente o António, que desde que tinha vindo estudar design de comunicação, nas Belas Artes de Lisboa, se tinha habituado a frequentar as gráficas, livrarias e alfarrabistas da zona do Bairro Alto, recuperando desde materiais de escritório, a livros excêntricos e esquecidos como os Atlas satíricos de Paulo do Canto, onde mapas tipográficos da Europa e do Mundo eram usados como cartoons. Era bastante mais estimulante descobrir os recursos esquecidos da cidade, do que assistir às aulas de design, naquela época ainda demasiado orientadas para o mundo empresarial e para um design mais bem comportado. Além disso, as revistas internacionais de design como a americana Emigre e a inglesa Eye tinham começado a divulgar um design mais orgânico e mais experimental, que aparecia sobretudo em capas de discos e revistas de cultura urbana. Este género de design, fortemente inspirado nas teorias pós-modernistas, recuperava material recolhido na rua – letras, imagens e todo o tipo de exemplares de design popular e anónimo –, para depois o integrar em composições complexas e texturadas. Dentre estes designers, o mais marcante, para o António, tinha sido sem dúvida Vaughan Oliver, criador das capas dos discos de bandas como os Pixies, Lush, na editora discográfica 4AD. O grafismo rico de Oliver era a antítese do design gráfico corrente em Portugal até metade da década de noventa, ainda muito influenciado no design “cartoonesco” de Milton Glaser, o autor do logo “I(Heart)NY”.

Estas influências são particularmente evidentes ao folhear a revista Flirt, editada pela galeria Zé dos Bois (também conhecida pela abreviatura ZDB), que é talvez o mais conhecido trabalho dos BarbaraSays. Com vinte e sete números publicados entre 1998 e 2001, a revista funcionou como um guia alternativo para os eventos culturais da cidade de Lisboa. contendo também artigos e entrevistas sobre todo o género de assuntos – desde entrevistas a Kalle Lasn, o editor da AdBusters, a críticas de música e banda desenhada. Algumas rubricas recorrentes eram bastante excêntricas – como a página dos “Ócios” que era uma lista pseudo-turística das piores tascas, dos restaurantes mais caros, das melhores “zonas de queca”, etc. Tudo isto se prestava a muita experimentação gráfica, que se reflectia em particular nas capas, onde tudo mudava de número para número, mesmo a palavra “Flirt”, que aparecia sempre desenhada de forma diferente – como um conjunto de sóis poentes na fotografia de uma praia no número 5, como placas de classificação hoteleira no número 21, como um brasão cor-de-rosa sobre uma velha fotografia a preto-e-branco no número 10, como uma construção de legos ou com as letras do próprio logótipo da Lego, etc. A paginação era também muito variada, recorrendo a todo o tipo de efeitos e acessórios visuais, desde ilustrações até “found photography”, passando por arranjos unicamente tipográficos e montagens fotográficas. No entanto, e apesar de todas estas mutações, o que surpreende é que, precisamente graças a elas, a Flirt alcançou uma qualidade imediatamente reconhecível, uma espécie de sofisticação lo-fi – uma qualidade que aparece em quase todos os trabalhos dos Barbara, mesmo os mais “sossegados”. Cada projecto envolve um método criativo próprio, onde a criação de um lettering e a escolha criteriosa de materiais, tintas, papeis são talvez a parte mais importante e aquela que acaba por definir melhor a abordagem dos Barbara. Por vezes, as associações de ideias que resultam das combinações de materiais são improváveis, mas eficazes, como no caso do catálogo para a exposição de artes plásticas O Nome que No Peito Escrito Tinhas, comemorativa dos 650 anos da morte de Inês de Castro. Aqui foram usados papéis habitualmente usados em caixas de pastelaria, com uma impressão numa tonalidade de azul que completa a referência, quer às pastelarias, quer ao aspecto do azulejo português. Estas referências a uma identidade nacional não são acidentais – as fontes modernistas usadas na capa recordam também o grafismo do Estado Novo e a forma como o passado histórico português foi aproveitado politicamente pelo regime de Salazar.

Ao fim da tarde, e depois de mais algumas mudanças de pouso, demos o trabalho por encerrado. Enquanto percorríamos as ruas da Baixa à procura de um restaurante para jantar, começámos a falar de outras coisas. Nos últimos anos, o António tinha levado o seu interesse pelo design gráfico para além da simples prática de atelier, participando em todo o tipo de eventos. Falámos da Experimenta Design 2005, onde o António tinha comissariado a exposição S*Cool Ibérica; da Esad das Caldas da Rainha, onde dá aulas de design. Ao caminhar com ele pela Baixa era impossível não reparar em todas as letras, em todo o design novo e antigo que nos rodeava – desde as placas de pedra cinzeladas com os nomes das ruas, até aos graffiti em stencil, passando pelos letreiros das lojas anunciando novidades vindas de Paris e pelos cartazes anunciando exposições e festas de ano novo. É um ambiente muito rico que, no entanto, raramente se traduz num conhecimento histórico sistemático. O design em Portugal – pelo menos como uma coisa feita por profissionais e ensinada em Universidades – é uma coisa recente. Só nos últimos quinze anos é que a própria palavra “Design” se começou a vulgarizar. No entanto, continua a existir em Portugal, e particularmente em Lisboa, um património que embora não estando directamente associado ao design de comunicação, merece ser apreciado e merece ser protegido. Este património é mantido em grande parte por designers como os BarbaraSays, que recuperam e reactivam estes recursos regularmente, combinando-os criativamente com tudo o que se faz de melhor no design contemporâneo mundial.

Este artigo foi publicado originalmente na revista Slang #2.

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Filed under: Apropriação, Crítica, Cultura, Design, História

6 Responses

  1. Nelson diz:

    Grande Descrição.
    Eu fui aluno do António na ESAD e sei bem a qualidade dos projectos dos Barbara. Quando entrei dentro do atelier pela primeira vez fiquei logo deslumbrado com o ambiente presente, tendo por algumas vezes imaginado esse mesmo ambiente umas décadas antes, com reuniões secretas e estratagemas para nos livrarem do regime Salazarista.
    A ultima e saudosa vez que fui ao atelier deparei-me com um projecto feito pelos Barbara, elaborado para a Bienal de Arquitectura de Veneza.
    A primeira vez que o tinha visto, havera sido no Câmara Clara da 2. Fiquei logo apaixonado pela capa e essencialmente pela justificação dos textos. No entanto não sabia que tinha sido feito pelos Barbara. Apenas no dia de uma entrevista é que eles me mostraram a obra!

    Sou grande apreciador do trabalho do António. O modo como ele utiliza a tipografia deixa-me a pensar que não há tipos de letra inúteis, sendo que todos os que ele utiliza têm sempre pertinência. Um exemplo disso são os cartazes que ele faz regularmente para o OPORTO. Com um fundo sempre igual, a tipografia sempre diferente, o António com um trabalho serigrafico/pop dá um brilho enorme aos posters.
    Quase uma mistura entre Andy Warhol e os letterings dos filmes de Hitchcook.

    Por pouco não fiz lá um estágio e digo-o hoje mais uma vez que tinha sido muito bom por mim. O António é daqueles que quando fala de design prende o ouvinte e senti isso cada vez que falei com ele. Constrúo-o como uma mescla entre o designer freak e o designer ligado, consciente das suas origens. Sem dúvida que, nas mãos do António, o design português está bem e recomenda-se.Bem haja!

  2. Miguel diz:

    O livro com o trabalho dos Barbara Says já foi publicado, está em vias de ser, ou ainda não se sabe?

  3. luís diz:

    Lembro-me perfeitamente da primeira vez que vi um dos trabalhos que referes para a metaflux, estava colado de uma forma muito tosca numa parede do IA e a minha vontade de fugir dali com ele, bem protegido debaixo do braço, era bem maior que a necessidade de cumprir com a reunião agendada… ainda hoje estou arrependido de me ter contido e não ter cumprido com esse instinto.

  4. […] entre o crítico de design Mário Moura e o trabalho de Barbara Says, eloquentemente descrito num artigo do próprio Mário Moura, é um exemplo excelente e, infelizmente, raro de uma possibilidade de […]

  5. […] publicações de Paulo de Cantos, com as quais eu tinha tomado conhecimento anos atrás, durante uma entrevista a António Gomes dos Barbara Says. No dia seguinte, enquanto fazia a ronda pelos alfarrabistas […]

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