The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Queria comprar uma vogal, por favor

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Este domingo, com o Público, entre os coleccionáveis, as revistas camarárias, a publicidade a centros comerciais e empreendimentos imobiliários, habitualmente atirados sem pensar duas vezes para a pilha da reciclagem, encontrei uma revista que me interessou, não pela sua qualidade, mas porque um problema de design na sua capa, e em particular no seu título, me obrigou a gastar mais tempo com ela do que desejaria.

À primeira vista, do nome só consegui decifrar “Ple—ude”, com as restantes letras cobertas pela cabeçorra de um político qualquer. Parti do princípio que a palavra só podia ser “Plenitude” – não devia haver muitas mais que encaixassem – mas, para ter a certeza, tive de procurar na letra miudinha por baixo do título – era realmente o número 68 da revista Plenitude, oferecido gratuitamente aos leitores do público.

A intenção era, sem dúvida, imitar a Vogue ou a Vanity Fair, dando a entender que, se um leitor sofisticado como eu não sabia que publicação era aquela – mesmo com metade do título tapado –, isso seria uma falha imperdoável, só remediável assinando de imediato a revista. A manha sugeria aquilo que os publicitários chamam confiança de marca, a ideia de que, se um certo produto é bom, refinado e exclusivo, seria melhor nem o anunciar, reservando-o para clientes distintos que realmente o percebem. No entanto, com um nome rechonchudo e prosaico como “Plenitude” era muito pouco provável que o estratagema desse certo.

De facto, lembrava-me outras tantas tentativas furadas de aplicar a mesma ideia, algumas caricatas, outras simplesmente absurdas. Há uns tempos, por exemplo, vi num escaparate uma revista que me pareceu chamar-se “Cus”. Na verdade, tratava-se de uma publicação em inglês chamada “Gus”, cujo “G” estava tapado pelo modelo – o facto de se tratar de uma revista gay só tornava o deslize ainda mais ridículo. A mesma coisa aconteceu-me pouco depois com a portuguesa Blitz. Graças à fonte geométrica e à cabeça do Mick Jagger, já não consigo ler outra que não seja “Butz”  – sem dúvida uma versão radical, streetware de “Butts”. Mas ainda podia ser pior: há uns tempos, circulava pela net esta imagem da capa da revista de puericultura “Parents”, com o título insinuando outra coisa. Depois de alguma polémica, descobriu-se que era uma capa falsa, produzida pelo designer Andrew Hearst precisamente para caricaturar as armadilhas do cabeçalho escondido.

No entanto, apesar dos seus perigos – o maior dos quais, ter-se tornado num chavão –, a ideia ainda tem os seus pontos altos. Quando é bem usada, interliga tipografia e imagens, tornando a capa de uma revista num espaço denso e tridimensional, com avanços e recuos semelhantes aos de um altar ou da fachada de uma igreja barroca. Talvez por isso, funcione tão bem com fotografias de inspiração alegórica, como as de Annie Leibovitz, como demonstram bem as capas da Vanity Fair sobre Madonna ou sobre Tina Fey.

Curiosamente, nas revistas portuguesas é bastante raro ver este uso do espaço em camadas. Talvez se pudesse generalizar, afirmando que o design gráfico português é tendencialmente bidimensional, usando na maior parte dos casos o espaço da página como um plano e não como uma janela. Não é necessariamente um defeito, nem uma regra, apenas uma tendência que, no entanto, parece levar a que não se saiba usar certo tipo de soluções gráficas com fluência.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações, , ,

6 Responses

  1. LOLOL
    Excelente posta!

    «Talvez se pudesse generalizar, afirmando que o design gráfico português é tendencialmente bidimensional, usando na maior parte dos casos o espaço da página como um plano e não como uma janela. Não é necessariamente um defeito, nem uma regra, apenas uma tendência …» – atrevo-me a pensar que é mais uma tradição. Certamente ainda um resquício da linguagem e práticas das oficinas tipográficas bem recentes. O termo “plano” carrega ainda muito lastro no panorama nacional. «Já fechaste o plano?», «Mas… este plano não está bater certo!», «Ó Esteves, já podes levar o plano para a imposição»; ainda guardo excelentes memórias de ver um certo Espadaneira {nada bidimensionais os nomes dos operários tipógrafos, pois não?} a montar os planos de uma revista cheia de mulheres bonitas, mas que não era certamente a Vanity Fair…

    {PS – o link da Tina Fey não está correcto…}

  2. Já corrigi o link. As minhas desculpas.

  3. “Talvez se pudesse generalizar, afirmando que o design gráfico português é tendencialmente bidimensional, usando na maior parte dos casos o espaço da página como um plano e não como uma janela.”

    De facto a página é regra geral vista como bidimensional. Torna-se frustrante explorar até à exaustão os 0,2 mm de espessura. Mas também creio que cada vez menos isso se nota. Os designers mais novos já têm menos pudor em usar representações de tridimensionalidade. Das mais foleiras às mais pretensiosas.

  4. cruz diz:

    Apreciei especialmente esta parte do artigo: “…cobertas pela cabeçorra de um político qualquer.” Quanto à bidimensionalidade do design português é só esperarmos um pouco, a qualquer momento deve estar a sair um mestrado ou doutoramento sobre o assunto.

  5. Clara diz:

    O óbvio aqui, e apesar de até gostar da capa da Plenitude, é que a imagem n pode dar azo a leituras mal feitas. As capas da vanity n podem ser lidas de outra forma nem apresentam nenhuma dificuldade na leitura. O outro problema é o editor da Plenitude – revista que é parte de um jornal, nem existe per se – achar que se pode assumir como um produto-marca. Saberá o sr. qtas gilletes tiveram de ser vendidas até a gillete significar máquina de barbear manual? Arrogância é bonito, mas n vende.

  6. joana diz:

    Vi no NYtimes a capa de uma revista, chamada Ebony, cuja capa com o Obama deixou-o com 2 corninhos maléficos

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