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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“Não há crítica”

Com o tempo, fui-me habituando àquelas pessoas que afirmam categoricamente que não há crítica em Portugal. Não dizem que há pouca crítica, não dizem que há má crítica. Dizem apenas que não há e pronto.

Como seria de esperar, não o fazem apenas em relação à crítica de design, mas também em relação à crítica de arte, de música, literária, de arquitectura, e por aí adiante.

E, se lhes é apontado que há crítica a ser escrita nos blogues, respondem que a verdadeira crítica sucederia nos jornais: se lhes dizem que há crítica nos jornais, respondem que não é crítica a sério, acrescentando que essa seria aquela que é praticada a um nível académico, de acordo com as regras da produção científica, com citações e bibliografia bem assinaladas, avaliada por um júri dos pares e publicada numa revista credenciada. Se por acaso lhes lembramos um trabalho do género que descrevem, corrigem-nos dizendo que a pessoa que o escreveu não é um académico sério, acrescentando uma série de mexericos que servem para atestar a falta de seriedade do suposto crítico.

No fundo, todas estas sucessivas negações não passam de uma forma de snobismo.

Ilustram também um problema de definição. Dão a entender que, para haver crítica não basta haver um juízo articulado sobre um objecto, mas que esse discurso depende do meio em que é expresso, das instituições que o legitimam e finalmente do carácter da pessoa que o produz. O problema é que estas definições vão mudando ao longo da conversa, colocando-se sempre fora do alcance do interlocutor. Seria útil lembrar, talvez, aquela velha regra que afirma que um discurso deve ser julgado por si mesmo, pelos factos que refere, pela sua consistência argumentativa e não pela pessoa que o produz, pelo meio onde é transmitido ou pelas instituições que o apoiam ou negam.

Dito isto, há realmente crítica em Portugal, mas existe espaço para mais, melhor e mais variada. Tanto o discurso académico como o jornalístico e o dos blogues cobrem algumas necessidades, mas não todas. Seria necessário haver mais géneros de crítica. Não apenas quanto ao formato – recensões, ensaios, artigos, livros, documentários, etc. –, mas quanto ao tipo de análise – crítica formalista, marxista, feminista, pós-colonialista, etc.

Recuperando um tema de alguns textos atrás, numa era de abundância seria útil um público mais exigente e mais crítico, mas, para isso, seriam precisos exemplos constantes e variados, e portanto mais e melhor crítica.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

One Response

  1. carlos diz:

    pois, compreendo-o.
    tenho uma comichão no ouvido e não consigo lá chegar.

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