The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Altos e Baixos

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Uma das histórias mais típicas de Hollywood é a do herói bem estabelecido, com uma vida feliz e segura que, por qualquer razão – a acção de um inimigo, do destino ou dele mesmo –, perde tudo, tendo de trabalhar arduamente para o recuperar. No fim, acaba por alcançar uma existência mais sólida que a original, vivendo feliz para sempre.

Na vida real – sobretudo se essa vida pertence a um designer –, as coisas nunca são assim tão simples.

Embora as biografias de designers famosos dêem a entender uma progressão linear e segura, ultrapassando todos os obstáculos em direcção a mais e melhor design, não há nenhum designer que, de quando em quando, não se descaia. Nem se trata de dizer que no melhor pano cai a nódoa, mas que o design é uma actividade difícil, fatigante e extremamente negociada. Todo o designer está sujeito a um sem número de pressões enquanto um trabalho está a ser feito que afectam em maior ou menor grau a sua qualidade final. São raros – diria mesmo “nenhuns” – os que conseguem manter uma qualidade constante no seu trabalho ao longo de toda a carreira.

Porém, quando se escreve a posteriori sobre a vida de um designer, a tendência é todos os seus trabalhos serem subtilmente subtraídos à influência maligna do cliente, do público e do resto, passando a pertencer unicamente ao designer. Com a ajuda de um bom biógrafo, podem-se passar a ferro mesmo os vincos mais teimosos de qualquer carreira, eliminando aqui e ali os momentos embaraçosos – mas, procurando bem, eles lá estarão. No meio das capas da Almanaque, Sebastião Rodrigues ainda arranjou tempo para o logótipo fanhoso da APD; mesmo a mão segura de João Faria produz, de vez em quando, um cartaz mais fraco para o TNSJ, como o do Mercador de Veneza ou o da Cidade dos que Partem; ou então, as últimas capas produzidas pelo atelier de Jorge Silva para a colecção Bis da Leya que trocam as admiráveis imagens contrastadas, agressivas e escuras dos primeiros livros por aguadas mais brandas e convencionais.

Felizmente, para cada trabalho que desce há outro que sobe. Um bom exemplo é a Casa da Música que, depois de anos à deriva, a maior parte deles antes de ter adoptado a imagem gráfica concebida por Stefan sagmeister, alguns depois, parecendo hesitar sobre o que fazer com ela, está finalmente a produzir com regularidade trabalho seguro e, nos últimos meses, tem conseguido construir e manter uma imagem elegante e inteligente.

Mas, apesar de tudo, são raras as biografias e mesmo histórias do design que têm em conta a instabilidade inerente no percurso de um designer ou dos seus trabalhos. Uma das excepções é o livro de Stefan Sagmeister, Made You Look, onde ao lado dos trabalhos mais conhecidos aparecem também os deslizes, os tiros no pé e os pãezinhos sem sal, avaliados com uma nota pelo designer como se fossem trabalhos de escola. Também tenho curiosidade para ver Design Disasters, uma colecção de ensaios sobre falhanços editada pelo abundante Steven Heller.

Aquilo que se diz dos designers é também possível dizer do próprio design. Também o percurso do design tende a aparecer nos livros de história como um progresso continuo, que deixa adivinhar, no futuro, um design cada vez mais perfeito, cada vez mais puro. Mas olhando com mais atenção também é fácil ver que nem sempre é assim. A história não avança de um modo continuo, e isso é bastante visível no design português, cuja história se empoleira em cima de meia dúzia de datas, eventos e personagens como numa jangada escangalhada.

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Filed under: Cliente, Crítica, Cultura, Design, História

2 Responses

  1. LC diz:

    Ótimo texto.
    Remédios vêm com bula; infelizmente projetos não.

  2. O design não é uma ciência. Sem fórmulas resolventes, os resultados serão sempre subjectivos: certos para um, errados para outrém. O erro é um atributo humano,e faz parte do processo: é preciso errar para se fazer um bom trabalho e daí a razão de respeitar os erros. Hoje em dia, parece existir uma procura do erro, porque o offset, por exemplo, não traz o rude da impressão da antiga tipografia. O que é irónico é que, depois de se aperfeiçoar o erro, se procura mimetizar o próprio erro, e a aleatoriedade. Por mais que possamos apelar à perfeição e à clareza, em contraste também gostamos do desafio de lidar com as imperfeições.

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