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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Opinião Pública

Nos comentários a um dos posts que escrevi sobre a nova imagem de Serralves, foi sugerido que escrevesse uma carta aberta a um jornal protestando a situação. Depois de ponderar bastante, acredito que essa não é a solução. Afinal, não se trata de um problema ético ou legal, mas crítico. Seria tão desadequado como escrever uma carta aberta sobre a qualidade de uma das exposições de Serralves.

Fá-lo-ia mais depressa para me queixar da falta de cobertura crítica ao design nos jornais, televisão e revistas. Isto porque o problema não é tanto Serralves ter decidido escolher um logótipo que alguns designers acham mau – sendo eu um deles –, mas que a imagem gráfica de uma instituição com a importância de Serralves não tenha sido debatida ou comentada em lado nenhum.

Ou seja, depois de pelo menos quarenta anos de presença em Portugal, o design ainda não é visto como um assunto de interesse público. A principal razão para isso é que os próprios designers não o vêem como tal. Só assim se explica que, ao longo de todo este tempo, se contem pelos dedos as publicações, eventos e mesmo intervenções públicas sobre design (críticas, cartas abertas, o que quer que seja). Não se trata de falta de pessoas que as leiam – afinal, há bastante audiência para publicações internacionais –, mas de falta de pessoas que as façam.

As últimas décadas do design português foram passadas a tentar atingir um certo patamar de legitimação legal e institucional, através da criação de cursos universitários, de associações, dos esforços para criar uma ordem e por aí adiante. Muita gente acredita, inclusive, que só alcançando esse patamar haverá condições para o design ser levado a sério enquanto assunto de interesse público. Contudo, é cada vez mais evidente que, se o lado institucional do design se vai fortalecendo, o lado da intervenção pública continua murcho e, se não fosse pelo aparecimento da internet e dos blogues, a opinião crítica  sobre design publicada em Portugal seria virtualmente inexistente.

A consequência de um lado institucional hipertrofiado, sem um debate público que o sustente e contrabalance, é a tendência a tentar resolver problemas de crítica através de soluções legalistas, roçando a possibilidade – tentadora, mas absurda – de criminalizar o mau gosto. Uma alternativa bem mais razoável seria considerar a capacidade de formular uma opinião crítica como uma das aptidões básicas de cada designer, tão útil e natural como saber fazer um bom kerning ou calcular um orçamento, começando também a ensiná-la nas escolas como tudo o resto.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino

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