The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Portugal Profundo

photo-42

Há algum tempo atrás, fui convidado a participar na elaboração de um guia sobre design português. Deveria ter secções de arquitectura, moda, design de produto, subdivididas de acordo com zonas do país – Lisboa, Porto, Norte, Centro, Sul e ilhas. Eu estava encarregue da parte dedicada ao design gráfico.

Depois de algum trabalho preparatório, o guia acabou por não arrancar. No entanto, revelou um problema que ainda hoje me incomoda: apercebi-me que quase todo o design que eu conheço, seja ele bom ou mau, de grande ou pequena escala, é feito no Porto, algum em Lisboa, um pouco em Coimbra e quase nenhum no resto do país.

Durante as semanas em que  trabalhei no projecto, andei obsessivamente à cata de ateliers fora dos grandes centros, usando o Google, perguntando a amigos e conhecidos, folheando catálogos, anuários e jornais. Aqui e ali, fui recolhendo nomes e imagens, histórias e anedotas. Descobri trabalho interessante no Algarve e Alentejo, regiões que eu mal conhecia em termos gráficos; ouvi falar de um designer que trabalhava na zona centro a partir de uma carrinha – nunca cheguei a confirmar se não passava de uma lenda urbana (neste caso, rural). Entretanto, fui ficando com a sensação que o design português – ou pelo menos o conhecimento que se tem dele – é citadino e, na melhor das hipóteses, litoral.

Dei-me conta de como é difícil encontrar informação sobre design através de jornais, revistas ou livros. Os poucos anuários de publicidade e design centram-se quase exclusivamente no trabalho produzido nos grandes centros, com muito poucas excepções. Procurar portfolios de designers em sites de ateliers é uma hipótese exaustiva, e em muitos casos nem sequer é referido se os trabalhos foram realmente realizados. Investigar nos sites de câmaras municipais ou de eventos culturais parecia uma boa  ideia, no entanto, não é comum incluírem exemplos de cartazes, flyers ou livros – e, de qualquer maneira, isso só resolveria o problema do design cultural. Talvez haja também design ligado à agricultura, artesanato, indústria ou turismo que valha a pena ver, mas como lhe chegar?

Idealmente, a melhor forma de conhecer o design de um local seria viver lá durante algum tempo: ir conhecendo os sítios e os eventos, perceber se há cartazes e flyers, se há catálogos ou livros, se a sinalética é bem cuidada, se as instituições têm boa imagem. Como é evidente, a estratégia também se aplica às grandes cidades – apesar de toda a divulgação que têm os eventos de Lisboa, só uma pequena parte chega ao Porto e vice-versa. Talvez fosse possível fazer uma crítica itinerante, indo de cidade em cidade, tentando descobrir o design de cada uma. Seria precisa também alguma sorte: o design é uma coisa efémera e, para o encontrar, é preciso estar no sítio certo, à hora certa – ao contrário da arquitectura ou do design de equipamento, deixa muito poucos vestígios.

De modo mais realista, talvez fosse possível que as associações de design, o CPD ou as universidades e politécnicos, cujos cursos de design pintalgam o pais, pudessem organizar eventos ou publicações regulares que permitam perceber e registar quer o design dos grandes centros, quer o design mais periférico.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

5 Responses

  1. ed diz:

    Sim, Mário… Concordo! O Design com maior visibilidade vai sendo feito nas grandes cidades, Porto e Lisboa, sem dúvida. Mas, algumas coisas vão sendo feitas noutros locais. Mais acima do Porto, e ainda aqui no nosso país, temos o caso de uma pequena autarquia, Ponte de Lima, que, com alguma estratégia de comunicação, tem a preocupação de contratar designers para realizar diversos projectos de comunicação gráfica. Já em Viana do Castelo, a opção pela contratação de designers para a elaboração de projectos gráficos é um pouco mais limitada. No entanto, os trabalhos do designer Rui Carvalho são os que merecem maior atenção.

  2. Maria diz:

    Lenda urbana ou carrinha amarela? 🙂

  3. Infelizmente tenho de concordar. Falo com conhecimento de causa, mas consigo talvez arranjar um porquê. Como é sabido, o design (especialmente o gráfico) vive da cultura e de iniciativas camarárias e são poucas as câmaras ou entidades que têm dinheiro para investir na qualidade do design, quando muitas destas apenas querem é ter ‘qualquer coisa na rua’, para dizer que se fez ou se tem, movidos mais por propaganda política do que os interesses públicos. E fora deste âmbito, o que se faz mais nesta zona vive de imobiliário e turismo. Para além dos espartilhos e talas que nos são colocadas pelas entidades que “têm sempre sugestões a fazer” quanto ao trabalho apresentado, as guerras renhidas nos concursos públicos reduzem os preços de uma forma drástica, com o qual a qualidade não pode competir. Para piorar a situação, quando se procura um ‘bom trabalho’, recorre-se ao trabalho das grandes cidades que é pago a peso de ouro, quando se poderia fazer algo com o mesmo nível localmente, apenas sendo preciso procurar e dar oportunidade para(mas com dificuldade, admito). Ora, ou se perde o trabalho para um preço demasiado alto, ou se perde para os pseudo-ateliers por um preço ridículo, forçando os bons ateliers a uma ginástica orçamental, que se aproxima das posições avançadas do yoga. Chega a ser desesperante…

  4. cristina diz:

    não concordo. há muito bom design fora “dos centros urbanos”, e há cada vez mais pessoas sensibilizadas para isso! o que se passa é que toda a gente “faz design”, ou pensa que faz! o que reduz o trabalho a quem realmente o quer fazer bem! e apareça coisas muito mal feitas!

  5. […] tempos, já me tinha queixado do desconhecimento que existe sobre o design praticado e ensinado fora dos grandes centros, uma […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: