The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Design ao Metro

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Esta semana recebi o forward de um mail do designer Gonçalo Falcão alertando para o facto da agência Brandia ter ganho o concurso para “o projecto de comunicação do reposicionamento” da linha B do metro do porto, avaliado em cerca de cem mil euros. O problema, segundo Falcão, é que a Metro do Porto é uma empresa controlada a quase oitenta por cento pelo Estado, e a Brandia deve entre um e cinco milhões ao Estado. Aparentemente, mais outro caso do dinheiro de impostos a ir parar às mãos de quem não os paga.

Nos tempos que correm, não é coisa que espante por aí além. Afinal, até os governos de esquerda falam de privatizar e reduzir o peso do Estado e não há melhor maneira de conseguir isso do que promovendo quem não cumpre os seus deveres para com ele.

Porém, se a questão económica indicia um grave atropelo do interesse público, dá-me a sensação que o problema maior – pelo menos em termos de design – fica por tratar: mais uma vez, uma campanha de informação pública é despachada como se fosse a venda de um produto qualquer de consumo e isso reflecte-se bem no trabalho desenvolvido pela Brandia.

Em termos de conteúdo, é uma campanha ambígua. Usa frases curtas e directas – “Um metro de 15 em 15min”, “Um expresso de 30 em 30min” – mas, precisamente por serem tão telegráficas, dá a sensação que estas informações se dirigem mais a quem já usa a linha B do que ao utilizador comum. Quem só anda de metro no centro, ou quem não o usa muito, acaba por não perceber muito bem o que mudou: a linha expandiu? Os horários desdobraram? Abriram mais estações? Vai haver um expresso cada meia hora? Isso é mais ou menos do que antes? Por falta de informação, os anúncios reduzem-se a slogans soltos que não acrescentam muito.

Calculo que a ideia – como tantas outras vindas do marketing – seja alimentar a curiosidade migalha a migalha: vá à loja, comece a usar os nossos serviços, e tudo será evidente. O grande problema é que não é. No Metro do Porto, a sinalética continua a ser fraca, quer a que orienta as pessoas através das estações, quer a que as ajuda a navegar pelas linhas. Comprar viagens – sobretudo no que diz respeito às zonas – continua a ser um processo aflitivo para quem não está habituado. É bastante comum apanhar gente perdida pelas estações, embasbacada em frente aos pontos de venda ou aos regulamentos que ocupam uma coluna larga, longa, compacta e ilegível. Deveria ser evidente que a maioria da sinalética do metro se dirige a quem o usa pela primeira vez e não a quem já sabe tudo o que há a saber.

Não vai ser, sem dúvida nenhuma, a tendência crescente de confundir informação com publicidade que irá resolver qualquer um destes problemas.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, ,

7 Responses

  1. Li diz:

    Parece-me que todos os projectos públicos, ou para empresas cuja maioria do capital é público, deveriam ser sujeitos a concurso público, de regras claras (claro!), e com júri eficiente (…pois). Concursos bem feitos não significam processo burocráticos complicados nem arrastados, mas a possibilidade de obter resultados melhores – em termos de conteúdo e de orçamento, com benefícios para cliente e fornecedor de serviços.

    Tal permitiria também o aumento de uma competitividade saudável, bem como traria mais possibilidades para designers mais novos e gabinetes mais pequenos/menos conhecidos. Claro que nem todos os concursos poderiam ser conseguidos por estes – seguramente que lhes seria difícil vencer projectos de maior complexidade -, mas teriam ainda assim uma míriade de oportunidades a pequena-média escala.

    Poderia ser esta uma forma interessante do Governo (nacional e local) investir no design, no jovem empreendedorismo, na competitividade, na criatividade, na distribuição de riqueza, na igualdade de oportunidades, e em tantos estandartes da política contemporânea.

  2. A sinalética da Metro do Porto não é fraca. A sinalética da MP tem muitas fraquezas.

    A Metro com o passar dos anos, talvez por vaidade, tem publicitado mais a sua imagem (a imagem dos seus responsáveis?) do que tem investido em resolver os problemas inerentes à comunicação do seu sistema que, saibamos dizê-lo, está longe de perfeito.

    Vale a pena realçar que não se trata de um problema de design gráfico mas sim de gestão do design de comunicação, e mais grave ainda de sistematização do processo de utilização do metro.

    O sistema de zonas é muito complexo. Em Portugal não conheço um caso em que tenham chamado um designer para ajudar a resolver um problema deste género.
    É um sistema de circulação aberto mas que ao mesmo tempo traduz o que se passa em termos administrativos nos transportes do Porto.

    Senão vejamos… As zonas que as linhas atravessam foram definidas para dividir justamente o dinheiro proveniente da venda dos títulos. Esta divisão foi feita sem ter em conta o modo como o utente lida com o facto. Consequentemente a validação cada vez que se muda de linha torna-se obrigatória para ajudar a contabilizar.
    As coisas tornam-se ainda mais insólitas quando se examina este sistema e notamos que incrivelmente existem alguns conflitos de critérios sendo que às vezes até se paga mais para usar menos.
    Quando os conteúdos estão tortos o designer de comunicação só não faz melhor porque não pode, porque não o convocam para redesenhar os conteúdos. Quem não sabe destes problemas, critica – justamente – o que está mal, independentemente de quem fez ou tem a responsabilidade.

    A sinalética da Metro do Porto foi originalmente desenhada como uma linguagem interpretável. Ou seja: havendo o mínimo de interesse ou necessidade, entende-se. Mais ainda, se as regras forem respeitadas em todos os objectos que manuseamos relativos ao metro, revertem para uma consolidação da imagem, sendo que se continua a ensinar a si própria e a poder desenvolver-se. Esta linguagem tem definidos vocábulos e modos de articulação entre eles e a maior parte das pessoas que a usa correntemente aprende a interpretar os significados. Eu diria que os princípios são, em geral, óbvios. Tratá-los como a Brandia o fez é que não ajuda.

    O problema é que os gestores das empresas julgam que estão a gerir um um clube de futebol onde têm de ter vários jogadores para diferentes posições. Em design de comunicação, quando um cliente pretende afirmar uma posição, ter vários designers com atitudes diferentes não ajuda. Como aconteceu na Casa da Música no início…

    No campo da comunicação (uma espécia de comunhão distanciada), sabemos que sem haver o mínimo de respeito próprio e estabilidade não conseguimos comunicar com a certeza necessária a personalidade.
    E a Metro do Porto está a brincar com isto como se fosse um supermercado.
    A sinalética da Metro foi desenhada pela Sino Design em 2002, a distribuição da informação pelas estações foi planeada pela Normetro, o nome das estações em aço, nas paragens, foi colocado pelo Souto Moura acima da área visível do interior da carruagem, o Andante foi criado
    por outro designer, o Mapa de Transportes Intermodais foi feito na Garra, esta campanha dos expressos na Brandia, e o resultado está à vista. Na verdade, o designer, é chamado a intervir para desenhar os bonecos, porque os engenheiros não sabem desenhar bonecos. Mesmo quando participa num trabalho de equipa, ele é reduzido a esse rabo de trabalho, porque tudo o resto ou está decidido ou tem razões insondáveis. Não obstante, somos tão culpados como qualquer outro, porque, como colectivo, também não temos mostrado iniciativa para muito mais. Isto sim, é também um problema de fundo que não vai lá tão depressa.

    Esta é daquelas situações em que o dinheiros dos clientes dos utentes está a ser usado contra eles e as tarifas assim não vão descer, as máquinas de venda vão continuar avariadas. Os invisuais ainda não têm a mesma acessibilidade que nós.
    Felizmente, sabemos que a Linha B parece outra. Lá nisso, foram honestos.

    http://i164.photobucket.com/albums/u29/joaoalvesmarrucho/metro_linhab.jpg

  3. 1. Os concursos raramente são um meio eficaz para resolver problemas de comunicação e informação, porque quem concorre, não está interessado em contribuir para resolver os problemas, mas sim ganhar o concurso.

    2. Normalmente as questões de informação, sinalização e wayfinding não se resolvem só graficamente. É necessário um envolvimento com o problema e a procura de soluções que podem nem sequer ser visuais.

    3. A actual sinalização e informação do metro do Porto é, a meu ver, medíocre. Uso-a frequentemente como um exemplo do que não se deve fazer. Ao que sei é da R2, uma empresa que, normalmente, desenvolve muito bom trabalho. Se a sinalização foi desenvolvida em contexto de concurso é um caso eloquente.
    4. Não creio que este processo esteja nos governos de esquerda ou de direita e na promoção maior ou menor de incumpridores, mas antes numa classe que tem uma aversão extrema a práticas deontológicas sadias e que trabalha por sistema de forma depreciativa e desvalorizadora.

    Gonçalo Falcão

  4. De acordo com o catálogo (P) Portugal 1990|2005, a sinalética do metro do Porto é da autoria da Sinodesign (Anselmo Canha, Pedro Mesquita, Luísa Carvalho e Graça Mendonça) e não dos R2.

  5. Obrigado Mário pela importante correcção; a atribuição aos R2 será então um mito urbano

  6. Ernesto Guevara diz:

    Não posso deixar de responder por achar que algumas pessoas de valor dentro da empresa Metro do Porto estão a ser postas em causa.
    1. É inquestionável que o zonamento e toda a questão da bilhética são extremamente complexas.
    2. Sei de fonte segura que o desenvolvimento gráfico de toda a parte relacionada com mapas e explicação dos zonamentos teve a contribuição de um designer gráfico.
    3. Esse designer fez parceria com pessoal interno da MP (maioritariamente engenheiros) que levaram a sério as questões levantadas pelo designer gráfico.
    4. Agora também é verdade que existe uma verdadeira anarquia nos Departamentos da MP, onde cada responsável eleva o seu ego como quer.
    5. E qual seria a solução? Se calhar não há, mas ajudava bastante criar uma autoridade na área dos transportes que fosse responsável pela uniformização dos conteúdos…

    E atenção que, tudo o que tem vindo a ser feito, tem ainda o dedo dos outros operadores de transportes públicos, ou não fosse o andante intermodal (quanto a mim, o verdadeiro grande erro do MP: não ter um bilhete próprio)

  7. PJ diz:

    aposto que este é um site de designers ressabiados do porto.

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