The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

5 Years

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Desde que comecei este blogue tenho evitado os aniversários e as efemérides, mas hoje – 26 de Março – o Ressabiator faz cinco anos, meia década. Já é algum tempo, e talvez valha a pena comemorar a ocasião com uma espécie de balanço, falando de coisas que ficaram por dizer, voltando aos velhos assuntos com uma nova perspectiva, tentando perceber como tudo começou.

Um ano antes de iniciar este blogue, tinha concluído a minha tese de mestrado, um esforço que, nos tempos folgados antes de Bolonha, se traduziu em dois anos e meio de escrita, ajudado por um Word sem corrector ortográfico e por uma pilha de prontuários, através dos quais tentava recuperar o meu português escrito, perdido desde que tinha decidido tirar o curso de design, no começo da década de noventa.

Não é que não tenha escrito durante o curso. Na minha turma era conhecido como alguém a quem se podia pedir, duas ou três vezes no ano, textos curtos para publicação, em geral sobre ilustração e banda desenhada. No entanto, durante um ano lectivo, a escrita reduzia-se às frequências, a uns quantos trabalhos anuais e a poucas e breves memórias descritivas.  Não era muito, sobretudo se comparado com os setenta e tais textos que actualmente escrevo no mesmo período de tempo.

Era um curso pragmático, numa época pragmática, uma situação frustrante para quem, como eu, gostava de ler crítica, fosse ela sobre banda desenhada, arte, literatura ou música. Mesmo publicações como a Eye ou a Emigre, que na altura já eram muito discutidas dentro e fora das aulas, pareciam-me pacatas comparadas com a escrita sobre banda desenhada ou sobre música, muito mais agressiva, complexa, estimulante e regular.

Há quem diga que as coisas melhoraram, com a criação de mestrados e doutoramentos em design, mas isso não se traduziu numa discussão crítica que transcendesse as escolas. Em geral, o alcance de uma tese ou de um paper ainda é muito pequeno, reduzindo-se a um ou dois exemplares na biblioteca de uma universidade ou a um ficheiro pdf online. Entretanto, fora das escolas, continua a não haver conferências, revistas ou livros que sustentem uma discussão regular sobre design.

Assim, enquanto terminava a minha tese, apercebia-me que, se o design português crescia, não havia uma actividade crítica que o acompanhasse. Parecia que todas as semanas acontecia qualquer coisa, escabrosa ou estimulante, cuja discussão se limitava ao café ou ao corredor, e as notícias corriam de boca em boca, sem nada que as registasse. A história do design português resumia-se a um relato oral.

A minha ideia para aliviar a situação era fazer uma revista chamada The Ressabiator, com um nome e um design que fazia lembrar vagamente O Seringador. Era também um trocadilho, uma palavra inglesa construída a partir de uma palavra portuguesa (e não o contrário, como é costume). O objectivo era produzir com regularidade um discurso crítico que cobrisse, melhor ou pior, os problemas do design português. O projecto acabou por se arrastar e falhar porque entretanto descobri os blogues.

Depressa publiquei na net todos os textos que tinha guardado para a revista. Nos primeiros meses, ainda tinha uma espécie de reservatório de ideias para utilizar mas, com o tempo, foi-se esvaziando e, durante os últimos dois anos, tem sido muito raro saber de antemão sobre o que vou escrever na semana seguinte. Mesmo quando tenho um assunto, nunca sei exactamente qual será a minha opinião antes de terminar o texto. Num dos contos de J.G. Ballard, fala-se de uma aranha mutante cuja teia é uma extensão do seu sistema nervoso. A aranha lida com situações novas tecendo novas teias que ajustam a sua inteligência aos problemas que tem de resolver. A escrita é, para mim, uma coisa semelhante; não se trata tanto do registo de uma opinião, como de uma forma de pensamento.

Nestes cinco anos, fui mudando também a forma como defino a minha identidade através da escrita. Comecei por escrever os textos anonimamente. Era uma maneira dos meus argumentos serem avaliados por si mesmos e não por quem os dizia; o que não impedia que, nos comentários, aparecesse bastante especulação sobre assunto: alguns textos eram desvalorizados por eu não ser alguém com autoridade, outros eram descartados por eu ser um professor e não um praticante, outros ainda rebaixados por eu, supostamente, ser do Porto (nasci em Lisboa). Tentando acabar com o problema, comecei a assinar os textos. Mesmo assim, aparece de vez em quando alguém com a velha história do “quem és tu para falar sobre isso?” A resposta continua a ser “Ninguém.” Não interessa verdadeiramente quem escreve mas aquilo que é escrito.

Quando comecei a escrever, lembro-me de me dizerem num corredor (é sempre num corredor) que ainda era cedo demais para haver crítica do design em Portugal, as coisas ainda estavam muito turvas, ainda havia muita confusão, muita imaturidade. Daí a alguns anos, talvez. Na altura, já o suspeitava, mas cinco anos depois tenho a certeza: a opinião não amadurece se não for usada; a crítica é uma ferramenta que só pode ser afinada com o uso. Quem fica à espera da maturidade para ter uma opinião, nunca há-de chegar a tê-la.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

18 Responses

  1. Tiago Machado diz:

    Porquê o Seu Jorge? 🙂

    Infelizmente é verdade, critica construtiva de design é zero em Portugal, destrutiva é ao chuto (e só isso é um indicio).

    Mas isso também é explicado pelo facto de não haver sequer uma publicação de QUALIDADE sobre design em Portugal (falo apenas do de comunicação obviamente). Ainda por cima quando temos tanta oferta em lingua inglesa, torna-se complicado qualquer projecto sobreviver se não igualar, no mínimo, as existentes.

    As extintas personal views da ESAD eram um serviço público que muito agradeço, fizeram muito pelo design no Porto (e provavelmente trouxeram cá personagens que nunca cá viriam de outra forma)… E as exposições no Silo do Andrew Howard também, pelo menos pela divulgação e sensibilização junto de um público mais leigo.

    Faltam discussões e mesas redondas sérias (enfiar uma porrada de gente que não se pode ver desde que saiu da faculdade dentro de uma sala não conta!). Digo isto porque a última vez que me lembro de ter uma “mesa redonda” sobre design no Porto foi no MNSR, organizada pela morta-viva APD, e aquilo de construtivo/produtivo teve muito pouco.

    Enfim, 5 anos, quero ver mais.

    Parabéns e força.

  2. cruz diz:

    Parabéns Mário. Belíssima, a ideia de escrever para pensar.

  3. J&M diz:

    Parabéns! Ainda me lembro quando te conhecemos à 4 anos atrás, nas Caldas e nos passaste o teu entusiasmo pela escrita… Pouco depois começamos o nosso blogue 🙂 O Ressabiator sempre foi referência e o nosso incentivo. Continua!

  4. Hugo diz:

    Felicitações.

  5. Jorge Naper diz:

    Mesmo que não participe activamente e contribua nas discussões, sou um leitor assíduo e sei que é bom haver feedback para acreditarmos que a nossa mensagem passa a ainda mais pessoas do que imaginavamos. Bom, aproveito este post para deixar aqui o meu.

    Penso que um próximo passo poderia ser mesmo uma mesa redonda, muito bem preparada e estudada. Há espaço para isso, creio…. Isto, pois ainda acredito que no café Belas Artes se falou mais de design do que em qualquer blogue ou publicação.

    Parabéns Mário e ao teu Ressabiator.

  6. Pedro Cortesão Monteiro diz:

    Parabéns, Mário. E obrigado,

    p.

  7. Pedro Cortesão Monteiro diz:

    Ah, e já agora, mais um excelente texto. Uma bela forma de comemorar(mos) 5 anos do Ressabiator.

  8. João Lima diz:

    Parabéns!

    ”Venham mais cinco. Duma assentada.”

  9. Fazer crítica envolve sempre uma forma de resistência. Fazê-la em português e sobre o design português torna esse trabalho de resistência – à indiferença, à distração, ao desinteresse, à inacção – mais difícil mas também mais meritório. O Ressabiator é um dos raríssimos foruns de discussão sobre design e isto já é significativo. Mas num momento em que o deserto aperta – anuncia-se agora o fim do Silo que vinha acolhendo as exposições do Andrew Howard – a possibilidade de, semanalmente, podermos ler, pensar e discutir um bom texto sobre design deve ser realçada.

  10. Parabéns Mário,
    que a aranha teça mais teias.

  11. B.O. diz:

    Parabéns Mário! Pelos cinco anos de “acutilante” e persistente crítica sobre o design português, quebrando barreiras de uma resistência feroz.
    Espero que a tua voz se faça ouvir durante mais anos ainda.

  12. João Alves Marrucho diz:

    Obrigado.

  13. Antes de mais, parabéns Mário. Confesso não ser um seguidor de há muito, mas simplesmente porque não sabia existir um blog que, com 5 anos de avanço, partilhe do mesmo sentimento. Eu próprio sinto o que descreveste na pele: que não tenho autoridade ou credibilidade por não ter um mestrado, doutoramento ou documento carimbado que me possa diplomar os pensamentos(é necessário, no entanto, dizer que não o tenho porque não existe ainda um curso merecedor do meu interesse tão específico, porque vontade existe muita). Se eu entendo a escrita como o o amadurecimento do pensamento, então a extensão, como propões, será consequência? A crítica fortalece o trabalho e vontade, pois para o design(er) não existe maior inimigo que a estagnação, a conformação. Continua a escrever. A ideias registadas muitas vezes surpreendem-nos porque mais tarde lemos o que nos demorou (outra vez) a concluir, ou por outra, mostra-nos o que já evoluímos. Grande abraço, e mais uma vez parabéns pelo conseguido.

  14. Luis diz:

    Parabéns, e que muitos mais venham…

  15. José Carneiro diz:

    “Oh oh
    Five years
    E de norte a sul
    É minha sina
    Five years
    Quase nao vi nada nesses
    Five years
    E de norte a sul
    É meu viver há
    Five years
    Oh oh”

    Um sincero obrigado

  16. Wilfrid Sá diz:

    5 anos ou qualquer dia a mais que passa com
    o THE RESSABIAROR são de estimar e merecedores de parabéns! Portanto Mário aqui vão os meus parabéns de um leitor assíduo dos teus textos que fazem do design português. Vontade de comenta-los não falta mas por pressão externa e as vezes por falta de conhecimento não o faço simplesmente mas delicio-me a lê-los.

    5 anos é também o tempo de minha (antiga) licenciatura (em design de comunicação no meu caso) que chega a termo no final deste ano. O que fica destes cinco anos? Uma formação incompleta feita a partir de furos de horários de professores que levem o ensino como um part-time? Uma aulas de História de Design que realmente foram o início do entendimento cronológico e não só da área que temos todos em comum o design. Trabalhos entregues a pressa porque Bolonha transforma anos em semestre? Ainda não sei o que fica no entanto ter o conhecido como professor e ser gratificado com os seus textos semanais é sem dúvida um dos poucos mas fortes incentivos a continuar a fazer e falar design no meu quotidiano.

    Parabéns!

  17. violeta diz:

    O meu irmão é o maior!! he he

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