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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Aldeia Potemkin

Não sei porquê, em Abril toda a gente quer textos – para revistas, para livros, para exposições – e a coisa tende a acumular. Neste momento, terminei quatro textos e estou a acabar um quinto. Para a semana tenho de fazer mais outro (sem contar com o post semanal). Além disso, o meu mail acumula-se em quantidades ainda mais estúpidas que o costume.

Quando os textos se amontoam assim, começo a pensar em esquemas para trabalhar menos. Começo a considerar pôr uma tabela de preços no blogue ou no cabeçalho do mail, para desencorajar os pedidos – embora duvide que isso funcione. Não há grande hábito de considerar a escrita – sobre design ou sobre outra coisa qualquer – como uma actividade que seja feita por outra coisa que não gosto.

Alguns dos textos que estou a escrever são pagos, outros não. Como seria de esperar, os segundos ultrapassam os primeiros. Seria interessante que os mesmos designers que se indignam com o design feito de graça, dedicassem um bocadinho da sua revolta à escrita sobre design feita de graça – mas não acredito que isso venha a acontecer. De qualquer modo, se só escrevesse por dinheiro, ou ganharia muito dinheiro ou escreveria muito pouco e a primeira opção é muito pouco provável.

Na realidade, só consigo escrever porque dou aulas de design. Um emprego paga o outro. No entanto, as coisas ainda assim são complicadas. Escrevo em parte porque, na universidade, há cada vez menos pensamento crítico. Sob o pretexto de promover investigação que seja imediatamente útil, acaba por se adiar a reflexão para melhores tempos que acabam por nunca chegar. Entretanto, é preciso alimentar a torrente interminável de papers, mestrados e doutoramentos, que pouca gente lê e que ninguém comenta. É como uma linha de montagem, ou melhor: como uma roda de hamsters, algo que serve para demonstrar a utilidade do ensino superior, pelo simples facto de manter toda a gente ocupada. De certa forma, é irónico que utilize o dinheiro com que me pagam para fazer aquilo que me pagam para fazer – quando poderia usá-lo para ir de férias, para comprar um carro, para o que quer que fosse.

No entanto, mesmo os benefícios duvidosos desta situação arriscam-se a não durar muito. Se o ensino superior antes de Bolonha já era uma aldeia Potemkin, uma fachada construída para mostrar progresso, agora é uma aldeia Potemkin 2.0 que dá tanto trabalho a manter como uma aldeia a sério (embora continue a não servir para nada). Ou seja, a roda de hamster é agora uma ocupação a tempo a inteiro. E, de resto, com o financiamento do ensino superior cada vez mais tremido, as escolas vão-se dedicar cada vez mais a projectos que lhes permitam ganhar rapidamente dinheiro sem levantar muitas ondas.

Se esta conjuntura não foi concebida expressamente para acabar de uma vez por todas com a pouca capacidade que o ensino superior português ainda tem para um pensamento autónomo e crítico, imita muito bem.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino

7 Responses

  1. ligia diz:

    Mário, estou contigo. O pior mesmo nem é pedirem os textos e não pagarem, mas nem sequer referirem, no momento do convite, que estes não são pagos. Se o lamentassem de uma forma educada sempre dissimulava aquilo que é, na maioria das vezes, não ausência de dinheiro, mas uma total falta de profissionalismo e de respeito.

    Parece que qualquer dia só se consegue trabalhar de graça!

  2. A tua acutilância é imagem de marca, a ironia tempero, mas agora consigo ler nas entrelinhas alguma frustração. Não esquecer que a roda para um hamster normalmente está também ela dentro de uma gaiola. Começo a pensar que aquilo que gostaria de fazer, dar aulas na universidade, que me obrigaria a expandir horizontes sem as pressões do mercado, e com as regras do “país das maravilhas” onde os clientes não colocam talas nos trabalhos, afinal acaba por ser uma arena de autopromoção do ego. Suspiro…

  3. O texto é interessante. Não concordo é com o estereótipo apresentado sobre a investigação no ensino superior. Os artigos científicos não têm de ser necessariamente superficiais nem desinteressantes. A maioria talvez o seja (infelizmente) mas é possível sair fora desta tendência.

  4. Tiago Cruz diz:

    Concordo com o Sérgio… Percebo o que queres transmitir e até percebo a desilusão… mas é perigoso “pintar” o ensino superior dessa forma. A produção de artigos científicos é importantíssima assim como a correcta/eficaz divulgação dos mesmos.

    Aparecem coisas muito boas, outras boas, outras menos boas e outras muito más! A questão que coloco é: será que também não há uma grande lacuna no que diz respeito ao apoio dado aos docentes para fazerem investigação…?

    • É bem mais perigoso pintá-lo como uma mera formalidade e, neste momento, com Bolonha é isso que está a ser feito. O apoio que está a ser dado aos docentes que fazem investigação é, na minha própria experiência, sobrecarregá-los com cadeiras e trabalho administrativo, enquanto os prazos para produzirem as suas investigações são sistematicamente reduzidos. As licenças para investigação praticamente não existem, e quando aparecem são apenas parciais. Não há tempo, espaço ou apoio para produzir investigação. As apresentações de papers a que assisti parecem-se mais com linhas de montagem do que com outra coisa qualquer. Enchem currículos, mas os poucos trabalhos com alguma qualidade são em geral atirados para o mesmo monte dos que não valem nada.

      No fim de contas, boa parte da investigação produzida em universidades é vista como uma formalidade para manter o emprego. Existe e existirá sempre gente que leva a investigação a sério, mas são uma minoria e o sistema não está a funcionar em seu proveito.

      E, no final, onde estão os resultados dessa investigação toda? Além da obrigação formal de apresentá-la perante uma sala cheia e deixar umas tantas cópias numa biblioteca, nada. “A produção de artigos científicos é importantíssima assim como a correcta/eficaz divulgação dos mesmos” – isso não está, pura e simplesmente, a acontecer.

  5. Celia Giménez diz:

    estão muito bem
    No Brasil os aluno universitários não escrevem, não querem escrever e ignoram a quem escreve, pois não vão ler o que escreveram.

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