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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Treta

orbe

Pela quinta vez, o Typographica publica a sua lista das melhores fontes do ano, o equivalente online aos Óscares da tipografia. A escolha de 2008 inclui quarenta tipos, aos quais se juntam cerca de noventa menções honrosas, o que até pode parecer muito, mas dos milhares – milhões? – que são produzidos cada ano, nem é uma selecção demasiado generosa. Para os organizadores, a quantidade de contemplados, maior do que o costume, corresponde a um aumento na qualidade da criação tipográfica actual – segundo eles, uma autêntica Idade de Ouro.

Tal como em outros anos, a lista reflecte também o bom nível da criação tipográfica nacional, com a presença do habitual Dino dos Santos com a Glosa, e a estreia de Rui Abreu com a Orbe.

Neste último caso, põe-se, no entanto, uma questão curiosa, que indicia problemas maiores dentro do modo como os designers se relacionam com a teoria, a crítica e mesmo a escrita em geral.

A fonte foi incluída por sugestão de John Downer, especialista em lettering, cujo trabalho mais conhecido é provavelmente o título da última série da revista Emigre. Embora elogie a fonte, Downer critica duramente o seu texto promocional – escrito pelo próprio Rui Abreu –, queixando-se do vocabulário, da coerência da justificação histórica e por aí adiante.

A criação tipográfica é, dentro do design gráfico, a sua área mais teórica, aquela que exige um nível maior de investigação histórica e rigor conceptual. Infelizmente, acaba por ser também – tal como já defendi noutro texto – uma espécie de teoria para quem não gosta de teoria, uma maneira de transformar a teoria num objecto de consumo. Este anti-intelectualismo leva a que muitos designers ainda sejam treinados para acreditarem que o melhor design deve valer por si mesmo, sem justificações, sem conversas, sem textos, fazendo com que considerem a escrita sobre o seu próprio trabalho como uma mera formalidade, chegando, nos piores casos, a vê-la apenas como uma maneira de dar a volta a clientes, público e colegas – não exactamente uma mentira, mas certamente uma treta.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Tipografia

10 Responses

  1. Os meus parabéns a todos os selecionados, em especial aos portugueses. Quando puder e precisar, compro-lhes uma “font”, ou pelo menos um tipo. É assim que se diz não é?

    Estive a ler a sinopse do Rui Abreu e a consequente crítica do Jonh Downer. Por toda a certeza com que o estrageiro afirma a sua opinião parece-me que ele conhece a história da escrita muito bem. Problematicamente, seu texto denota algum exibicionismo de domínio da terminologia e da história da escrita, em inglês. Não obstante, isso é secundário, pois sem escritos destes faltar-nos-iam textos cativantes. Estes que nos levam a investigar mais. Neste caso o passado da escrita e linguística, para que possamos fazer uma tradução e uma reinterpretação (enriquecida pelo nosso património e nossas ideias) dos termos e da história da tipografia.

  2. Caro Mário,

    “De certa maneira, as fontes são teoria para quem não gosta de teorias.”

    Esta parece ser a mais idiota e descabida afirmação que alguma vez lhe li!
    Basicamente o que o Mário diz é: Quem não é intelectualmente capaz, e se interessa por design, é designer de tipos!

    P.s. Eu também sou designer (de tipos).

    • Na verdade o que eu estou a querer dizer não é isso. Estou a falar de anti-intelectualismo e não de capacidade intelectual – duas coisas muito distintas. A Paula Scher, por exemplo, é comprovadamente anti-intelectual (já escreveu textos contra o ensino de teoria nas escolas) e parece-me ser intelectualmente muito capaz.

      Queria dizer apenas que, dentro de uma actividade extremamente anti-intelectual como o design, a criação de fontes é uma das poucas formas aceitáveis de produzir teoria.

  3. joana diz:

    Nunca é demais falar deste velho assunto, que aqui surgiu a propósito de “tipos”, mas que poderia surgir em qualquer outro contexto relacionado com as Artes.
    Devemos fundar a nossa actividade na habilidade ou no intelecto?
    Metaforicamente falando – “pensarão as mãos?”

    Este assunto levado à Educação das Artes, torna-se então um problema maior.
    Porque não se trata só do que se escolhe valorizar na prática pessoal, mas o que se entende ser o melhor para todos. Os meus professores estavam na altura muito perturbados com o facto de não se conseguirem definir e por isso valeu o “deixa andar”.

    O que não foi nada positivo. Porque não me apresentaram escolhas e não me ajudaram a fazê-las. (Ainda hoje penso se não devia processá-los por contribuírem para que o meu processo de aprendizagem regredisse.)

    Honestamente penso que uma prática segura e confiante deve sempre fundamentar-se no desenvolvimento intelectual. Mas, sem uma dose de instinto, não se vai longe.

    right?

    • Eu pessoalmente tenho grandes dúvidas que se possa ensinar o instinto.

      Como diz o tipógrafo Robert Bringhurst, aquilo a que chamamos instinto é, em grande medida, memória disfarçada, hábitos que não sabemos que temos.

      • Mário diz:

        Acho que não se consegue ensinar o instinto, mas podemos desenvolver o sentido de observação e métodos de aperfeiçoamento do nosso trabalho.

  4. Eu penso que existe uma grande diferença entre criar argumentos que justifiquem um trabalho específico em design (em qualquer área), e pensar a disciplina propriamente dita. O facto de argumentar justificadamente poderá nunca conseguir provar que um trabalho é bom, mas como todos sabemos, o design não é uma disciplina científica. Pensemos, por exemplo, na literatura. Poderemos sempre partir para áreas como a semântica, etimologia, semiologia ou semiótica da linguagem para avaliar um texto escrito, mas no final, o que interessa na realidade é a qualidade do texto, independentemente do domínio da estrutura da língua(?). Já há algum tempo “ouvi” que a escrita poderá ser entendida como uma extensão do pensamento, da cognição, e de uma forma muito grosseira, eu afirmo que a escrita força-nos a organizar os pensamentos, a estruturar as ideias, para que outros possam percorrer o fio condutor que suportou o nosso pensamento. É um facto que os designers não são identificados como profissionais que “sabem escrever”, que apenas estão conotados com “bonecos, desenhos,cores e coisas artísticas” mais do que produtores de conteúdos escritos, mas se estamos a falar de letras, de tipografia então eu penso que estamos a subir a um nível algo peculiar. Eu acredito que para se dominar a tipografia e as suas ramificações, como é o caso do typeface design, então terá de haver respeito, admiração e compreensão do que é a língua, e a escrita, e para que isso aconteça, a leitura e teorização será inevitável. Penso também que estamos de acordo em relação ao seguinte: a tipografia é um campo especialmente sensível às questões históricas e culturais, antes das artísticas, na medida em que antes do design ser ter emancipado como disciplina “independente”, já o layout, a paginação, o typeface design existia, daí que entenda que o design (de comunicação pelo menos) terá sido parido pela tipografia e não é preciso ser um Hollis para o afirmar. E quanto ao Bringhurst, esse senhor, poeta e dominador da escrita, seu objectivo, forma e conteúdo que confesso admirar, quanto ele se refere ao instinto, penso que ele se está a referir a um domínio tal da apreensão de experiência e conhecimento, que se transforma num processo automático sem aparente justificação argumentada. Eu muitas vezes, ao seleccionar um typeface para compôr texto, ligo-o de tal maneira ao contexto cultural e histórico com tal facilidade, que me parece inevitável que tenha essa solução. A questão da formatação, que muitas vezes poderá soar a instinto, resulta da experiência de milhares de tentativas conseguidas e falhadas, e que me desenha atalhos na concepção, transformando-se numa sensibilidade prática. Será apenas um ponto de vista de um tipófilo como eu?

  5. Mário diz:

    Se conseguir-mos agregar argumentos que mostrem que a nossa ideia ou teoria foi realmente pensada com cuidado é método, e não “amalgamada sem consistência” acho que podemos ser considerados intelectualmente capazes.

  6. Mário… “conseguir-mos”? Se fosse um jornalista da TVI ou tradutor das séries do AXN eu perdoava esse erro ortográfico. ;P Faz-nos mal ver constantemente este género de coisas. Começamos a duvidar da nossa própria escrita…

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