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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

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Aquilo que define uma ilustração – por oposição a um mero desenho com um tema literário – é o facto de conviver fisicamente com um texto, evento ou objecto. Uma ilustração é feita de propósito para aparecer nas páginas de um livro ou de uma revista e não para ser um objecto autónomo. Do mesmo modo, um quadradinho numa banda desenhada não funciona por si só, mas faz parte de uma narrativa maior. Expor ilustração e banda desenhada é, portanto, uma tarefa peculiar na medida em que, inevitavelmente, destrói o seu objecto, isolando-o do seu contexto. A relação entre o desenho e o seu tema perde-se.

Há, no entanto, um certo apelo em olhar isoladamente para imagens criadas especificamente para uma narrativa – sejam elas ilustrações, quadradinhos, pranchas ou fotogramas. É como se entrássemos numa história a meio, quando o enredo já vai denso e os personagens dizem as suas deixas, em lugares que nos deveriam parecer familiares, sem que haja qualquer tipo de apresentação, trocando olhares significativos que não podemos compreender. As ilustrações de João Maio Pinto dão esta sensação, criando imagens em que há a promessa constante de uma narrativa.

Em paisagens alternadamente ermas e geladas, tropicais e viçosas acotovelam-se personagens cartoonescos ou realistas, inverosímeis ou históricos, discos voadores, demónios, divas, actores, monstros, animais – seria possível falar de um Hieronimus Bosch mais interessado em tatuagens de iconografia pop do que na mística cristã. A tensão de um enredo está sempre presente, algo de importante está sempre prestes a acontecer, uma viagem a um lugar misterioso está sempre em vias de ser empreendida, vegetação entra por casas abandonadas depois de um qualquer cataclismo, animais misteriosos esperam no meio das folhas.

Por causa desta ambiguidade narrativa, estes desenhos estão também no limite entre a ilustração e a banda desenhada. Mas, embora seja costume acreditar no oposto, a ilustração é, num certo sentido, a inimiga da banda desenhada. Um bom ilustrador sabe como condensar um texto, uma ideia ou um evento num só desenho. Numa banda desenhada, pelo contrário, cada desenho deve fazer parte de uma série – não funciona isoladamente, mas deve ajudar uma  narrativa a avançar. Em Portugal, onde nunca houve uma indústria de BD que se pudesse auto-sustentar, muitos dos autores trabalham profissionalmente como ilustradores e isso dá origem, não a uma situação de compromisso, mas a um estilo de banda desenhada muito evocativo que encontra a sua força expressiva nessa indefinição entre imagem e narrativa.

Este texto foi escrito como introdução a uma exposição do trabalho de João Maio Pinto (que pode ser seguido no blogue Please Patronize Our Sponsors) no Festival de Banda Desenhada de Beja.

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Filed under: Banda Desenhada, Crítica, Cultura, Design, Ilustração

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