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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Fujam, vem aí o design.

designandcrime

Por vezes, ao ouvir criticar iniciativas ligadas ao design como o MUDE ou a Experimenta fico com a sensação que o que está a ser criticado não são tanto as suas qualidades ou os seus defeitos, como o facto de terem que ver com design. Por serem uma coisa bem distinta da Arte com “A” grande, os eventos e instituições do design são automaticamente olhados com desconfiança, como algo leviano, no qual gastar dinheiro público é sinal de que se anda a promover a cultura do “papel de embrulho” e dos “happy few”, tal como Alexandre Pomar insinua no seu blogue. O design deve ser das poucas coisas que um crítico de arte pode, sem se aperceber da ironia, acusar de elitismo.

Para muitos destes críticos, o design é uma ameaça total que está em vias de engolir o grosso da cultura. Não é uma ideia nova: a sua encarnação mais eminente é o texto Design & Crime, de Hal Foster, que se tornou o bebedouro onde a crítica de arte mais preguiçosa vai buscar o pouco que sabe sobre design. No entanto, embora este texto seja um ataque mais argumentado do que é costume, tem também as suas fragilidades. A principal delas é tomar o trabalho do designer canadiano Bruce Mau como o exemplo mais representativo do que é o design contemporâneo. Mau é influente e marcante mas está longe de ser o designer típico – mesmo o designer-estrela típico, se é que isso existe –: bastaria o facto de se assumir como um “designer-autor” para o demonstrar. Construir uma visão do que é o design a partir do trabalho de Mau é como acreditar que a arte contemporânea se resume a uns quantos animais embalsamados em aquários de formol.

Não estou, como é evidente, a dizer que se deve aceitar acriticamente o design ou os seus eventos. Escrevo crítica de design tanto como uma reacção a quem rejeita preconceituosamente o design, como a quem o defende cegamente. Acredito que o design é uma coisa complexa, com opiniões, tendências e culturas muito distintas. Tal como a arte, a política, a religião ou o desporto, não sobrevive a generalizações grosseiras, mas floresce com a discussão pública e informada. Infelizmente, essa discussão em Portugal é particularmente fraca. Como é evidente, os próprios designers têm muita culpa na situação, ao não conseguirem produzir um discurso público saudável sobre a sua própria actividade.

O problema maior é, no entanto, aquilo que só pode ser descrito como uma intolerância estrutural da cultura portuguesa: cada uma das artes vê as outras como um desperdício de dinheiro[1]. Talvez pela falta de financiamento, por haver um bolo pequeno para dividir entre muita gente, as artes plásticas, por exemplo, vêem o design como uma ameaça, especialmente quando este ocupa os mesmos espaços expositivos. Isto acontece porque, tal como em outros países, o design se tem tornado também aqui numa alternativa light à arte mais séria, uma espécie de arte descafeinada, sem os mecanismos extremos e bizantinos de legitimação institucional e crítica. Neste contexto, a acusação de Foster de que o design está a tentar dominar o mundo não deveria ser interpretada literalmente, mas como o efeito de uma disputa territorial e financeira entre o design e a arte, dois cães ao mesmo osso.

Mas o design não é apenas um sucedâneo desproblematizado da arte. Se os designers expõem, se dão conferências, se escrevem artigos e livros não é certamente por quererem ocupar o lugar da arte, mas porque o design é uma disciplina com milhares de praticantes empenhados numa discussão que transcenda a mera prática, interessados na história da sua disciplina e que se podem queixar com toda a justiça que não estão adequadamente representados dentro da cultura portuguesa.

 


 

 

[1] Há uns tempos assisti a uma discussão entre o organizador de um evento ligado à Banda Desenhada e alguém que dizia que gastar dinheiro nisso seria um desperdício, tendo em conta que aqui em Portugal a BD é uma actividade minoritária, que não dá dinheiro, nem tem público. Quem dizia isto era o organizador de um evento de Jazz, em relação ao qual se poderia dizer exactamente as mesmas coisas.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia

4 Responses

  1. Mário diz:

    O mesmo poderão dizer os fotógrafos, já que em Portugal apenas parece haver os “artistas” que habitam no espaço rarefeitos das galerias “bem”, os “bate-chapas laborais” (foto-reporters) e o “povo amador” que só reproduz ad-infinitum os clichés mais batidos.
    Eu não acho que seja assim, mas parece que há quem goste deste estado das coisas.

  2. “design domina o mundo” – não é tanto esse o sentido da crítica de Hal Foster, mas sim uma certa visão política do design que corre o risco de dominar uma certa forma de fazer política. O design como espectáculo, com as tonalidades politicamente funestas que essa vertente tem. acredito que Design é a actividade humana fundamental de relação ecosistémica no espaço cultural. construir uma mesa é gerir o espaço entre individuos, diferenças… A política é design. logo é grave o mau design. A má arte não prejudica ninguém. As galerias “bem” são lojas de artigos de luxo. Apenas isso. O modo como se pensa o transito numa cidade é design e prejudica muita gente. A preguiça intelectual na política e no design prejudicam muita gente.
    não fui ainda ao MUDE e não vou comentar uma coisa que não conheço. Mas um museu de design é um problema e é pelo problema que deveria ser pensado. Deveria ser um museu político por excelência…

  3. Frederico diz:

    Como o próprio Mau diz, o design muitas vezes só se torna visível — ou só é falado — quando falha. Sobretudo pela comunidade artística que, como o Mário diz, tende sempre a olhar para os designers como os eternos artistas “aplicados”, cujas mãos estarão sempre “sujas” de capital e do mundo real (outra eterna ironia).
    Gostaria de saber por que razão o Gonçalo Pena considera um museu do design um problema, e se o MUDE encaixa nessa concepção. É que, a bem ou a mal, museus do design (tal como museus de arte, quem diria!!) há muitos. Assim como problemas.

  4. […] como já tinha dito há algum tempo atrás, das coisas que mais me aborrece dentro das discussões sobre design são […]

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