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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Paginar no Word (mas ao contrário)

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Uma das coisas que mais irrita o designer gráfico médio são aqueles chico-espertos que, armados de Word, Powerpoint ou pior, se dedicam a tentar paginar, fazer cartazes ou até sites. É uma irritação antiga, já muito comentada, que não vale a pena desenvolver aqui. Por mera simetria, talvez fosse mais produtivo ou interessante fazer um inquérito na Faculdade de Letras, a ver se por lá acham piada àqueles designers que escrevem um livro inteiro no Quark. 

Tenho a sensação que não diriam muita coisa, em parte porque poucos terão ouvido falar do programa – pensarão talvez que é um novo processador de texto. Mas, apesar da aparente improbabilidade, há pelo menos dois designers que, usando o Quark, já escreveram um livro com mais de duzentas páginas, de ficção, com personagens e enredo, daqueles que as pessoas normais até lêem e gostam, daqueles que aparecem nas listas dos melhores livros do ano. 

Um desses livros improváveis é A Heartbreaking Work of Staggering Genius, escrito por Dave Eggers, designer auto-didacta e editor da Tymothy McSweeney’s Quarterly Concern, uma das revistas graficamente mais interessantes da última década. Outro é The Cheese Monkeys, da autoria de Chip Kidd, mais conhecido por fazer as capas da Alfred Knopf.

Dos dois, o de Kidd é o que mais directamente tem a ver com design. Passa-se numa pequena universidade americana nos anos cinquenta e acompanha o primeiro ano de uma turma de iniciação ao design gráfico. O seu subtítulo é “uma novela em dois semestres” e cada capítulo corresponde a uma avaliação. O enredo cobre as desventuras de um aluno de arte que por acidente vai parar a design, acabando por descobrir a sua vocação. Pelo meio, trata-se da diferença entre design e arte comercial, do que separa a arte a sério do design e das pessoas que perderam parte de um dedo a cortar com um X-Acto na véspera da entrega.

O personagem mais marcante do livro é o carismático professor de design, Winter Sorbeck, que trata os alunos com um sentido de humor que seria difícil de suportar na vida real. Numa das avaliações, deita fogo ao trabalho de um dos alunos. Em outra, pede aos alunos para desenharem placas para pedir boleia e depois leva-os para a beira da estrada para as testarem. Se o primeiro carro parar levam um A; se for o segundo, um B; o terceiro, um C, e por aí adiante.

A Heartbreaking Work of Staggering Genius, por outro lado, só muito indirectamente fala de design. É a história do próprio Eggers, que teve de criar o seu irmão mais novo depois dos seus pais terem morrido de cancro com um mês de diferença entre os dois. Embora se baseie em factos reais, a maneira como a história é contada é bastante excêntrica, com alguns personagens começando de repente a falar como se tivessem consciência de fazerem parte de um livro, queixando-se dos seus pseudónimos e da forma como estão a ser retratados. Entretanto, servindo de fundo à acção, conta-se a história levemente romanceada de um dos primeiros projectos editoriais de Eggers, ainda na fase pré-McSweeney’s , mas não se fala praticamente nada sobre design.

Sob o ponto de vista gráfico, os dois livros têm muito bom aspecto. O de Kidd é o que se esforça mais, com texto impresso na borda das páginas, nas bordas da capa dura, com uma sequência de abertura tipográfica muito interessante, baralhando propositadamente as divisões habituais do começo do livro, guardas, frontíspicio, informação legal e ficha técnica. O de Eggers é mais discreto, à primeira vista parece apenas um vulgar paperback de aeroporto. No entanto, tem alguns pormenores muito interessantes em que só se repara com alguma atenção. A contracapa funciona como a capa de uma errata de quarenta páginas que funciona como um livro dentro do livro. A sequência de abertura é bastante divertida, com trinta páginas de agradecimentos, que incluem a Nasa, uma lista de metáforas usadas na história, outra de custos e despesas envolvidas na produção do livro. A pérola é, no entanto, a ficha técnica, aparentemente normal, mas que mistura histórias e anedotas com a informação dos direitos de autor e as notas de edição.

No entanto, apesar de todo o fogo de artificio, nenhum dos livros usa muitos estratagemas gráficos nas suas narrativas. Uma ou duas vezes, Eggers usa diagramas e plantas de casas a meio do texto. Noutra ocasião, põe uma parte do texto num tamanho mais pequeno para ilustrar a voz fininha de um dos personagens ao telefone; Kidd utiliza texto em cinzento para simular o mesmo efeito. No entanto, nenhum dos livros é particularmente inventivo neste aspecto, sobretudo se comparados com Extremely Loud and Incredibly Close, de Jonathan Safran Foer, por exemplo, um romance em que uma série de dispositivos gráficos, desde fotografias até composições tipográficas, são incluídos organicamente dentro da narrativa, ou com os livros de W. G. Sebald, em que fotografias são usadas como parte da história. Pelo contrário, nos livros de Eggers e de Kidd, as partes mais inventivas do ponto de vista gráfico, são as que se situam fora da narrativa: as capas, a encadernação, as fichas técnicas, o cólofon. É como se estes designers, mesmo sendo os seus próprios clientes, mesmo tendo carta branca, ainda assim não tivessem outro remédio senão continuar a separar entre forma e conteúdo, designer e cliente. São bons livros, que se lêem bem, com design muito trabalhado, mas com narrativas mais ou menos convencionais. Resumindo: não sei porque foram escritos no Quark – The Life and Opinions of Tristram Shandy, de meados do século XVIII,  com os seus diagramas e trocadilhos tipográficos, parece mais um livro escrito no Quark do que qualquer um destes dois.

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Filed under: Autoria, Cliente, Crítica, Cultura, Design, Publicações, , , ,

4 Responses

  1. Nelson diz:

    E depois há aqueles que, juntando grafismo e história, são tão excitantes graficamente que a forma acaba novamente por se sobrepor à palavra. Acontece, por exemplo, no VAT:an opera in Flatland, onde é muito fácil demorar-se mais tempo a Ver o livro do que simplesmente a interpretar a história que nele se conta.

  2. Nelson diz:

    Errata: O livro chama-se VAS: an opera in Flatland.

  3. pedromarquesdg diz:

    O “Cheese Monkeys” não li, mas adorei o “The Learners”. Creio que o livro saiu pouco antes da “Mad Men”, e é capaz de ter dado um empurrão criativo à série. E o que é curioso no Kidd é que ele tem estilo literário de sobra para se deixar enredar nas acrobacias tipográficas: pura e simplesmente, não precisa delas. E não me devo enganar se disser que o 3.º romance já será escrito em Word…
    Por falar neste, fiz uma vez o papel de autor de um pequeno livro “básico” sobre o Quark para uma editora portuguesa, que funciona de uma forma sui generis: não tem um único designer ou paginador em full ou part time, sendo os autores que compõem os livros directamente no Word a partir de templates (sendo as imagens obtidas por PrintScreen). Dei por mim a escrever, a páginas tantas, que um paginador profissional apenas deveria usar um programa de paginação e não um processador de texto… e compus esta frase no Word. Foi, realmente, um pesadelo (basta dizer que uma das fontes obrigatórias era a… Verdana), mas, por outro lado, trata-se de um desafio curioso: como retirar do Word o máximo apesar das suas óbvias limitações.

    Pedro Marques
    pedromarquesdg.wordpress.com

  4. […] William Gibson, uma espécie de thriller tecnológico girando à volta do design. Também gostei de Heartbreaking Work of Staggering Genius de Dave Eggers ou de Extremely Loud and Incredibly Close de Jonathan Safran Foer, mas não […]

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