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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Saber discutir

heartfield

Surpreende-me que frequentemente se desvalorize uma opinião apenas por ser uma opinião. “É só uma opinião”, diz-se. Ou então, mais grave: “Há opinião a mais”.

Ao dizer-se coisas deste género, está-se a estabelecer uma oposição implícita entre opiniões e factos – uma opinião é falível, enquanto um facto é sólido. Contudo, isto é apenas uma forma de dar a entender que as nossas opiniões são factos, enquanto as das pessoas com quem discordamos são apenas opiniões.

Os designers gráficos, por exemplo, são por vezes treinados na escola para verem o design como algo indiscutível, que basta mostrar o design a um cliente para que este não tenha outro remédio senão ficar convencido – o design é um facto e contra factos não há argumentos.

No entanto, ninguém apresenta factos só por si, mas apenas opiniões sobre eles. Isto pode dar a entender um relativismo absoluto, que, sendo tudo opinião, todas as opiniões valem o mesmo. Contudo, tal não é verdade: cada opinião tem a sua qualidade, determinada pela forma como se apoia nos factos, pela forma como é construída, pela eficácia da sua argumentação. É relativamente fácil distinguir entre opiniões fracas e mal construídas, assentes em falácias e preconceitos, e opiniões bem construídas, complexas e elegantes.

Uma boa opinião, por exemplo, não pretende submeter ou calar um ponto de vista oposto, mas convencer os outros da validade do nosso ponto de vista. Mesmo que no fim não concordem connosco terão talvez de reexaminar e melhorar a sua própria opinião. Os dois lados ficam a ganhar com este tipo de discussão.

Pelo contrário, quando um designer procura impor o seu trabalho a um cliente sem que haja qualquer tipo de discussão, está por um lado a dizer que a solução que apresenta é – ou deveria ser – argumento suficiente para ser aceite de imediato; por outro, está a dizer que esse argumento se baseia na sua experiência enquanto designer, que é evidentemente superior à do seu cliente. Trata-se apenas de um argumento de autoridade, que é bastante falível, porque até o melhor profissional pode falhar; até aquele com o pior currículo pode acertar. O próprio cliente pode ter mais experiência a lidar com designers e com design do que um designer a lidar com clientes.

A ideia de que o bom design é inquestionável é uma falácia. Enquanto muitos designers acreditam que só o designer pode determinar o sentido de um objecto de design, os melhores exemplos de design prestam-se a múltiplas interpretações, reinterpretações e apropriações – não é essa riqueza de sentidos possíveis que irá torná-los piores, antes pelo contrário. A noção de que o design deveria ser indiscutível ilustra uma incapacidade estrutural para negociar.

Cada designer deveria ser educado desde os tempos de escola para discutir, não só sobre o seu trabalho, como sobre o trabalho dos outros e sobre assuntos de interesse público. Deste modo estaria mais habilitado a defender o seu trabalho perante clientes e público. No entanto, dentro do sistema de ensino português a opinião é desvalorizada. Os alunos são frequentemente convidados, não a opinar sobre um assunto, mas a reescrevê-lo pelas suas próprias palavras, o que leva, na melhor das hipóteses, a que se aceite acriticamente tudo aquilo que se lê, na pior ao plágio puro e simples. Outro exemplo de como  a capacidade de argumentar passa desapercebida é a maneira como, quando se está perante um texto bem argumentado, se diz apenas que está bem escrito, dando a entender que a sua eficácia é meramente formal, uma questão de estilo e não de boa argumentação.

Seria tentador concluir que se, de modo geral, a opinião é tão menosprezada, não vale a pena valorizá-la dentro do design. No entanto, se é realmente assim em todo o lado, o design é um sítio tão bom como outro qualquer para começar a mudar. Se uma porção razoável da vida de um designer é passada a discutir, seria bastante melhor que fosse treinado para o fazer.

A imagem usada para ilustrar este post é um retrato do designer de cartazes alemão John Heartfield.

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Filed under: Cliente, Crítica, Cultura, Design, Ensino

5 Responses

  1. André Sousa diz:

    “Os alunos são frequentemente convidados, não a opinar sobre um assunto, mas a reescrevê-lo pelas suas próprias palavras…”

    Pela minha experiência como estudante acho que neste género de trabalhos, acontece é que o “reescrever” é mais o “interpretar” e “perceber” e em jeito de conclusão é nos sempre pedido uma opinião própria e fundamentada.

    Acredito contudo, que não seja caso geral… isso acredito, é pena.

  2. OH NÃO! Mas afinal quantos André Sousas há?

  3. É interessantíssimo como foste utilizar para ilustrar este texto um retrato desse enorme mestre da montagem, da crítica e da opinião, de seu nome John Heartfield; sobretudo por estar numa evidente acção de caricatura desse monstro da crítica, mestre da propaganda, de seu nome Joseph Goebbels!

    Vejam-se as “provas”; aqui, em pleno exercício (http://atlasshrugs2000.typepad.com/photos/uncategorized/goebbels1_3.jpg) e aqui, ele próprio alvo de caricatura (http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/1/18/What_is_an_aryan.jpg/180px-What_is_an_aryan.jpg).

    Curioso…

    😉

  4. O problema é que o cliente, na grande maioria das vezes dá argumentos que nunca poderão ser valorizados, nem por serem factos, nem por serem relativamente objectivos… até que ponto “amarelo porque gosto” poderá ser valorizado?

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