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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A grande barreira

Não me lembro onde o li, nem quem o escreveu, muito provavelmente não é algo confirmável, apenas outra daquelas lendas urbanas do design, mas aparentemente, no meio da informação da embalagem de um iogurte, a seguir a uma linha que avisava que em certas condições “alguma separação podia ocorrer”, aparecia um pequeno asterisco. Procurando com muita atenção podia encontrar-se, do outro lado da embalagem, impresso num corpo quase pequeno demais para ser lido, a nota que o asterisco referenciava: “mas o papá e a mamã ainda gostam muito um do outro.”

Era daquelas coisas que só um designer podia fazer, à última da hora, mesmo antes do trabalho ir para a gráfica, depois de passar por todas as revisões possíveis. Quase conseguimos imaginá-lo, num momento de cansaço, de humor ou daquele género de rebeldia que só quem já trabalhou num grande escritório compreende.

Aquilo que torna esta transgressão tão cativante, até inspiradora, para uma audiência de designers é o facto daquele colega ter, clandestinamente e sem outra razão para isso que não fosse divertir-se, saltado a rede electrificada que separa o quintal do designer do jardim do cliente, a grande barreira entre forma e conteúdo.

Lembrei-me dessa história outro dia, quando um amigo meu se queixou que uma das suas designers estagiárias estava sempre a mexer com os conteúdos, chegando por vezes a cortá-los, referindo como exemplo um cartaz e um folheto. Mesmo sem saber do contexto em que aquilo se tinha passado, assegurei-lhe que havia ocasiões em que se justificava cortar informação por iniciativa de um designer, desde que isso fosse feito com o consentimento do cliente. Se não fosse por isso, e se a edição de informação só dependesse do cliente, é bem provável que cartazes ou folhetos estivessem atravancados de informação, tudo o que o papel pudesse fisicamente aguentar.

Mas, mesmo nos casos mais comedidos, só muito raramente os conteúdos são adaptados ao formato em que são apresentados. Um exemplo clássico são aqueles clientes que preferem, de acordo com as regras do bom português, escrever “29 de Outubro de 2009”, em vez de “29 Outubro 2009” ou “29 10 09”, porque “as pessoas não iam perceber”. Escrever tudo por extenso talvez seja adequado a um livro ou a um contrato, mas num poster, por exemplo, há informação que pode e deve ser apresentada de forma mais abreviada.

De qualquer modo, não é assim tão estranho que a informação seja cortada para se adaptar a um determinado formato. Num jornal isso faz parte das tarefas quotidianas da edição. O texto de um colaborador é frequentemente modificado ou mesmo cortado para se adaptar quer ao estilo do jornal quer ao espaço disponível, desde que isso não altere o sentido original do texto. Mesmo a publicação de um livro, seja um romance, um tratado ou uma colectânea de textos inéditos, precisa frequentemente de algum trabalho de edição.

No entanto, em Portugal é costume assumir-se que este género de intervenção é uma forma de censura. Espera-se que um editor publique um texto tocando-lhe o menos possível. Por parte de muitos editores, não há também muita disponibilidade para fazer um trabalho de edição mais rigoroso, em primeiro lugar por que não há esse hábito, depois por mero comodismo, e finalmente porque, tendo em conta que a maioria dos autores são pouco ou nada pagos, a cavalo dado não se olha o dente.

Naturalmente, para que um designer possa trabalhar com conteúdos, a sua formação teria que reflectir isso, mas em muitas escolas ainda é sublinhada a ideia de que o designer só se deveria preocupar com colocar as coisas sobre o papel, deixando a responsabilidade dos conteúdos para o cliente. O resultado desta separação forçada de tarefas é pior design e piores designers.

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Filed under: Cliente, Crítica, Cultura, Design, Ensino

5 Responses

  1. Bravo! Apoiado! 7 Vivas! Emoção nas paredes! Vida nos iogurtes! Informação nos mupis?

  2. Concordo em absoluto. No limite, poderia acontecer colocar um iliterado a paginar. Confesso que sinto um pouco isso quando pagino numa língua que não entendo. Mas encontrar um “voçê” num anúncio ou cartaz é assustador, e não, infelizmente, é assim tão invulgar. Como pode um designer gráfico trabalhar infomação verbal de uma forma tão despegada? Esse tipo de atitude só contribui para o descrédito da disciplina e da responsabilidade assumida. Devemos, contudo, negociar as alterações com o cliente e adverter para a situação e não fazê-lo de forma “dogmática”, porque isso poderá trazer problemas.

  3. […] A grande barreira Post interessante sobre  forma e conteúdo (divisão arbitrária), iniciado com um causo/anedota/lenda urbana muito curioso. […]

  4. Tal como tantos outros, quando faço trabalho de paginação acabo muitas vezes por fazer sugestões de alteração de conteúdos aos clientes, ou mesmo correcções ortográficas e gramaticais. A voz interior que diz que por vezes não me deveria preocupar com os conteúdos (falta de tempo, dinheiro, etc.) é suplantada pela noção de que um trabalho imperfeito não irá para um portfolio, não será motivo de orgulho (pessoal e profissional) e será uma derrota para todos. Se quisermos ser pessimistas, poderemos ainda acrescentar que o público poderá culpar o designer por negligência ou responsabilidade directa sobre esses erros.
    No meio de várias falhas no meu percurso formativo, apercebi-me depressa que teriam sido vantajosas noções mínimas de edição e criação de conteúdos, que teriam, na minha opinião, toda a pertinência em ser incluídas nos currículos das licenciaturas em design de comunição.

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